Reportagem Desire, Dark Oath @ R.C.A. Club, Lisboa – 16/12/2017

Com o Outono a definhar, pareceu apropriada a romaria ao R.C.A. Club para uma noite de celebração por uma das maiores, se não mesmo a maior e mais histórica banda de Doom Metal nacional: Desire. Em 1996 foi lançado o “Infinity… A Timeless Journey Through an Emotional Dream”, uma das pérolas do metal nacional que agora tem honras de ser reeditado remasterizado pela Alma Mater Records, em CD, vinil e formato digital. E esse acontecimento foi assinalado com um evento especial que muitos fãs da banda já aguardavam, sem exageros, há mais de vinte anos. O facto dos Desire terem acabado uns poucos anos atrás obviamente que também tornou o interesse neste concerto ainda mais elevado.

Abrindo as portas bastante cedo de forma a garantir que todos pudessem presenciar as duas bandas, o tempo flui bem até a primeira banda da noite, os Dark Oath subirem ao palco já com uma sala muito bem composta. Acompanhados pela névoa das máquinas de fumo, irromperam com a violência melódica do seu death metal, com um som de qualidade irrepreensível naquela que foi a sua estreia no R.C.A. Club.

Uma excelente estreia, diga-se de passagem, apesar de alguma timidez e de alguma demora em soltar-se que não beliscou a qualidade da sua performance. O foco foi sobretudo o álbum de estreia onde destacamos temas como “Watchman Of Gods”, “Thousand Beasts” e “Brother’s Fall”. Um bom aquecimento por parte de uma banda que já há algum tempo confirmou a passagem do seu estatuto de promessa para confirmação – bom domínio instrumental, uma voz poderosíssima e excelentes temas.

Assim que terminou a actuação dos Dark Oath, a mente estava logo voltada para a entrada dos Desire em palco mas isto ainda demorou a acontecer, tendo lugar uma cuidadosa e morosa mudança de palco, algo que valeu a pena já que o ambiente ficou propício para a celebração que viria a acontecer: folhas a representar a melancolia do Outono, o suporte de microfone de Tear formado por correntes, velas acesas sendo em muitos momentos a única iluminação no palco, alguns membros do público a imitar corvos. Era real, íamos mesmo ouvir “Infinity… A Timeless Journey Through an Emotional Dream”.

Com o verso de Fernando Pessoa que ilustra a contra-capa do artwork do álbum (“De que te serve o teu mundo interior que desconheces? Talvez, matando-te, o conheças finalmente… Talvez, acabando, comeces…”) a soar, com os ânimos ao rubro, começou-se a ouvir “Prologue (Ω). Conforme os membros da banda foram entrando, foi-se ouvindo aplausos mas a maior salva foi guardada para Tear. De assinalar a presença de Tiago Flores, dos Corvos, no violino e a de Eduarda Soeiro na voz soprano, duas grandes mais valias para o concerto que se iria ouvir.

Respeitando a ordem do alinhamento do álbum, fomos guiados por uma viagem intemporal, um autêntico sonho para todos os presentes. Temas épicos como “Leaving This Land of Eternal Desires” e “A Ride In A Dream Crow” bateram muito forte, apesar de alguns problemas técnicos que foram aparecendo de vez em quando mas que não foram suficientes para sabotar a magia desta obra intemporal. E caso houvesse algum descrente entre o público, que não havia, certamente ficaria impressionado pela forma como as palmas soavam no final de cada trecho dramático como se estivéssemos a assistir o final de um acto numa peça ou de um movimento num concerto de música clássica.

Correndo o risco de esgotar o stock de adjectivos, foi uma colecção de momentos emocionantes, momentos esses (arriscamos a dizer) que foram acumulados durante mais de vinte anos pelos fãs da banda e que naquela noite especial tiveram a oportunidade ver materializados em cima do palco acolhedor do R.C.A. Club. Algo que é difícil de explicar a quem não esteve lá e a quem não vê e sente esta banda como um dos mais preciosos tesouros do nosso underground, felizmente agora recuperado. Mas a magia não acabou com “Infinity…”. Ainda tivemos direito a mais umas incursões pela discografia da banda: “Torn Appart” (do “Locus Horrendus”), “White Falling Room” (do “Crowcifix”) e no final, a pièce de résistance, a épica trilogia em três movimentos “When Sorrow Embraces My Heart” (do “Pentacrow”), reduzida apenas ao segundo e terceiro movimento mas sem perder pitada do seu poder emocional.

Emoção esteve na base de tudo e é essa mesma emoção, crua, que fez com que temas como “Forever Dreaming (Shadow Dance)” soassem mais arrepiantes do que a versão de estúdio – algo que julgávamos impossível. Pura emoção visceral. A banda terminou agradecendo tanto à Alma Mater como ao público no RCA Club mas desconfiamos que o sentimento de gratidão era recíproco, porque a magia presenciada é daquelas que apenas se presencia uma vez na vida. E a melhor forma de encerrar a noite foram as palavras de Tear que garantiram não ser uma despedida e sim um “até breve”. E o corvo renasce…

Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos Rastilho Records/Let’s Go/Alma Mater Records

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