WOM Report – Casaínhos Fest 2018 @ Campo de Futebol S.C. Casaínhos, Loures – 01.09.2018

Embora só tenhamos conhecido oficialmente o Casaínhos Fest na anterior edição, ficámos imediatamente apaixonados pelo espírito de união entre as várias sonoridades da música pesada, onde todas têm lugar e onde todas têm o mesmo nível de reacção entusiástica – algo que nos revemos bastante já que esse é o objectivo primordial da World Of Metal. Quando chegámos ao recinto encontrámos os Ramp e fazer soundcheck – algo que estranhámos já que a banda seria a que estava encarregada de fechar a noite. Terminaram apesar de haver algumas arestas a limar, mas por restrições de tempo decidiram terminar para permitir que a primeira banda iniciasse a preparação da sua actuação. O calor que se fazia sentir era abrasador e não dava vontade nenhuma de estar ao sol – e nesta altura e em todas as próximas actuações enquanto o sol estava forte, o público de Casaínhos dividia-se em dois: os corajosos que se chegavam à frente para curtir a música mais perto do palco e os outros que não se arriscavam a estar debaixo do sol abrasador. Confesso que estava neste último grupo, até porque as condições oferecidas são excelentes para podermos desempenhar o nosso trabalho.

Os Takeback! seriam a primeira banda no alinhamento, que iriam subir ao palco perante o sol abrasador que se fazia sentir – ainda para mais quando ele está a bater de frente. Eles foram os vencedores da terceira edição do concurso de bandas que se realizou pela terceira vez no Old Rock & Blues em São João da Madeira e estavam nitidamente a aproveitar cada momento desta oportunidade. Donos de uma sonoridade que se move pelo hardcore, é fácil notar que a banda ainda precisa de amadurecer mais e de se libertar do elemento genérico que transpareceu na sua actuação. Apesar deste facto, energia foi o que não faltou durante a cerca de meia hora em que estiveram no palco. Não se cansaram de agradecer pela oportunidade de estarem presentes no Casaínhos assim como pela organização dar oportunidade às bandas pequenas de se mostrarem. Somos da mesma opinião.

O punk rock é um género que sempre encontrou espaço no cartaz do Casaínhos e ainda bem que assim é já que o que se faz cá em Portugal bate-se de igual para igual em relação a qualquer outra banda de qualquer outro país. Um bom exemplos disso mesmo são os Contrasenso, que apesar de não se desviarem muito (ou nada) dos lugares comuns do punk rock, o seu som não cansa e nunca deixa de ter um grande impacto para quem gosta de peso e melodia, tudo cantado em português – pelo menos na maior parte das vezes. Com um som bem poderoso – sem os problemas de feedback que os Takeback! tiveram um pouco anteriormente – temas como “Sem Desculpas” e “Passo A Passo” caíram mesmo bem e fizeram com que muitos desafiassem o sol para ir sentir a banda mais de perto. Apetecia mesmo, tal como depois ir refrescar com uma imperial gelada.

Aos poucos o recinto ia enchendo naquela que seria, na nossa opinião e apesar de não termos acesso a números oficiais, a edição mais concorrida de sempre em termos de público. O cartaz tinha qualidade mais que suficiente para isso mesmo. E por falar em qualidade, pudemos apreciar de seguida à estreia dos Infraktor no Casaínhos que tornou o ambiente ainda mais escaldante com o seu thrash metal vitaminado, que deixou tão boa impressão com “Exhaust” o seu álbum de estreia lançado no início deste ano pela Rastilho Records. O mesmo aconteceu no palco do Casaínhos, não ajudando em nada ao calor que se fazia sentido – no entanto isso não serviu de desculpa para que as primeiras movimentações a sério entre o público não acontecessem. “Son Of A Butcher”, “Ferocious Intent” e o tema-título do já mencionado álbum de estreia foram alguns dos destaques assim como a comemoração no final do concerto em frente ao palco do aniversário do vocalista Hugo Silva. Haverá lá forma melhor de comemorar um aniversário senão num ambiente fantástico destes?

Voltando ao punk rock, vieram os Artigo 21, que demonstraram novamente como este som quando bem tratado é difícil de bater. E de som bem tratado percebem bem a banda lisboeta, que deu um espectáculo explosivo. Cantando sempre em português, os Artigo 21 poderão ser um valor relativamente recente do punk nacional, mas são um valor acrescentado, sem dúvida. “Contradição”, “Utopia” (dedicada a Diogo, vocalista dos Steal Your Crown que se encontra a atravessar uma fase complicada e termos de saúde) e “Máscara” não deram margens para descansos para a animação e diversão em frente ao palco, neste regresso ao festival três anos depois.. Também não faltaram os agradecimentos ao Tiago Fresco e a toda a organização pelo ambiente construído e pela forma se tem conseguido manter este espírito de festa união, sem esquecer, claro, o apoio à cena nacional. Ainda partilharam o palco com Joel da Infected Records, a actual editora da banda, para o tema “Mudança” em jeitos de agradecimento na contínua aposta na banda que confessou estar fora de cena dos últimos tempos para preparar o lançamento do próximo álbum, chegando a tocar inclusivamente alguns temas novos, bem recebidos pelo público.

Tal como no ano passado, este ano também tivemos a oportunidade de testemunhar uma actuação com sabor a despedida. Depois dos Devil In Me em 2017, em 2018 era a vez dos Backflip anunciar que esta seria a última actuação da banda antes de uma pausa que a própria banda não tem a certeza se será apenas temporária ou definitiva. Seja como for, não deixa de ser uma perda para o underground nacional, já que como tivemos oportunidade de comprovar e relatar, seja em cima dos palcos ou em disco, os Backflip são um retrato perfeito de como o hardcore consegue superar todo e qualquer lugar comum e contagiar qualquer um que goste de melodia, peso e letras que vão além do superficial. Das vezes que tivemos oportunidade de ouvir a banda tocar, a energia explosiva foi sempre um ponto em comum mas desta vez havia mais qualquer coisa no ar. Sem dúvida uma grande perda caso a pausa seja definitiva. Se assim for, resta-nos a consolação de ouvirmos os seus lançamentos editados pela Hell Xis Records. Esperemos que não tenhamos que recolher apenas a ela porque esta energia fazem-nos muita falta.

Por falar em animais de palco, os Viralata foram os que se seguiram, eles que incorporam na perfeição aquele espírito presentes algures entre o punk e rock da virada da década de oitenta para a década de noventa. A banda ao vivo dispensa apresentações e já é garantia de diversão pela forma como os teus temas, autênticos hinos, conseguem cativar todo o público sem grandes dificuldades. Não só isso mas é também impressionante como esses mesmos hinos ficam na memória muito tempo após ter acabado a sua actuação, exemplo vívido com os já incontornáveis “E Vai Um Copo”, “F.A.M.E.L.” que tanta animação causam sempre que são tocados, sem esquecer outros como “Zé Ninguém”, “Lúcio Fernando” ou “Ivone”, tema que já não tocavam  há já algum tempo. Uma banda que faz sempre a diferença pela positiva seja em que cartaz for.

Também a cantar português temos os Rasgo que desde que abriram para os Slayer e lançaram o seu álbum de estreia não têm parado com grandes concertos atrás de concertos. Menos um mês após terem fechado o Vagos Metal Fest, estiveram no Casaínhos Fest para espalhar o seu thrash crossover vitaminado ao qual muitos poucos conseguem ficar indiferentes e neste contexto não foi diferente. O início todavia iniciou-se com algum atraso devido a problemas com o som, algo que infelizmente iria marcar todas as restantes actuações. Se o atraso inicial verificado com os Takeback! foi mitigado ao longo das seguintes actuações, a partir daqui os problemas foram-se verificando em crescendo. Com quinze minutos de atraso, o som inicial dos Rasgo estava irregular mas foi algo que se foi corrigindo no decorrer da actuação. A entrega da banda, essa, nunca desilude, debitando malhões como “Ergue A Foice”, “Homens Ao Mar”, “Faca Romba” sem dó nem piedade e sem nunca esquecer de puxar e picar o público (lá dizia Paulo Gonçalves no intervalo dos temas “Isto é Casaínhos ou é Cansadinhos?!”). Não faltou também a versão de Mão Morta, “Cão da Morte”.

Os Hills Have Eyes foram os próximos e também tal como Rasgo, tiveram um soundcheck bastante demorado, começando a ser mais notório de qua havia um problema técnico cada vez mais difícil de suplantar, algo visível sobretudo no primeiro tema da banda de Setúbal, “The Bringer Of Rain”. Ao segundo tema, esses mesmos problemas já estavam ultrapassados e toda a potência, cada vez mais afinada, dos Hills Have Eyes pôde ser apreciada em todo o seu esplendor. Passando por todos os três álbuns lançados (de “Unneurotic” de Black Book” passando por “Hold Your Breath” de “Strangers”), a música tem tanta garra e energia exigida à própria banda como depois também permite que a mesma seja devolvida pelo público. Foi com “Strangers” que mais uma vez tivemos uma grande actuação para uma banda que continua a ser um caso de estudo na difícil arte de como dar um concerto.

Não interessa quanto tempo passe entre álbuns, actuações, as circunstâncias e/ou os palcos em que os encontramos, Heavenwood é sempre um destaque. Pessoalmente foi uma das bandas que me acompanhou quando estava a descobrir a música extrema aquando do lançamento do seu álbum de estreia, o mítico “Diva”, e como tal é sempre aguardada com enorme expectativa. Apesar de terem sido prejudicados por questões técnicas (também tiveram um soundcheck demorado, incrementando ainda mais o atraso que se fazia sentir), as expectativas não foram defraudadas. A banda do Porto que contou com Miguel Inglês dos Equaleft como vocalista (devido à ausência do país de Ernesto Guerra), iniciou em grande com “The Arcadia Order” que, por mais vezes que a oiçamos não deixamos de ficar impressionados com o seu poder cinematográfico. Devido a alguns problemas com o baixo de André Matos, só quase no final da canção é que o som do mesmo pode ser apreciado. Também a voz de Ricardo Dias também praticamente não se conseguiu ouvir na “The Empress”, um dos grandes momentos do mais recente trabalho da banda, “The Tarot Of The Bohemians”. Apesar das dificuldades técnicas que poderiam esmorecer outros, os Heavenwood não fraquejaram na sua entrega, terminando o concerto com um saudoso mas sempre recebido, “Frithiof’s Saga” do já mencionado “Diva”.

Por esta altura o atraso já era considerável mas o que sucedeu de seguida definitivamente não ajudou. Os Bizarra Locomotiva subiram ao palco com mais de uma hora de atraso porque a mesa de mistura queimou – situação que Tiago Fresco, da organização do Casaínhos, explicou ao público antes da banda entrar em cena – que levou que a mesma tivesse que ser substituída e que se tivesse que encarar todo o processo moroso de preparação do som novamente. Apesar do sucedido, a actuação dos Bizarra Locomotiva não sofreu com isso (tirando apenas o pormenor do atraso, obviamente). “A Procissão dos Édipos”  iniciou de forma solene um concerto praticamente sem falhas, onde o público estava convertido à maquinaria industrial da banda portuguesa. “Ego Descentralizado”, “Anjo Exilado” e “Escaravelho” (esta última com a já habitual invasão de palco por elementos do público) foram destaques de uma banda que tem o dom de nos colocar a cantar em uníssono com ela mesmo sem utilizar a comunicação. Ou melhor, utiliza, a forma de comunicação mais poderosa de todas (quando bem empregue): a música.

A noite já tinha dado lugar à madrugada há muito tempo e o limite previsto para a finalização do festival já tinha terminado há quase uma hora atrás. Ainda assim os Ramp entraram cheios de garra respondendo com amor a todos aqueles que ficaram presentes (e foram muitos) para os ver tocar. Apesar de ser uma banda que já vimos muitas vezes, tal como Heavenwood e Bizarra Locomotiva, é sempre um prazer voltar, sendo que esta foi a primeira vez que os vimos em palco com Apache Neto no baixo (dos Diabolical Mental State) e com Pedro Mendes na guitarra (dos W.A.K.O.) – adições que nos pareceram bastante sólidas pela forma como a banda soa em palco. Infelizmente e apesar do poder de temas como “How”, “Follow You” e “Hallelujah”, não deixou de ter um sabor algo amargo principalmente pela banda não poder tocar até ao final – a hora prevista para o término do festival já há muito tinha sido ultrapassada e as autoridades tiveram de traçar um limite. Rui Duarte foi a voz da inconformidade (segundo ele estavam no recinto desde o meio dia, sendo frustrante depois não poder tocar o alinhamento completo) mas não deixou nunca de salientar que o público merecia todo o seu respeito. Um final que não foi o melhor, no ano em que a banda completa trinta anos de existência no metal.

Para a posteridade, o balanço, apesar de tudo é positivo. No geral bom som, excelentes bandas e excelente espírito de festa e união que são as marcas já registadas por Casaínhos. Imprevistos técnicos são passíveis de acontecer em qualquer evento e a probabilidade do evento ter terminado muitas horas mais cedo era bastante elevada, quando a mesa de mistura queimou, pelo que apesar de tudo, acabou por correr melhor do que a uma certa altura se temeu. Talvez o tempo pudesse sido gerido de melhor forma quando atraso se estava a verificar e a organização pudesse ter pedido às últimas bandas para tocarem menos um tema ou outro de forma a que a última actuação não fosse tão curta mas isso já entramos no reino das suposições que não nos cabe a nós fazer. Em relação ao ano passado, notamos um crescimento, notório, pelo que para o ano provavelmente terão de haver mais alguns ajustes de forma a acompanhar o crescimento (principalmente no que diz respeito à oferta de bebidas e comida que revelou ser manifestamente insuficiente para todos. Da nossa parte, é um enorme prazer e satisfação vermos que um evento destes tem este tipo de problemas. É o sinal de que o crescimento foi para além das expectativas e que os esforços são recompensados. Nada melhor do que fazermos algo por paixão, investirmos (muitas vezes o que se tem e o que não se tem) e vermos que esse esforço é devolvido pela comparência de público e o ambiente fantástico como o que esteve e se viveu em Casaínhos.

Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos Tiago Fresco/Casaínhos Fest


 

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