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Rock Zone – Leatherhead, Lead Injector, Zepter, Heir Corpse One, Witch

Rock Zone é um programa de rádio na Rádio Alta Tensão e na Songs For The Deaf Radio da autoria de Miguel Correia e todos os meses, estes são os seus destaques.

 

Leatherhead – “Violent Horror Stories”
No Remorse Records

Os Leatherhead regressam com “Violent Horror Stories” e deixam claro que o segundo capítulo da banda é mais sombrio, mais agressivo e totalmente focado na afirmação da sua identidade horror heavy metal. Vindos da Grécia e formados em 2022, o grupo não perde tempo a aquecer motores e aposta tudo numa abordagem direta, veloz e carregada de imagens macabras. Depois de um álbum de estreia muito bem recebido em 2024, “Violent Horror Stories” avança para territórios mais escuros, combinando a urgência do speed metal com uma atmosfera de terror clássica. As guitarras cortam com agressividade, os riffs surgem afiados e a energia mantém-se constante ao longo de temas como “V.H.S.”, “Summoning the Dead” ou “Children of the Beast”, sempre com aquele espírito old school que remete para nomes como Agent Steel, Metal Church ou dos primeiros trabalhos dos Overkill.

A produção, assinada pela própria banda em conjunto com George Kougioumtzoglou, garante um som cru, mas poderoso, enquanto a masterização de Arthur Rizk acrescenta peso e clareza ao ataque. A arte de capa de Mario Lopez completa o quadro, reforçando a estética de horror que atravessa todo o disco. Com lançamento marcado para sexta-feira 13 de fevereiro de 2026 pela No Remorse Records, “Violent Horror Stories” surge como um passo firme e confiante na evolução dos Leatherhead , um álbum que não só dá continuidade ao impacto do disco de estreia, como aprofunda o lado mais negro e agressivo da banda. Para fãs de speed metal com veia sombria, este é um título a ter debaixo de olho.


 Lead Injector – “Witching Attack”
High Roller Records 

 Diretamente de Dresden, os Lead Injector estreiam-se em longa duração com “Witching Attack”, um verdadeiro ataque de black e thrash metal que presta homenagem sem concessões às raízes mais extremas do género. Gravado em apenas sete dias intensivos nos Stereoid Studios, o álbum soa cru, urgente e cheio daquela fome típica de uma banda que ainda tem tudo a provar. Formados em 2022, o trio rapidamente se destacou na cena local com o demo “From the Crypts… of Hell”, e este álbum de estreia junta versões regravadas desse material com novos temas, escritos, entretanto. O resultado é um disco coeso, mas surpreendentemente variado, onde cada faixa tem identidade própria. Nota-se um cuidado especial nas estruturas das canções, que fogem à repetição fácil e apostam em refrões e riffs memoráveis, algo nem sempre comum neste território sonoro.

“Witching Attack” respira metal extremo clássico, mas nunca soa datado. A produção mantém-se autêntica e direta, deixando espaço para que a energia e a personalidade da banda falem mais alto. Há aqui uma mistura eficaz de agressividade, velocidade e ganchos certeiros, sempre com um espírito old school bem assumido. Com lançamento marcado para fevereiro de 2026 pela High Roller Records, este álbum de estreia afirma os Lead Injector como um nome a ter em conta no black e thrash metal europeu. “Witching Attack” não reinventa o género, mas prova que ainda há espaço para novas bandas deixarem a sua marca com convicção, identidade e muito fogo nos amplificadores.

 


 Zepter – “Zepter”
High Roller Records 

Diretamente da Áustria, os Zepter chegam com um álbum de estreia homónimo que soa como uma carta de amor ao heavy metal tradicional, escrita a punho firme e sem filtros modernos. Formada em 2024, a banda não perdeu tempo. Depois do EP “Inferno”, rapidamente passou para o formato longo, mantendo intacta a urgência e a honestidade do primeiro registo. “Zepter” respira heavy metal old school por todos os poros. As guitarras gémeas assumem o protagonismo, com harmonias saborosas que remetem imediatamente para Thin Lizzy e UFO da era Schenker, enquanto a energia crua bebe claramente da NWOBHM mais primitiva. Faixas como “Exterminator” trazem à memória nomes como Tygers Of Pan Tang ou os primeiros Iron Maiden, com riffs diretos, refrões fortes e uma sensação constante de palco e suor.

Apesar das raízes bem visíveis, o disco não soa a exercício nostálgico vazio. Há aqui uma identidade própria, construída sobre canções novas e bem estruturadas, que mostram uma banda consciente do que quer fazer e como o quer fazer. A exceção é a versão de “Lonely Night”, dos Screem, que encaixa de forma natural no alinhamento e reforça ainda mais o espírito clássico do álbum. Editado pela High Roller Records, “Zepter” apresenta uma banda que entende o passado, vive-o com paixão e o transporta para o presente sem complicações. Um disco direto, honesto e cheio de ganchos, feito para quem ainda acredita que o heavy metal clássico continua vivo e a dar cartas.

 


 

Heir Corpse One – “Destination: Domination
Mighty Music/Target Group

 

Estimados leitores e entusiastas da decomposição sonora, preparem os vossos sentidos porque os Heir Corpse One acabam de nos entregar o bilhete de primeira classe para o fim dos tempos. Com o novo álbum “Destination: Domination”, o coletivo liderado pelo incansável Rogga Johansson e pelo mestre Peter Svensson não se limita a lançar mais um registo de metal extremo; eles apresentam-nos o capítulo mais ambicioso de uma saga que começou, de forma bizarramente luxuosa, num jato privado despenhado. É um prazer quase culposo acompanhar esta narrativa onde sobreviventes mortos-vivos trocam o champanhe pelo canibalismo, decidindo agora marchar em direção ao coração do poder para instaurar uma autêntica nação morta-viva.

A história que serve de pano de fundo a este disco é, no mínimo, fascinante para quem aprecia um bom cenário apocalíptico com um toque de classe. Depois de explorarem o folclore das Caraíbas e os mitos de Cthulhu em lançamentos anteriores, a banda foca-se agora na expansão desta praga negra que transforma cidades pacatas em autênticos matadouros. Musicalmente, o quarteto, que fica completo com o virtuosismo de Kjetil Lynghaug na guitarra e a precisão demolidora de Marcus Rosenkvist na bateria, mantém-se fiel àquele som icónico dos Sunlight Studios que tanto amamos, mas com uma densidade renovada.

O que salta imediatamente aos ouvidos em “Destination: Domination” é a forma como o grupo consegue casar a agressividade do Death Metal sueco clássico com texturas quase industriais e uma atmosfera distópica sufocante. É música que soa a maquinaria pesada a avançar sobre as ruínas da civilização, onde cada riff de guitarra parece uma serra elétrica bem oleada e cada batida de bateria nos lembra que a resistência humana é, provavelmente, fútil. Ainda assim, há uma elegância nesta destruição, uma mestria técnica que só músicos com este currículo — que passa por bandas como Massacre e Paganizer — poderiam imprimir com tanta naturalidade.

Em suma, este novo álbum é um banquete para os fãs do género que procuram algo mais do que apenas barulho gratuito. Há aqui uma construção de mundo, um conceito que ganha vida (ou morte) a cada faixa e uma produção que coloca o ouvinte no centro deste massacre cinematográfico. Os Heir Corpse One provam que o apocalipse, quando bem orquestrado, pode ser uma experiência extremamente satisfatória e, atrevo-me a dizer, até bastante divertida de se ouvir no volume máximo enquanto o mundo lá fora decide o seu destino. É, sem dúvida, o som oficial de um 2026 que não pede licença para ser devastador.

Witch – “The Hex Is On… And Then Some”
Lost Realm Records

Sejam bem-vindos a uma cápsula do tempo carregada de laca, couro e, muito provavelmente, algum perigo real de incêndio. Se o nome Witch vos faz pensar apenas em caldeirões e vassouras, está na hora de reverem os vossos clássicos do underground californiano. Com o lançamento de “The Hex Is On… And Then Some”, somos transportados para a Huntington Beach de 1983, onde o heavy metal não era apenas música, mas sim um desporto de contacto que envolvia sangue, pirotecnia e uma audácia que roçava a loucura. Esta compilação definitiva é um tributo à “brilhante anarquia” de uma banda que incendiou o circuito de clubes de Los Angeles — literalmente, no caso de alguns tetos — e que agora imortaliza todo o seu percurso, desde o caos dos anos 80 até às sessões inéditas de 1996.

A história dos Witch lê-se como um guião de um filme que o Hollywood dos anos 80 teria medo de realizar. Formados a partir das cinzas dos Ampage, o baterista Punky Peru e o vocalista Peter Wabitt, juntamente com Ronny Too e Jim Warmon, criaram uma sonoridade que era o filho ilegítimo e rebelde dos riffs pesados dos Judas Priest com a teatralidade exuberante de uns Mötley Crüe. Pelos relatos, quem teve o privilégio, de estar no Anaheim’s Woodstock em junho de 1983, testemunhou algo que ia muito além de um concerto, era um espetáculo de excessos onde ferimentos autoinfligidos em palco e acrobacias com fogo eram o prato do dia. Entre trancarem bandas rivais nos camarins e sobreviverem a altercações físicas com figuras como Nikki Sixx, os Witch provaram que eram demasiado perigosos para as grandes editoras, mesmo quando arrastavam multidões de 1500 pessoas e partilhavam o palco com lendas como Slayer ou Yngwie Malmsteen.

“The Hex Is On… And Then Some” é o documento histórico que faltava para fazer justiça a este legado de destruição. O álbum reúne de forma exaustiva todas as gravações de estúdio entre 1984 e 1989, incluindo o icónico EP homónimo e o single “Nobody Sleeps”, permitindo-nos traçar a evolução de uma banda que nunca perdeu a sua agressividade bruta, mesmo quando apurou o seu som. No entanto, a grande surpresa para os colecionadores reside nas sessões de 1996 produzidas por Howard Leese, sob o nome God Box, que revelam uma faceta mais madura, mas igualmente desafiante deste coletivo. É um registo fascinante que nos mostra o que acontece quando o poder bruto encontra uma produção de elite.

Disponível em formatos que fariam qualquer audiófilo sorrir, desde o LP de luxo com uma biografia detalhada e fotos raras até ao CD duplo que inclui o bónus dos God Box, este lançamento é mais do que uma simples compilação. É um ato de justiça poética para uma banda que viveu no limite e que, apesar de nunca ter assinado aquele contrato milionário com que Gene Simmons ou a Atlantic acenavam, deixou uma marca indelével no metal. Ouvir este disco é aceitar o convite para entrar num mundo onde o perigo espreitava em cada nota e a diversão era obrigatória, garantindo que, décadas depois, o feitiço dos Witch continua tão potente como no primeiro dia.

 


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