Reportagem Metal Keeper Fest II @ Another Place, Almada – 19.05.18

A expectativa era grande para o Metal Keeper Fest, uma festa de heavy metal tradicional que já ia fazendo falta na nossa cena, onde o género primordial e principal se tem tornado muitas vezes esquecido e ostracizado perante outras sonoridades mais modernas e/ou extremas. Como acreditamos que o que é bom, com mais ou menos expressão, dura sempre, tinhamos (e continuamos a ter) fé de que este tipo de iniciativa é sempre bem sucedida – embora seja fundamental sempre ter sempre uma organização batalhadora e todos a dar o seu contributo de forma a que isso aconteça. E o trabalho deu frutos positivos com esta segunda edição e com o anúncio já da terceira a realizar-se no próximo ano, no dia 18 de Maio.

À hora certa, os Wanderer começaram a sua actuação e deram início à segunda edição do Metal Keeper Fest onde o seu heavy metal vitaminado mas bem old school tem o dom de contagiar todos a quem toca. A banda do Porto poderá ter ainda pouco material editado (uma demo, “Will Of Steel”, e o excelente EP, já revisto nas nossas páginas, “Way Of The Blade”) mas a qualidade é proporcionalmente inversa à qualidade e malhões como “Will Of Steel”, “Freedom’s Call”, “Warriors Of Tomorrow” e “Way Of The Blade” já são clássicos do nosso underground. Também tivemos direito a alguns retratos do que está para vir com a apresentação de alguns temas inéditos como “Dark Age”, onde as harmonias entre as duas guitarras dominaram. O som estava bem poderoso e bem alto que foi ficando progressivamente melhor enquanto a actuação decorria. Uma banda que tem um impacto positivo seja em que cartaz for.

A preparação para os Witchtower fez com que a actuação começasse com um atraso de dez minutos mas o ambiente de festa era tal – onde as constantes idas ao bar para abastecer de sumo de cevada eram a principal atracção – que não foi uma questão digna de assinalar ao longo de todo o evento. E esse ambiente de festa ainda viria a aumentar com o excelente concerto que a banda espanhola deu. Apesar de ser uma banda relativamente recente, têm sido regulares nas edições tanto em termos de quantidade como de qualidade. e já possuem um repertório que lhes permite dar grandes concertos sem grandes dificuldades. Começaram com uma intro instrumental tocada de costas para o público e a partir daí foi um sem parar de emoções fortes, onde o destaque foi o último trabalho de originais, “Hammer Of Witches” com os temas “Salem Witch Trials”, “Fast Broomsticks” “Better Run” a justificar a presença da banda no cartaz do festival – contrariamente ao que se pensa, não é o facto de se ser estrangeiro que garante a qualidade. Não faltaram também visitas aos restantes trabalhos, onde “Shoot The Bomb” do primeiro álbum auto-intitulado e a cover dos Randy, “The Beast” do mais recente lançamento, o split com os Backslash “A Tribute To Randy, foram alguns dos momentos altos.

Voltaríamos para o produto nacional, com uma das bandas mais clássicas do nosso underground de heavy metal: Alkateya. As nossas expectativas eram altas mas infelizmente não foram correspondidas. A preparação para o concerto foi morosa e algo problemática com alguns questões de feedback causadas por um dos microfones – ou pelo menos assim nos pareceu. E com o início do concerto, esses problemas não foram resolvidos, aliás, só quando a banda estava a meio do alinhamento é que começou a ter o som que merecia. O som algo caótico, onde também contribuiu o nível exagerado de reverb na voz de João Pinto, impediu que alguns dos clássicos da banda, como “Demon Rider”, soassem da forma como mereceriam. A fluidez do concerto também não foi muito melhor já que havia uma quebra de energia muito grande entre os temas. No entanto, o público não acusou o toque e não deixou de vibrar com as já inevitáveis “Star Riders”, “Souls On Fire / Solta O Grito” (tema criado para angariar fundos para a União Zoófila de Lisboa que contou com a participação de Artur Almeida, vocalista dos Attick Demons) e “Rock On, Roll Out”, ficando a “Face To Face” para o encore. Mais clássico que isto não poderá haver.

Normalmente os soundchecks são uma coisa aborrecida. Ouvir cada instrumento um a um, cada bombo, cada prato, cada tarola… algo que faz parte do processo. Quando temos aquela última afinação geral ao som, que melhor maneira de o fazer se não for com o clássico “Wrathchild”? É a forma de tornar qualquer soundcheck num ponto alto, mesmo sendo uma rendição instrumental. Foi o aperitivo para o concerto dos Attick Demons, que se iniciou da melhor forma com o seu heavy/power metal de qualidade soberba. O som estava no ponto:alto, forte e cristalino, a fórmula ideal para ouvir verdadeiras bombas como “City Of Golden Gates” e “Flame Of Eternal Knowledge” do primeiro álbum “Atlantis” ou “Ghost” e “Endless Game” do mais recente “Let’s Raise Hell”. Embora  banda tivesse demonstrado um nível de coesão assinalável, teremos que destacar sempre o animal de palco que é Artur Almeida, pela forma como consegue parecer incansável, não parando um segundo – tendo em conta o tamanho do palco, não só é um exercício de energia com de agilidade para não colidir com os seus colegas de banda. Outro ponto a salientar é o trabalho de guitarras, magistral – e se tivermos heavy metal onde as guitarras não brilham, não é bem heavy metal, certo? A banda estava visivelmente agradecida pela reacção do público e até pela sua presença, representação de que o heavy metal está bem vivo em Portugal, e a apoiar as suas próprias bandas.

Chegaria ao momento de entrarmos no espaço dos grandes destaques internacionais do cartaz desta segunda edição do Metal Keeper Fest. Killer seriam os primeiros das duas grandes atracções e foram também a banda da noite na opinião de muitos, incluindo na nossa opinião também. A sua estreia em terras lusitanas não podia ter sido feita de melhor forma. Uma carreira já longa, apesar de algumas paragens e interrupções pelo caminho, que era garantia de qualidade para todos os que estavam presentes para recebê-los. O power trio evidenciou logo uma solidez apenas disponível a bandas com uma grande rodagem e com a capacidade natural de agarrar o público desde o primeiro momento.

Alternando a maior parte do alinhamento entre temas do segundo álbum (o clássico “Wall Of Sound”) e o seu mais recente trabalho “Monsters Of Rock”, os Killer até podem ser acusados de não saírem do mesmo registo mas a energia e a simplicidade da sua entrega fizeram toda a diferença, onde não foi também alheio o facto de terem gozado de um excelente som. Todavia foi o seu inegável amor ao heavy metal que acaba por evidenciar a sua magia – algo que um tema como “Back To The Roots” explica na perfeição e que meteu o público a cantar o refrão em coro. Momentos altos tivemos muito mas aquele em que a fasquia ficou mesmo alta foi quando em “Laws Are Made To Break” o baixista Jakke e o guitarrista/vocalista Shorty foram em excursão, passeando pelo recinto do Another Place durante um longo e inspirado solo. Das várias bancas até ao bar, foi tudo deles, assim como a própria noite. Uma grande estreia em Portugal. A despedida seria feita com uma sentida homenagem a Lemmy Kilmister e aos eternos s Motörhead com uma versão pesadona da “Ace Of Spades”.

Outra grande estreia foi a dos Tank, uma das bandas da NWOBHM mais clássicas e que cujos primeiros cinco álbuns fazem parte da história do heavy metal por mérito próprio. Apesar de todas as guerras e da divisão da banda entre duas facções (a de Algy Ward que funciona basicamente como uma one-man band e a de Mick Tucker e a de Cliff Evans, a dupla de guitarristas, que foi aquela que foi recebida no Another Place e que é aquela que os fãs sentem como verdadeira por manter a sua actividade ao vivo e por ser a que continuou a fazer justiça ao legado rico dos Tank). Seria difícil agradar a todos, com uma história tão rica – onde também juntamos os trabalhos mais recentes dignos de nota – mas a banda conseguiu agradar na sua grande maioria mesmo sem tocar alguns temas esperados/desejados.

Ainda assim, com um som também ele irrepreensível e com uma atitude festiva, sempre a puxar pelo público, temas como “This Means War” (com o público a entoar a melodia das guitarras, algo que veríamos algumas vezes nesta noite) e “Judgement Day” (um dos temas da nova fase e que tem todas as melhores características do heavy metal clássico da banda britânica) que foram os primeiros a marcar o mote para o que seria a actuação da banda. O novo vocalista David Readman (na banda desde o ano passado) demonstra estar bem integrado na banda, tendo um pulmão daqueles – que em temas como em “Eye Of Hurrican” ficou bem evidente. Foi uma estreia especial onde banda e fãs estavam em sintonia e onde nem o cansaço evidenciado pelo público (nem o estado mais ébrio de alguns elementos do mesmo) impediu de viver os temas e ainda pedir por mais quando chegou a altura dos já esperados encores, onde a velhinha “(He Fell In Love With A) Stormtrooper” mostrou que não existe idade para colocar o público todo em animação, algo que o clássico fez com distinção.

A banda despediu-se agradecendo a toda a organização e salientando o apoio do público. Apesar deste demonstrar-se ele próprio agradecido pelos excelentes concertos vivenciados na tarde e noite de Sábado, é importante reflectir que qualquer evento, seja em Portugal seja onde for, só tem sucesso pelo apoio do público, pela sua presença e pela sua energia e que o que Metal Keeper Fest provou é que é possível ter sucesso apostar em eventos onde o heavy metal seja rei e senhor. É possível remar contra a maré, é possível montar um evento como este sem correr ao facilitismo de ter sempre os mesmos nomes, apenas pela garantia de sucesso. A aposta no heavy metal nos últimos anos é sempre vista com desconfiança devido a algumas apostas menos bem sucedidas mas este caso de sucesso dá-nos a todos esperança e reforça a nossa crença que o heavy metal nunca vai morrer. Em 2019, o Metal Keeper estará de volta para continuar a confirmar isso mesmo.

Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos a Metal Keeper Fest

 


 

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