Reportagem Angra, Geoff Tate’s Operation Mindcrime, Halcyon Way, Avelion @ RCA Club, Lisboa – 30/03/18

O heavy metal poderá ter sofrido muitas transformações ao longo dos anos e nesta mesma noite, poderia temer-se que uma proposta mais tradicional saí-se prejudicada pela visita à capital, mais concretamente ao Coliseu, dos Machine Head, boa representação da dita evolução do heavy metal. Nada mais longe da verdade, já que este elenco luxuoso para a noite de sexta feira santa atraiu uma multidão ao RCA Club – que se não esgotou, andou lá muito perto. Angra, Geoff Tate, os Halcyon Way e Avelion são quatro faces diferentes do heavy metal que proporcionaram uma autêntica viagem que ficaria para a posteridade. Vamos iniciá-la então.

Oa italianos Avelion foram os primeiros a subir ao palco, com a assistência ainda a meio gás mas que reagiu entusiasmandamente à entrada dos membros da banda no palco. Uma década de carreira mas o álbum de estreia de onde se apoiaram para toda a actuação foi editado apenas no ano passado. Após ouvir temas como “Fading Out”, “Burst Inside” e “Falling Down”, é difícil não ficarmos fãs, embora os mais cépticos poderão afirmar que o seu power metal tem mais energia do que propriamente originalidade.

A prova dos nove normalmente tira-se ao vivo e no caso dos Avelion, pudemos verificar uma banda bem entrosada onde alguns talentos individuais sobressaíram, nomeadamente os de Alessandro Ponzi na bateria e os de Leonardo Freggi na guitarra. A primeira visita da banda a Lisboa foi vencedora, tendo conseguido conquistar certamente mais alguns fãs para a sua causa, tal não foi a reacção e recepção por parte do público presente na sala de Alvalade.

Quando a banda de abertura tem uma reacção tão positiva, tem-se logo a certeza que estávamos perante uma grande noite de música. E com os norte-americanos Halcyon Way, os níveis de entusiasmo não caíram. Muito pelo contrário. Apesar do seu último álbum, “Conquer”, ter sido editado no já longíquo ano de 2014, o seu metal progressivo (ora mais power, ora mais thrash até com recurso a guturais e tudo) conseguiu agarrar o público.

Com o foco da sua actuação no já citado último álbum, a banda ainda apresentou alguns temas do álbum que se prevê que seja lançado ainda este ano, destacando-se o tema “10000 Ways” deixando boas expectativas em relação ao mesmo. Apesar do uso em profusão de pistas préviamente gravadas, a actuação não deixou de soar orgânica, principalmente pela forma como as linha da frente (ou seja os dois guitarristas, baixista e vocalista) interagia de forma bem conseguida em termos vocais. O tema que encerrou a sua actuação foi “Home” que foi dedicado ao RCA Club e à forma como aí se sentiam em casa.

Sentia-se no ar a expectativa pelo concerto que se seguia. E não era para menos. Geoff Tate é um nome lendário com um passado (mais longínquo) brilhante e o álbum “Operation: Mindcrime” é um clássico indiscutível do heavy metal em geral e do metal progressivo em particular. E não foi preciso muito para entrarmos na frequência necessária para apreciar devidamente o seu concerto. Bastou esquecermos toda a confusão que houve entre Tate e os seus antigos companheiros e, principalmente, os álbuns mais fracos editados sobre a designação Operation:Mindcrime, ciclo que aparentemente chegou ao fim com o trabalho lançado meses atrás, o terceiro de uma anunciada trilogia.

Cedo se percebeu que o que iríamos ouvir seria o álbum clássico por inteiro, já que esta era a digressão que comemorava as três décadas do lançamento de “Operation: Mindcrime” e Tate é quem detém os direitos exclusivos para o poder tocar ao vivo por inteiro. A primeira e a segunda parte, francamente inferior. Felizmente ficámos apenas pela primeira e foi uma experiência fantástica. Com uma banda mais que competente por trás – tirando o facto de um dos guitarristas, Kieran Robertson, estar mais preocupado com as poses do que realmente em tocar, e foram raras as vezes em que agarrou nos solos com alma – o centro de tudo foi Tate.

Apesar da idade não existiu um momento quer que fosse em que o vocalista tivesse falhado ou sequer poupado, estando imaculado. Mas para os mais cépticos, que não se fique a pensar que o que se ouviu no RCA Club não foi simplesmente a mesma coisa que estar a ouvir o CD. A experiência foi mais próxima de como se tivessemos ido ao teatro, ver e, sobretudo, ouvir ouvir temas como “Revolution Calling”, o tema-título, “Speak”, “Spreading The Disease”e sobretudo a “Suite Sister Mary” onde não se teve Pamela Moore mas teve-se uma Emily Tate, filha do vocalista, que não se ficou nada atrás. A comunicação com o público foi praticamente inexistente mas foi algo que não se sentiu como um problema – até porque os gestos que Tate fez eram suficientes para deixar claro de como as reacções do público estavam a causar um impacto positivo. História desceu a Lisboa e aí ficou registada.

Muitos já estavam de barriga cheia. E não era para menos dado o poder da actuação de Geoff Tate e os seus Operation: Mindcrime. Mas ainda faltavam os senhores da noite, os Angra, a maior banda de power metal a cantar em português do mundo que regressaram renovados com um excelente álbum, “Omni”, que ocupou também uma boa parte da setlist da actuação da banda brasileira. E para quem julgava que não se poderia subir ainda mais em termos da recepção por parte do público, bastou a entrada em palco de Rafael Bittencourt e companhia para que o RCA Club fosse ao rubro, principalmente com a entrada de Fabio Lione.

Inicialmente o som da banda estava longe de perfeito e a actuação de “Travelers Of Time” sofreu um pouco com esse facto. Felizmente foi sendo corrigido ao longo da música e deixou de ser uma questão até ao final do concerto, exceptuando talvez pelo volume algo elevado que ofuscava os detalhes que as músicas dos Angra têm – e são consideráveis. Os novos temas foram muito bem recebidos mas foi quando se ouviu temas como “Nothing To Say” e “Acid Rain” (cantadas do início ao fim) que o público mostrou mais entusiasmo.

Fabio Lione esteve comunicativo, como já o tínhamos visto no Vagos Metal Fest do ano passado com a reunião dos Rhapsody, embora nem sempre seja fácil de perceber o que está dizer devido à forma pausada como fala português – só o esforço é de valorizar. O ambiente era de festa e ficou a ideia que tudo o que a banda brasileira atirasse para o público, seria muito bem recebido e devolvido com igual entusiasmo. Mas foi com “Lisbon” (do “Fireworks”, que completa este ano duas décadas de existência) que o nível de recepção do público atingiu um novo patamar de excelência, um dos temas mais bem recebidos da noite.

Em jeitos de encore, ainda se teve direito a dois temas acústicos interpretados apenas por Rafael Bittencourt – “Lullaby For Lucifer” e “Gentle Change” com um cheirinho da “Reaching Horizons” que impressionaram pela entrega vocal do guitarrista – e “Rebirth” (que Bittencourt referiu como apopriado ao presente momento da banda em que ela surge renovada após a saída de Kiko Loureiro para os Megadeth e com a entrada de Marcelo Barbosa) e a sequência “Carry On” e “Nova Era” que acabariam por ser o ponto final numa grande noite.

Não houve margens para defeitos nem para momentos menos bons, sobretudo a nível técnico, onde todos estiveram em topo de forma – destacando o já referido “novato” Marcelo Barbosa e o baterista Bruno Valverde que tem a mesma idade que a própria banda – debitou um solo de bateria de extremo bom gosto – e não, não são coisas ultrapassadas. Quando há talento, há sempre espaço para a sua demonstração. Quatro bandas, quatro faces do heavy metal diferentes mas que se conjugam muito bem em mais de quatro horas de música de encher o coração quer dos fãs quer das próprias bandas envolvidas.

Reportagem por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos Notredame Productions/Metal’s Alliance

Ver Photo Report Avelion aqui

Ver Photo Report Halcyon Way aqui

Ver Photo Report Geoff Tate’s Operation: Mindcrime aqui

Ver Photo Report Angra aqui


 

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