Reportagem Inverno Eterno, Black Howling, Gaerea @ RCA Club, Lisboa – 26.05.18

 

“E a Sombra acabou sem ser”. Aconteceu no Sábado dia 26 de Maio, no RCA Club, Lisboa, o concerto de Inverno Eterno, o qual terá sido a última aparição da banda. Passados 10 anos após o lançamento do álbum “Póstumo”, a banda decidiu reunir-se para dar este último concerto. A celebração contou com a presença dos Black Howling: passaram 11 anos desde a primeira actuação da banda, também com Inverno Eterno, o que assinala assim uma data mística nessa noite. E a iniciar todas as hostilidades, tivemos em palco os Gaerea, que nos trouxeram o tom sinistro e perturbador do seu black metal moderno. Escrevemos anteriormente na World of Metal sobre a antecipação deste concerto, e esse artigo pode ser verificado aqui.

Nota: parte deste texto e momentos relatados foram escritos durante o concerto, tentando conservar fielmente o sentimento e a memória desses momentos.

 

Gaerea

 

Começa o ritual. A luz é fria. Não irá mudar muito durante o concerto. Entra o fumo e entra o som, com a luz azul a espalhar-se pelo palco. A primeira inquietação da noite é o som de ´Santificato’, o mesmo que inicia o primeiro disco da banda, o seu EP homónimo, editado pela italiana Everlasting Spew Records, em 2016. Será este EP o manifesto tocado praticamente na íntegra, apenas à exceção de um tema. E pela mesma ordem, segue-se ‘Final Call’… a sério? Aquela introdução de bombo duplo a contrastar apenas com os acordes soltos, apenas comparada com igual final épico do tema. Estão apresentados; o black metal é melódico, cortado por vocais rasgados e agressivos, a música é intensa, e a atuação teatral. Por vezes parece que estão a pregar a palavra.

O som mais uma vez está incrível no RCA, e em poucos minutos, o pessoal já presente concentrou-se na sala talvez já mais de metade cheia e apreciou.

Do EP de estreia, tocaram ainda os temas ‘Pray to your false God’, ‘Void of Numbness’ e ‘Endless Lapse’, este apenas disponível em versão digital e na edição limitada em vinil.

Considero a atuação dos Gaerea devastadora. Não dirigem muitas palavras para o público. A comunicação deles expressa-se de outra maneira: em forma de raios de luz e a névoa que atravessa o público enquanto detonam o palco com aquele peso. Aquele peso, pois é o momento em que apresentam ‘Whispers’, primeira música da noite retirada do novo disco ‘Unsettling Whispers’, o primeiro longa-duração da banda, editado pela Transcending Obscurity Records. Apesar do lançamento oficial do disco estar marcado para 22 de Junho, os Gaerea tiveram a gentileza de o disponibilizar no concerto, em versão muito limitada de Box-set, e em digipack.

Terminam com mais um tema do álbum novo, a apoteótica ‘Catharsis’, que se alimenta de ritmos brandos ao começo, mas ao seu tempo avança para uma pulsação inesquecível. É isso mesmo. Arrebatador.

Gaerea a mostrar que estão preparados para a conquista. Quer se seja um defensor conservacionista de black metal tradicional, puro e duro, ou um apreciador mais permeável a várias infusões modernas dentro do estilo, uma coisa é certa: não será mais possível ficar indiferente à qualidade e inovação que esta banda traz à cena. Há toda uma imagem coesa, artwork e sonoridade disruptiva, aliadas a um lançamento de um muito aguardado disco, um promissor triunfal.

Voltava para outra dose já amanhã.

 

 

Black Howling

 

A massa de audiência já se faz sentir e está compacta. O RCA está perto de esgotado nesta noite. É a segunda parte do ritual, e tudo começa com a luz vermelha e o fumo que invade o palco. Os Black Howling vão começar.

O vocalista Pedro Esteves define-se entre o fumo de costas para o público, descalço em palco e estará pronto para arranhar a voz do caos. Há muitas partes instrumentais de peso, interessantes, muitas partes instrumentais em contínua destruição, e que fazem do som da banda uma grande pomada.

Eles levam o seu tempo, com muitas passagens melódicas, e ainda bem. Mas aquele som estilhaçante. E por vezes não é fácil. A actuação é um acto de exorcismo, é como um caminho que tens de percorrer. Um caminho até um estado de transe. Aqui não há adornos, só luz vermelha e peso em bruto.

Confesso que não fez a minha praia. O som estava estridente, por vezes não era fácil entender. Por vezes algumas paragens um pouco mais demoradas entre as músicas, mas faz-se silêncio na casa. A descarga não deixou de ser pura energia e entrega da banda, e acredito que foram apreciados pelos fãs.

Os Black Howling estão presentes desde 2002, e detém uma discografia extensa para a sua década e meia de existência. O próximo trabalho, será o recentemente lançado álbum ‘Return Of Primordial Stillness’, com data anunciada para 27 de Julho de 2018.

 

 

Inverno Eterno

 

A luz não varia muito. O tom é quente, vermelho, e o fumo… no momento da abertura dos Inverno Eterno soa o tema instrumental ‘A Influência Sombria da Alma Humana’. A casa estava perto de cheia, e a atuação da próxima hora viria a ser um momento de culto muito apreciado, com a quietude de uma audiência hipnotizada. E é a música da escuridão, inspirada na poesia de Fernando Pessoa, o black metal melódico. Solidão, desespero, morte.

A luz não varia muito. E agora o tom é frio. O azul, o fumo, a noite no tema ‘A beleza da vida em dias que não existem’. A música são gritos de lamentação e desespero, e conseguem-se ver os olhares apreciativos, e é como se a mistura da guitarra e o baixo fosse um choro que se manifesta por gritos. Os contrastes de melodia e voz limpa, declamada, apenas se tornam mais pesados quando todo o peso desaba sobre nós, em guturais dilacerantes, bateria a carregar e as cordas a gritar. Os Inverno Eterno a transportar-nos para paisagens de desespero e lamentação.

Gerou-se um ambiente intimista. O concerto circundou entre os temas alternados de ‘Póstumo’ e o álbum homónimo, ambos editados pela Portuense Bubonic Productions, em 2008 e 2011, respetivamente. De Póstumo, serviram-nos ’À sombra do passado’, ‘Enquanto a morte demora…’, ‘Depois que tu morreste…’ e ‘…O cansaço de viver’. Do álbum ‘Inverno Eterno’, ‘Áspera consonância’, ‘A ruína em silêncio’ e ‘Saudade revisitada’. Aplausos a encerrar cada música, de uma multidão por vezes quieta e assombrada.

“Agradeço do fundo, do fundo do coração… Esta noite é algo que me marca profundamente. Vamos então para… Desaparecer em Sintra”.
E durante aquele minuto somos transportados ao som dedilhado da introdução, para logo em pouco tempo a casa tremer outra vez quando o peso rebenta num instante. Não há muitas palavras que façam justiça a este clima. Já perto do final, segue-se ‘Indizível Melancolia’, um tema que a banda disponibilizou ao vivo na gravação de 2013 do Side-B, Benavente, e que pode ser ouvido na página do Soundcloud.

E chega o invariável momento final em toda a negritude e peso com ‘Trago a Morte no Olhar’, desta feita, assistida com a voz do Pedro Esteves (Black Howling) que se junta em palco para assombrar mais ainda este grand finale. “Na janela, o teu sorriso / A sombra que te faz existir / E na mão que acena devagar: o Adeus mudo / A morte que eu trago no olhar.” Final épico.

 

 

Texto e Fotografia por Hélio Cristóvão para a World of Metal
Agradecimentos ao RCA Club e Notredame Productions

 

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Hélio Cristovão

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