Filhos do Metal – Bolha Digital
Por Duarte Dionísio
(Filhos do Metal – À descoberta do Heavy Metal em Portugal)
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Sempre foi difícil divulgar as bandas underground nos meios de comunicação mainstream. O Heavy Metal teve de se esgueirar por nichos para conseguir alguma visibilidade. Antes do aparecimento da internet e mais ainda antes das redes sociais, eram os programas de rádio, as fanzines, uns flyers fotocopiados até à exaustão e umas saudosas rúbricas em jornais nacionais, que ajudavam a espalhar a “palavra”. Com a internet e principalmente as redes sociais, tudo é mais fácil. Isso e a quantidade de bandas, concertos e festivais tornaram inevitável o reconhecimento por parte de alguns media. Mas será que a facilidade de acesso à divulgação e a quantidade de acontecimentos é, atualmente, sinónimo de qualidade? Permitam-me opinar. Não, não é. Será que apesar disso é positivo para as bandas? Talvez!
O que vemos em grande quantidade são bandas de diversos subgéneros de Heavy Metal com um nível de produção elevado. Capazes de gravar as suas músicas com mais facilidade do que há 30 ou 40 anos atrás. Apresentam as músicas em plataformas de streaming sem complicações. Conseguem atuar em salas e festivais um pouco por todo o país. Fazem e vendem merchandising, garantindo algum income financeiro. Tudo parece correr pelo melhor. No entanto, o que observo amiúde é algo de contraditório. Mais qualidade na produção de som, péssima qualidade na divulgação. O uso e abuso das redes sociais como veículo de divulgação deturpa o objetivo, que deveria ser impressionar os potenciais fãs. Senão, vejam-se os vídeos de atuações ao vivo gravados com telemóvel e escarrapachados por todo o lado onde é possível ver online. Péssima imagem, péssimo som, com excertos de músicas sem contexto. É esta a imagem que as bandas querem passar delas próprias? Não me parece. Fazem-no sem pensar, apenas porque é mais um meio de divulgação. O público faz fotos e vídeos indiscriminadamente, numa euforia sem nexo de captar um momento. Tudo vai parar ao Tik Tok, Youtube, Facebook, Instagram e sei lá mais onde. Podem dizer que estou a negar o inevitável ou a ser “velho do Restelo”. Pouco me importa! O que me importa é a qualidade, a boa imagem que as bandas devem passar, que valorize o trabalho que desenvolvem. Se basta filmar 30 segundos de uma música tocada ao vivo, com péssima imagem e som sofrível, para divulgar uma banda, então algo de muito errado se passa. Esta é a realidade.
Sempre foi proibido filmar e fotografar nos concertos. Porque as bandas queriam preservar a sua integridade artística, os seus direitos autorais, a sua imagem e não permitir que outros ganhassem dinheiro com o seu nome. Com os smartphones a fazerem tudo e um par de botas, isso é já uma história da Idade Média. Ou talvez não! Há bandas a começar a proibir os smartphones nos concertos. Pode ser o virar de página. Por enquanto, a internet está inundada de péssimos vídeos a divulgar boas bandas. E isso não vai desaparecer. Vou afirmar o seguinte – quando alguém iluminado inverter esta situação, será louvado pelas gerações futuras. A descartabilidade da música atualmente tem de acabar em algum momento. Estamos a descurar o fundamental da música enquanto arte e cultura, num incessante arrepio de descredibilização. Estamos eufóricos com a facilidade que nos é concedida por multimilionários que o são cada vez mais, às custas da insensatez. Estamos a ser facilmente influenciados pelo facilitismo. Devemos querer mais, mas também melhor. O Heavy Metal pode e deve ter um papel importante, já que é um género irreverente e rebelde. A divulgação é necessária, mas é inconsequente se os conteúdos que divulgarmos forem no sentido de mostrar de forma errada o que se pretende seja música bem feita, com dedicação.
Os sons pesados são por si só difíceis de captar e expor de forma equilibrada, devido ao alto volume, às vozes muitas vezes gritadas ou guturais, à distorção das guitarras, no fundo a uma avalanche de som poderoso. Então se a captação for feita sem as condições adequadas, o resultado só pode ser desastroso (exceção feita a algumas bandas que assim o pretendem por questões estilísticas). O mesmo acontece com a imagem. Por muita qualidade que um smartphone tenha, não é a mesma coisa do que filmar com uma câmara profissional e com a iluminação pensada para o efeito. O resultado de tais gravações de som e imagem, que aparecem na internet a divulgar as bandas, é prejudicial para as mesmas. – “É bom para dar a conhecer uma banda nova ou ajuda a espalhar o nome da banda”. – Certo! Mas será que divulga a banda de forma adequada? Não. Estamos apenas numa bolha digital social da qual não conseguimos sair. Seguimos a moda. Temos de ser mais exigentes e mostrar todo o potencial das excelentes bandas que temos e que se esforçam por compor, interpretar produzir música de qualidade.
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