WOM Report – Kiss, Megadeth @ Estádio Municipal de Oeiras, Oeiras – 10.07.18

Já se esperava que houvesse uma autêntica romaria para o regresso dos Kiss ao nosso país e efectivamente assim foi. A última vez que a banda esteve no nosso país foi em 1997, tanto tempo que há toda uma série de pessoas que partem do príncipio que é a primeira vez  que estão no nosso país. Curiosamente, para alguma comunicação social a última vez foi em 1983 (N.E. Na realidade, o concerto de 1997 foi cancelado pelo que a informação veiculada pela imprensa encontra-se correcta. Desde já as nossas desculpas pela informação errada). A acompanhar o mítica banda norte-americana, vieram um dos Big 4, Megadeth, que quase falhavam o nosso país na digressão de apoio ao seu mais recente trabalho, “Dystopia”, lançado em 2016. É por eles que começamos esta nossa pequena viagem ao mundo de fantasia que todos os presentes no Estádio Municipal de Oeiras fizeram.

A intro de “Prince Of Darkness” e o vídeo no ecrã gigante do palco que antecipava a revelação do logo da banda meteu logo todos em sentido e era a palpável a antecipação e ansiedade pelo regresso aos palcos nacionais da banda de Dave Mustaine, mesmo que em posição de banda de abertura. “Hangar 18” foi o primeiro tema e foi uma excelente introdução para a actuação da banda, além de servir de cartão de apresentação para os dotes de Kiko Loureiro (ex-Angra) ao público português, agarrando cada solo com perfeição e feeling. O tema que se seguiu foi provavelmente a maior surpresa do seu alinhamento, pelo menos para mais atentos. Desde que Mustaine recuperou da lesão na mão que o músico tinha dito que nunca mais tocaria “The Conjuring” ao vivo. Após dezassete anos, a música foi trazida novamente para a ribalta, nem sendo propriamente uma das melhores do álbum em questão, “Peace Sells… But Who’s Buying”. Mustaine comunicou pouco entre os temas mas o que o público era ouvir mesmo clássicos como “Sweating Bullets”, “Take No Prisoners” e “Tornado Of Souls”.

Falar dos Megadeth e estar a discernir o que são clássicos ou não, também já é algo inútil, já que até os dois temas do “Dystopia” tocados, “The Threat Is Real” e o próprio tema-título, foram recebidos da mesma forma – um pequeno facto que atesta para a qualidade do álbum. “Symphony Of Destruction” e “Peace Sells” seriam os últimos temas tocados antes do encore, muito pedido pelo público. Atendido aos pedidos, Dave Mustaine surgiu em palco, sozinho e agradeceu ao público por todo o apoio ao álbum e referiu o facto de lhe parecer surreal estar a encerrar a digressão em Portugal três anos depois de andar em digressão de “Dystopia”. Garantiu também que Portugal é sempre um dos seus destinos favoritos (e que estava a aprender algumas palavras da nossa língua com Kiko) e que espera que possam voltar mais cedo já que a banda vá começar já a trabalhar no próximo álbum de originais. Vale o que vale mas sabe sempre bem ouvir ao nosso orgulho lusitano. Despediram-se com um “Holy Wars… The Punishment Due” apoteótico e que deixou o público a salivar por mais. É o malefício de termos uma banda histórica como banda de abertura, muitos clássicos ficaram de fora, mas deu para matar saudades.

O palco começou logo a ser preparado para receber os Kiss, e a hora certa, já estava tudo preparado para os receber. Ou quase tudo preparado. O pano que normalmente separa o público da banda não colaborou (talvez devido a algum vento que se fez sentir) e a entrada da banda acabou por ser algo diferente do que é normal. Não seria isso que viria a prejudicar aquele que é considerado o maior espectáculo rock’n’roll de todos os tempos. E esta é uma questão que vale a pena debater já que as opiniões dividem-se a este respeito: qualidade musical versus qualidade de espectáculo. O que acaba por ser também irónico que no mesmo espaço tenhamos assistido a duas bandas totalmente opostas nesse sentido. De um lado os Megadeth que assumidamente sempre se preocuparam mais com o lado musical e tendo sempre produções de palco simples e despidas de artefactos, do outro o circo assumido (o “Psycho Circus”) dos Kiss que há mais de quarenta anos que é um lição de como dar um espectáculo de entretenimento e que estão na base de todas as grandes produções de palco que vieram depois.

Assim que a voz off anunciou “You wanted the best, you got the best! The hottest band in the world… Kiss!” e começou a soar o riff da “The Deuce”, o público foi ao rubro, uma condição que nunca esmoreceu ao longo da mais de hora e meia que se seguiriam, onde muitos clássicos se seguiriam. Essa posição invejável da banda que lhes permite reunir um alinhamento de luxo e mesmo assim deixar algumas pérolas de fora. ” Shout It Out Loud” e “War Machine” confirmaram logo isso mesmo, embora ainda houvesse espaço para algumas surpresas e raridades, como a interpretação de temas mais obscuros como “Firehouse” (com o Gene Simmons a cuspir fogo no final) e “Flaming Youth”, que foram igualmente recebidos de forma entusiasta, assim como o mais recente “Say Yeah”, o único tirado do álbum de originais “Sonic Boom” – o que também dá indicação de que esta é uma banda que já não precisa de álbuns para andar na estrada há muito tempo.

Explosões, fogo de artifício, Gene Simmons a cuspir sangue  no “solo” de baixo que introduziu a “God Of Thunder”, antes de “voar” até uma plataforma que o esperava metros acima do palco, fogo, solo de guitarra com mais fogo de artifício, Paul Stanley a ser transportado pelo ar (através de um cabo) até à estrutura no meio do recinto e a cantar “Love Gun” de uma posição priveligiada, fazendo com que todos os que estavam à sua frente voltassem as costas ao palco. Os críticos poderão dizer que é tudo de vista, para encher o olho e confesso que até já soltei opiniões semelhantes mas uma coisa é criticar de fora, outra coisa é estar lá dentro e dar por si a entoar refrães de “Calling Dr. Love”, “I Was Made For Loving You” e “Black Diamond”, quase por impulso e sem nos apercebermos. A única maneira de ficar imune aos riffs e a todo o espectáculo era basicamente estar morto.

Nem tudo foi perfeito naquela noite. O facto dos Megadeth terem tocado para um público mais despido (que ouviu parte da actuação do lado de fora do recinto devido a haver apenas uma entrada para o recinto), o já referido problema com o pano no início do concerto que estragou o impacto dramático da sua entrada em palco, a voz de Paul Stanley ser uma sombra do que era décadas atrás (a idade pesa a todos) e as quebras provocadas pelo discurso deste entre as músicas, discurso esse repetitivo que apesar de puxar pelo público de forma bem sucedida, tornou-se algo cansativo. Mas tudo isso perderia importância com um encore infalível onde se pôde ver a banda a tocar de seguida os clássicos “Cold Gin”, “Detroit Rock City” e “Rock And Roll All Nite” com que a banda se despediu deixando para trás um público rendido a ser banhado por fogo de artíficio. O circo deixou Portugal, talvez pela última vez na sua história… mas que espectáculo memorável foi.

Texto por Fernando Ferreira
Fotos gentilmente cedidas por Nuno Conceição e Everything Is New
Agradecimentos Everything Is New


 

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