Reportagem Earth Drive, Dollar Llama @ Sabotage Club, Lisboa – 30/12/17

A noite de véspera de véspera de ano novo foi de festa. Não tão simbólico como o início de mais um ano, mas algo bem mais concreto. No geral, a celebração da música de excelente qualidade feita em Portugal. Em particular, a festa de lançamento do fantástico álbum dos Earth Drive, “Stellar Drone”, festa essa que tinha como brinde a presença dos Dollar Llama, eles que também lançaram recentemente “Juggernaut”, igualmente fantástico.

O facto desta celebração acontecer no Sabotage Club só fez com que fosse sentido de forma mais visceral e até intimista. O que é ideal já que estamos a falar de rock orgânico, que deve ser sentido não só, obviamente, pelos seus intérpretes, mas como principalmente pelo público. Com a distância entre o palco e o público a ser praticamente inexistente, a energia foi uma constante que ajudou a que o poder ainda fosse incrementado quando se julgaria tal ser impossível.

Atípicamente, a banda principal foi a primeira a subir ao palco, onde o foco foi obviamente “Stellar Drone”. Se na nossa opinião este trabalho eleva e muito o nível da banda do Montijo, transportado do disco para os palcos, a potência é consideravelmente maior. Mais que maior, é mais… profunda. Uma verdadeira experiência catárquica. Não fosse a entrega de Sara Antunes, hipnótica de tão cativante, e fecharíamos os olhos para diversas viagens.

Ainda falando de Sara, a sua performance e expressão corporal têm sempre um grande impacto, que nos fazem sentir intensamente temas como “Dead Blood For The Royal Weather” e “Known By The Ancients”, com a restante banda trazer especial energia e entrega. Impressionante a potência de Luís Eustáquio na bateria e a solidez do baixo de Luís Silva, gigantesco a assumir o ritmo – principalmente quando a guitarra teve uma corda partida – e claro, Hermano Marques, que trazia tanto peso como atmosfera ao som dos Earth Drive, onde nem o azar que teve conseguiu manchar a sua actuação ou a da banda. O rock é assim mesmo, perfeito quando é imperfeito.

Depois de uma grande actuação dos Earth Drive, era chegada a vez dos Dollar Llama que a exemplo da banda anfitrião do evento, e como já dissemos, têm às costas um excelente álbum: “Juggernaut”, que foi o foco da sua actuação. A mudança de palco foi algo morosa, principalmente devido à bateria, mas depois de “Semigod” começar a soar, todo o tempo de espera foi apagado da memória – o facto do extremo bom gosto da música que se fazia ouvir, como já é apanágio no Sabotage, nesse tempo também ajudou, e muito.

Menos viajantes e mais directos mas igualmente potentes, os Dollar Llama demonstraram estar em topo de forma e muitas vezes convidaram o público ao movimento, algo que as próprias músicas por si só acabaram igualmente por fazer. Mesmo num palco bastante pequeno, isso não foi impeditivo para que o quinteto sentisse fisicamente a música que estava a tocar, principalmente o vocalista Tiago Simões, um autêntico dínamo. Não seria para menos, já que malhões como “Bocanegra” e “Louder”, principalmente a explosiva “Stagefires”, até aos mortos fazem efeito. Com duas guitarras cheias de groove e a complementarem-se (Hugo Vieira e Chikko Marques, uma dupla cada vez mais oleada) e uma base ritmíca capaz de aguentar um terramoto, onde a solidez de Pedro Cardoso na bateria e de José Dinis no baixo são peças imprescindíveis.

Uma actuação forte que contagiou todos de tal forma que ainda “obrigou” a banda a fazer um encore improvisado. No final saíram todos satisfeitos por uma noite de rock nacional (mesmo que cantado em inglês, não deverá ser desprezado ou ignorado por esse factor, principalmente quando a qualidade é gritante). Ambas as bandas agradeceram ao Sabotage, à Raging Planet (e uma à outra) e ao público mas acreditamos que no final foi o próprio público que se sentiu grato porque magia destas não é algo que aconteça todos os dias.

Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos a Earth Drive e Sabotage Club

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