WOM Report – Gwydion, Bleeding Display, Dogma, Beyond Carnage @ RCA Club, Lisboa – 07.07.18

Uma celebração para fazer tremer os deuses. Parece que estamos a começar pelo fim mas existem certas coisas que são inevitáveis e uma delas é o reconhecimento de quão rico é o nosso underground que permite festas destas, com casas muito bem compostas, num período sobrepovoado (em demasia?) de eventos dignos de nota e que para os quais a nossa carteira não está devidamente preparada. Esta é uma discussão que levaria a horas de debate sem propriamente chegarmos a uma opinião consensual e de debates não é propriamente algo a que nos dedicamos nestas páginas. Vamos antes falar-vos do mundo em que o RCA Club mergulhou naquela noite de Sábado que ficará marcada para a história como o regresso dos guerreiros lusitanos Gwydion aos álbuns, rejuvenescidos pela feiticeiria do metal, esse elixir sonoro que traz vida eterna a quem nele deposita fé. E acompanhá-los tivemos mais outros três grupos de guerreiros, Bleeding Display, Dogma e Beyond Carnage.

Como todas as histórias têm um início, vamos então iniciar este conto de grande aventura que começou precisamente com a entrada em palco dos Beyond Carnage, banda lisboeta que iniciou agora o seu caminho neste bravo mundo de metal extremo e iniciou-se chamando a si todos os que apreciam death metal old school. “Profane Sounds Of The Flesh” é o seu primeiro lançamento, um EP que evidencia todas as suas qualidades que ficaram bem claras com esta prestação. Iniciando a actuação a horas certas e com o público ainda a chegar, estes guerreiros do death metal mostraram que não são necessários gimmicks e fórmulas da moda para conseguir cativar e agarrar o seu público. Boa interacção e muito espaço para crescer e chegar a patamares superiores dentro do género. Destacamos os malhões “Necrowizard” e o épico “R´lyeh, Mother of All Abominations”. Uma banda que certamente iremos ouvir mais vezes no futuro.

É sabido que a melhor estratégia para uma liça bem sucedida, é conseguir encontrar uma boa dinâmica para surpreender o inimigo. Neste caso não haveriam propriamente inimigos, mas a táctica mantém-se. E não há banda que perceba mais de dinâmicas que os Dogma. Somos suspeitos em relação aos poetas trágicos que são os Dogma. O seu álbum de estreia “Reditum” foi um dos grandes álbuns de 2017 – e não entre as propostas nacionais mas no geral – e a  sua música não só representa na perfeição o espírito de beleza poética pelo qual a nossa nação e arte é vista e sentida como também é dinâmica o suficiente para manter qualquer fã de metal interessado. Essa dinâmica foi sem dúvida o ponto forte da sua actuação, onde a melodia e o peso deram as mãos como se fossem só um. E assim foi, com malhas já clássicas como “Criação” e “Rosa”, que foram trazidas à vida com teatralidade mas ao mesmo tempo de forma sóbria onde a dupla de cantores composta por Isabel e Gonçalo está mais afinada que nunca. Aliás, toda a banda demonstrar estar bem coesa, que até trouxe uma surpresa para o palco, tocando uma versão de “Time Vortex”, tema original dos Gwydion, editado na sua Demo CD-R de 2001.

Há sempre aquele ponto da liça em que o terror psicológico é fundamental. Naquela noite esse papel estava reservado para a autêntica máquina de guerra death metal que são os Bleeding Display. Uma das mais veteranas bandas de brutalidade sonora,  esta é uma entidade temível, capaz de destruir todo um exército em minutos e assim foi no campo de batalha do RCA Club. “Dark Passenger” deu o mote para o massacre movido a machado, tradicionalmente empunhado por Sérgio Afonso, o comandante destas forças lisboetas da morte, que apresentou os Bleeding Display ao público como sendo uma banda de tributo ao Death Metal. Apropriado, a qualidade da sua música justifica esse título. Apesar da brutalidade impiedosa – e tão afinada como uma orquestra sinfónica – a banda não se cansou de agradecer a presença do público (reforçando o que dissemos no início deste conto) pela presença e aos Gwydion pelo convite. Ainda houve tempo para uma (excelente) surpresa, quando o incansável Sérgio Afonso chamou ao palco Inês Freitas dos Burn Damage para partilhar as vocalizações do tema “Remains To Be Seen”, algo que tornou o tema ainda mais frenético e demolidor. Um concerto que deixou atrás de si um rasto de mortos… e que fez com que a campanha seguisse triunfal em direcção aos reis da noite.

Os guerreiros por quem se esperavam, após terem preparado as suas suas armas de combate (i.e. o soundcheck), foram entrando no palco e sendo ovacionados pela horda que estava à sua frente, sedenta pelo sangue da batalha que era iminente. A mesma começou com “Heathen” (a intro do trabalho que estava na base para a reunião de guerreiros, “Thirteen”) e consequente “793”, que não só meteu todos a mexer, como provou que a mais recente encarnação dos Gwydion estava à altura do legado já considerável da banda lusa e, principalmente, capaz de levar a banda a novos patamares de sucesso e reconhecimento. Compreensivelmente, e sendo o concerto de apresentação do novo álbum, o foco da actuação esteve no já citado “Thirteen”, algo que poderia levar com que o entusiasmo do público esmorecesse devido ao desconhecimento dos temas que contém. Felizmente e, até de certa forma, previsivelmente, não foi o que se verificou, com os temas “Balverk Warfare” e “Strength Remains” a serem muito bem recebidos. Pedro Dias, um frontman monstruoso, quando se dirigiu ao público pela primeira vez, referiu como era bom estar de volta. Neste caso podemos dizer que esse era o sentimento geral de todos os presentes.

Além dos novos temas, também tivemos as incursões cirúrgicas a temas do passado (como “Turning Of The Wheel” e “Womb Of Fire” de “Ŷnys Mön” e “Veteran” respectivamente), algo que serviu para apaziguar os que poderiam ter algum receio em relação a esta nova da fase. Não só os temas antigos soam ainda mais potentes como em conjunto com os novos (e apesar das diferenças entre os registos) há uma uniformidade identificável com a identidade Gwydion que apesar do interregno de funções ninguém esqueceu. Tinham sido prometidas algumas surpresas e as mesmas ainda aumentaram o ambiente de festa vivido. Muffy dos Karbonsoul foi convidada a subir ao palco para ajudar na interpretação do novo tema “Oh Land of Ours – Al Andaluz”, num registo diferente ao que nos habituou na sua banda mas ainda assim muito bem conseguido – ela que também foi responsável pela criação do artwork e layout do novo álbum. No tema seguinte, o já clássico “Mead Of Poetry”, foi a vez dos ex-membros juntarem-se à festa, sendo que para a bateria foi Luís Abreu (ele que está neste momento nos Beyond Carnage e já tinha tocado no mesmo palco) e para o microfone Ruben “Ladnah” Almeida, antigo frontman, estando ainda numa das guitarras o jovem sobrinho de Daniel César, teclista. Uma autêntica festa com alguns dos músicos (o vocalista Pedro Dias e o guitarrista João Paulo) que cederam o seu lugar a ir para o meio do público fazer a festa através de um animado circle pit.

O espírito de comunhão foi total, algo que ainda se acentuou mais com o tema final, “Thirteen Days”, que tem tudo para se tornar em mais um hino da banda – se é que já não o é depois daquela noite. Subiram ao palco quase todos os convidados anteriores e ainda se juntaram membros das outras bandas e o produtor Fernando Matias, pedra basilar naquilo que podemos ouvir como produto final de “Thirteen”. Um final apoteótico, num climax onde a batalha é vencida de forma triunfal e onde os nossos guerreiros continuam invictos para continuar a cantar estes contos de vida, morte, honra e união. Tudo aquilo que se viveu naquela noite de Sábado, sete de Julho, no ano do nosso senhor 2018. Histórias que se tornaram lendas e que o tempo não apagará mas que mesmo assim soarão pálidas em relação às memórias dos que estiveram presentes vão guardar. Esta foi a história do regresso dos guerreiros lusitanos do metal, este é a sua lenda.

Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos Gwydion


 

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