Reportagem Moita Metal Fest – Dia 2 – 07.04.18

Reportagem primeiro dia do Moita Metal Fest

Depois do autêntico massacre – no melhor dos sentidos – do dia anterior, seria de esperar que o segundo dia, começando umas horas mais cedo, não soasse tão atractivo ao corpo dos resistentes, principalmente após o verdadeiro fenómeno que foi a actuação dos The Exploited. Felizmente não foi o que aconteceu, apesar do olhar cansado das pessoas que íamos encontrando. Ainda assim, temos que chamar a atenção para dois factores muito importantes que poderão passar despercebidos aos mais cépticos. O segundo dia atraiu mais pessoas, pessoas que não tinham vindo ao primeiro dia, e depois a primeira banda a tocar eram os Toxikull. Enough said, right?

Como já puderam apreciar na nossa edição anterior da World Of Metal Mag, o mais recente trabalho dos Toxikull é um dos melhores lançamentos de 2018 no panorama nacional. O EP “The Nightraiser” é um vício sobre a forma de heavy/speed/thrash metal e motivo mais que suficiente para os procurar para vê-los ao vivo – isto se “Black Sheep”, o primeiro álbum editado em 2016 não for razão suficiente. A palavra de ordem gritada nestes dois dias – “Moita Caralho!” – foi a introdução para a actuação dos Toxikull que de seguida disseram através do seu frontman, Alex, “nós somos os Toxikull e tocamos heavy metal”. Não tínhamos qualquer dúvida e após a sua actuação, ainda com menos dúvidas ficámos, principalmente pelos temas-títulos dos dois trabalhos já citados. Uma banda que é obrigatório ver e depois repetir. E, claro, uma abertura de altíssima qualidade para o segundo dia do Moita Metal Fest.

O segundo dia foi a prova do ecletismo musical que faz parte do ADN musical do Moita Metal Fest e o concerto poderoso que os Wells Valley deram foi mais um exemplo. O som da banda nacional não é fácil de absorver ou até definir e até não é o tipo de som mais… “festivaleiro”, mas ainda assim o seu impacto foi forte o suficiente para causar headbang e causar algumas viagens introspectivas. Apesar de alguns precalços (como o false arranque em “Hands Are Void”) que em nada prejudicaram a actuação, o saldo foi mais que positivo culminando com o climax que foi a rendição do clássico do rock progressivo/psicadélico “Set The Controls To The Heart Of The Sun” dos Pink Floyd, presente no último lançamento da banda “The Orphic”, EP lançado precisamente um ano atrás. Uma cover assombrosa com um grande solo de guitarra.

Continuando pelos caminhos do vasto mundo da música pesada do Moita Metal Fest, chegou a vez dos Low Torque, outra banda nacional a atravessar um excelente momento, com o lançamento do seu terceiro álbum “Chapter III: Songs From The Vault. Stoner rock, southern metal, não há propriamente uma prateleira definida onde os possamos encaixar definitivamente mas o que interessa é mesmo a qualidade da sua música que se reflecte na qualidade dos seus concertos tal como o que foi dado em cima do palco do festival. O foco acabou por ser quase por inteiro o último trabalho, com “Mutant”, “Supafreak” e “Scorch The Sky” a serem os temas que se destacarem. Apesar de não ter muito movimento à frente do palco, apesar das sugestões do vocalista David Pais para isso, todos concordaram que esta foi uma grande actuação.

Os Dead Meat, por outro lado, são garantia certa de acção na assistência e animação onde quer que toquem, embora neste ponto o público ainda se tivesse revelado um pouco mais tímido. Apesar do seu primeiro álbum ter sido editado apenas no ano passado, a banda já tem mais de vinte anos de carreira e um traquejo que é bem visível e sobretudo audível em cima do palco. A actuação situou-se sobretudo no dito álbum ” Preachers Of Gore”, sendo que “Sliced In Pieces”, “Symphonies Of Impalement”, “Good Clean Cut e “Sex, Torture And Depravation” foram os momentos com maior impacto numa actuação onde o baixo não fez falta. Death metal brutal com requinte lusitano.

Ainda dentro das sonoridades extremas, uma das mais refrescantes bandas nacionais que misturam como ninguém as tendências mais modernas do metal com o death metal. Um som dinâmico e incansável representação daqueles que o tocam, sobretudo o seu frontman, o imparável Miguel Inglês (que até no meio do público cantou) que mostrou-nos um pouco de tudo o que está para trás na carreira da banda, destacando o início demolidor com “New False Horizons” e mais para o final “Maniac” como também do próximo álbum, previsto sair para este ano. Um bom aperitivo para o álbum e revelador da sua qualidade – se os temas resultam ao vivo… é porque é material do bom. Foi graças a eles também que o público conseguiu demonstrar uma reacção mais acentuada ao que se passava em cima do palco.

Por falar em reacções acentuadas, obviamente que os Terror Empire também são sinónimo de animação. Nunca escondemos que somos fãs devotos de thrash metal e que somos fãs da banda de Coimbra, mas também a cada concerto que vemos deles, não nos dão motivos para isso. Muito pelo contrário. Iniciando com o tema-título instrumental do último álbum que também é o tema de abertura e que traz sempre junto o tema “You’ll Never See Us Coming”, que é um daqueles petardos que faz sempre as devidas apresentações para quem (devido a coma ou surdez parcial) ainda não os conhece. Não pareceu ser o caso, já que o público aderiu muito bem a tudo o que era debitado, como “Times Of War”, “Death Wish” e “Meaning In Darkness” veemente demonstraram.

A primeira banda internaciona do dia foram os britânicos Malevolence, provavelmente a menos conhecida ao público daquelas que vieram de fora, mas isso não foi uma barreira à forma como foram recebidos nem à forma como o público a recebeu. Inseridos nas vertentes mais “core” da música pesada, a sonoridade da banda convida quer ao circle pit quer ao headbang, fruto dos seus inúmeros breakdowns – e sobre este aspecto, apesar de considerarmos o seu uso em demasia algo limitador (tal como tudo o que é usado em demasia), teremos que admitir que ao vivo e neste contexto resulta. E que para isso também existe mestria por parte da banda de forma a que se torne tão derivativo, principalmente pela inclusão dos excelentes solos de guitarra que se puderão ouvir. Sabendo disso, Alex Taylor, o enérgico vocalista, nunca se cansou de pedir ao público que se aproximasse do palco e participasse mais activamente na festa. “Self Supremacy” colocou um ponto final numa boa actuação.

O concerto que seguiu foi mais um que marcou o Moita Metal Fest. Os For The Glory, banda batalhadora de hardcore nacional, com uma carreira com quinze anos (curiosamente a mesma “idade” do festival) escolheu aquele palco para marcar o fim da sua actividade, um fim anunciado pouco menos de um mês anteriormente. Não falando das razões que estão por trás do seu fim – até porque sabemos como ninguém que correr por gosto não cansa até ao momento em que não temos comida para alimentar o atleta – foi uma actuação emocional e que merecia sem dúvida mais tempo de antena. Não é que a banda lisboeta seja mais que as outras ou que todas as outras sejam menos que os For The Glory, mas sem dúvida que não é fácil resumir quinze anos de excelência em pouco mais de trinta e cinco minutos. Muito comunicativo, Ricardo Dias foi espelho dessa emoção e de toda a garra que já lhe é característica através de clássicos como “Some Kids Have No Face”, “Lisbon Blues” ou “Survival Of The Fittest” que encerrou uma actuação que ficará na história do festival e no coração dos que lá estavam, banda incluída. Acabar a carreira com o público a entoar o seu nome… bem, diz tudo sobre o legado que é deixado.

Também foi de certa forma poético que de seguida aos For The Glory, tivessemos a banda da casa, Switchtense, irmãos de armas dos primeiros. Para manter os níveis energéticos em alta após o último concerto, nada como começar com a sempre pujante “Face Off”, já um clássico da banda, que estabeleceu o mote para o resto do concerto – circle pits com fartura. Hugo Andrade esteve como sempre comunicativo, não se cansando de agradecer ao público que esteve presente no festival assim como toda a equipa da organização e por parte do município por toda a dedicação incansável e por ajudarem a manter o festival vivo. “State Of Resignation”, ” Super Fucking Mainstream”, “Infected Blood” e o ataque curto e feroz de “Monsters” foram excelente representações de uma actuação fulgurante.

Tem sido uma constante falar do espírito eclético do Moita e ter os Ibéria, um dos grandes e mais clássicos nomes do hard’n’heavy nacional numa posição de destaque no cartaz, é sintomático disso mesmo. Mesmo com uma sonoridade menos convidativa a movimentações entre a assistência, isso não significou decréscimo de qualidade no que pudemos ouvir. A única coisa a apontar foi mesmo o atraso que foi se tornando progressivamente maior a cada banda que subia ao palco. Ainda assim, isso não reduziu o impacto de temas como “Sanctuary Of Dreams”, “God’s Euphoria” e o tema-título do último álbum que foi o grande destaque do seu concerto. Claro que não poderia faltar o seu maior clássico, “Hollywood”, o que seria aquele que fecharia com chave de ouro uma actuação a roçar a perfeição.

Voltando às atracções internacionais, outro grande destaque e outra banda pela qual tínhamos grande expectativa, os franceses Benighted. A banda foi reconhecida nos nossos prémios anuais como a melhor proposta dentro da cateogoria death metal brutal/grindcore com o álbum “Necrobreed” e para quem tinha dúvidas, então obrigatoriamente deveria ter assistido a este concerto. “Reptilian” deu o mote para o que seria uma sessão de pancadaria de proporções épicas, a maior, na nossa opinião, de todo o festival. “Reeks of Darkened Zoopsia”, “Let The Blood Spill Between My Borken Teeth” e “Slut” foram algumas das jardas que saíram do palco.

Foi energia que transpirou por todo o lado, das colunas e do pó e suor de quem andava nos intermináveis circle pits e stage divings, energia essa que a banda recebeu e enviava de volta para o público, não deixando de assinalar esse facto nas diversas vezes que se dirigiu ao público para agradecer a presença no festival. A simpatia também se estendeu aos Analepsy (cujos membros estavam entre o público) a quem dedicaram uma tema. “Necrobreed” e “Experience Your Flesh” colocaram o ponto final na actuação de uma banda que saiu rendida à reacção do público, enquanto este deverá ter saído dorido mas neste caso, valeu completamente a pena.

A chegar à recta final do festival, neste ponto só se tornava doloroso o tempo de espera que continuava a aumentar. A última banda nacional da noite foi também uma que tinha arrastado muitos fãs para lá. Dispensando qualquer tipo de apresentação, os Bizarra Locomotiva deram um concerto que puxou pela interacção pelo público, fruto também da interacção muito própria por parte dos seus membros, nomeadamente o seu frontman, Rui Sidónio. Tivemos alguns pedaços seleccionados do quadro geral da discografia da banda e o facto de termos alguns temas que não costumamos ouvir com frequência e a mesma como os mesmos foram recebidos é sinal do lugar único da banda no panorama nacional.

“A Procissão dos Édipos” deu o sinal (ou sino) de partida para uma actuação onde a constante foi um som bem forte e definido – um dos melhores da noite – e o público completamente rendido. Com ele vieram temas como “Apêndices, “Mortuário”, “Buraco Nego” e “Grifos de Deus” que puxaram ao movimento no público. Rui Sidónio pode não se dirigir para o público verbalmente nos intervalos das músicas, mas alguns dos seus gestos disseram tudo em relação à forma como o momento estava a ser sentido. O climax foi mesmo com os dois últimos temas onde “Anjo Exilado” e “O Escaravelho” tomaram proporções épicas semelhantes às que tínhamos presenciado na noite anterior com os The Exploited. Se na primeira, o palco estava cheio com fãs a cantar com Rui Sidónio, na segunda estavam todos em cima do palco, excepto pelo próprio frontman que estava no público. Este é espírito Moita!

Sentimos por alguns momentos que seria impossível superar tal climax, principalmente conforme o tempo ia-se arrastando e um soundcheck interminável (e um Peter por certos momentos a perder a paciência por não ter reverb na voz) adicionado ao cansaço e ao frio fez com que o entusiasmo fosse adormecendo. No entanto, estamos a falar de Vader que vinha ao Moita celebrar o álbum clássico “The Ultimate Incantation”, que a banda regravou no final do ano passado sobre a nova designação “Dark Age”, portanto tudo o que seria negativo tem que ser colocado sob perspectiva. Com mais de uma hora de atraso, finalmente ouviu-se a intro e era mesmo real, “The Ultimate Incantation” estava perante nós.

Tendo em conta o som com que o público foi brindado, acreditamos que valeu bem a espera. Não tendo sido a primeira vez que vimos a banda polaca ao vivo, podemos dizer que foi a melhor, já que não só o som estava bom, não só o material era death metal clássico incansável, como a banda estava altamente motivada para puxar o público aos limites. Peter, já recuperado da má disposição no soundcheck, estava visivelmente agradado com toda a energia que era deixada no palco não deixando de deixar uma nota de reconhecimento para a moça que andava vestida de Pikachu. No entanto, era o death metal de temas clássicos como “The Crucified Ones”, “Chaos”  e “Demon’s Wind” que deixava sorrisos na face do público. Apesar do adiantado da hora, não deixamos de confessar que seria bom termos ouvido mais alguns temas fora do referido álbum para além de “Send Me Back To Hell” e “Cold Demons” que foram os últimos temas tocados pela banda – este último tema, ainda assim, uma conclusão perfeita.

É sintomático do espírito do Moita Metal Fest. Mesmo de rastos, exaustos, com frio… ainda havia energia e vontade para mais. Uma edição que mostra que deixa claro aquilo que não tinha dúvidas, é possível fazer eventos em Portugal cujo objectivo é a música em si. É possível fazer algo por amor algo e ter uma multidão a comparecer e apoiar. Só quem poderá ter dúvidas é quem não compareceu, mas mesmo para esses, e aceitando todo o tipo de perspectivas e opiniões, há uma óbvia solução. Venham para o ano, cá vos esperamos.

Reportagem primeiro dia do Moita Metal Fest

Reportagem por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos Moita Metal Fest

 


 

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