Rock Zone – Crimson Glory, Powerrage, Gotthard, Battleroar, Highway
Rock Zone é um programa de rádio na Rádio Alta Tensão e na Songs For The Deaf Radio da autoria de Miguel Correia e todos os meses, estes são os seus destaques.
Crimson Glory – “Chasing The Hydra”
Bravewords Records
Vinte e seis anos. É esse o tempo que separa “Astronomica” deste “Chasing The Hydra”. Uma geração inteira cresceu sem um novo álbum dos Crimson Glory, uma banda que ajudou a definir o progressive metal americano ao lado de Queensrÿche, Dream Theater e Fates Warning. Para muitos fãs, a esperança tinha há muito deixado de ser esperança para passar a ser memória. E então chegou este álbum e fez aquilo que os grandes álbuns fazem: superou tudo o que qualquer um de nós ousava esperar.
A sombra de Midnight pairava sobre este projeto como uma nuvem impossível de ignorar. Midnight, o vocalista original, é uma figura insubstituível na história do metal progressivo, e qualquer cantor que tentasse ocupar o seu lugar estaria a entrar num campo minado. Travis Wills não entrou com cautela. Entrou com personalidade. E essa é, para mim, a maior vitória do álbum: Wills não tenta ser Midnight, não o imita, não vive à sua sombra. Tem uma voz que serve a música dos Crimson com honestidade e com uma identidade que, faixa a faixa, foi ganhando cada vez mais sentido nos meus ouvidos. A sua capacidade de mudar de registo, de passar da agressividade para a vulnerabilidade numa questão de compassos, é simplesmente impressionante.
Jon Drenning, Ben Jackson e Dana Burnell estão presentes, e isso ouve-se. As harmonias duplas de guitarra que tornaram os primeiros álbuns da banda inconfundíveis regressam sem soarem forçadas, sem soarem nostálgicas pelo pior motivo. Soam vivas. Soam necessárias. A estrutura das composições respeita a lógica de picos e vales que sempre distinguiu a banda do resto, e o resultado é um álbum que respira, que tem espaço, que nunca empurra o ouvinte para um canto.
Do alinhamento de nove faixas, é difícil destacar apenas uma. “Redden The Sun” abre com uma grandiosidade que imediatamente avisa que isto não é um exercício de nostalgia. “Chasing The Hydra”, a faixa que dá título ao disco, carrega um peso emocional considerável nas letras de Wills sobre obstáculos e relações tóxicas, sustentadas por uma composição de Drenning que nunca deixa a intensidade abrandar. “Broken Together” e “Indelible Ashes” são os momentos mais intimistas e, por isso mesmo, os que ficam mais tempo a ressoar depois de o disco terminar. “Triskaideka”, a fechar, é uma declaração de intenções para o futuro da banda.
Powerrage – “Beast”
High Roller Records
Quando soube que John Ricci, o guitarrista que durante décadas definiu o som dos Exciter, estava de volta com uma banda completamente nova, confesso que a curiosidade foi imediata. Mas também o ceticismo. Não pela falta de talento, isso nunca esteve em causa. Mas porque recomeçar do zero, sem o peso confortável de um nome consagrado, é uma das tarefas mais difíceis que qualquer músico pode impor a si próprio. Ricci sabia disso. E fê-lo na mesma.
POWERRAGE não se trata dos Exciter com outro nome. Isso fica claro desde os primeiros compassos. Ricci escreveu tudo, música, letras, melodias, com a determinação de quem não quer deixar espaço para comparações fáceis. E consegue. “Beast” tem uma identidade própria que vai crescendo a cada faixa, construída sobre uma dualidade que é, em si mesma, um dos maiores trunfos do disco: metade das oito músicas são thrash agressivo e direto ao pescoço, a outra metade mergulha em territórios mais lentos, mais pesados, com uma atmosfera doom que paira como fumo sobre as faixas mais lentas.
“Dark Wings” abre o jogo sem cerimónias. É um riff que não pede licença, sustentado por Jacques Bélanger numa forma vocal que, honestamente, não esperava encontrar tão intacta. Bélanger já tinha trabalhado com Ricci em três álbuns dos Exciter, e a cumplicidade entre os dois sente-se. Há uma química que não se ensina e não se finge. “Haunted Hell” é provavelmente o momento mais redondo do disco: o tema equilibra brutalidade e melodia com uma naturalidade que poucos conseguem. E “I Torture I Kill” é a surpresa que o álbum precisava, quase punk na sua agressividade crua, desconfortável da melhor maneira possível.
Todd Pilon no baixo e Lucas Dery na bateria completam uma secção rítmica que sustenta tudo com solidez sem nunca se tornar previsível. São músicos que servem a música em vez de tentarem roubá-la e isso nota-se. A produção de Dan Swanö faz exatamente o que deve: equilibrada e sólida, deixa respirar cada instrumento sem esterilizar a energia. O disco foi gravado ao vivo em estúdio, e essa decisão foi claramente a certa. Há uma verdade no som que produções demasiado polidas nunca conseguem replicar.
“Beast” correspondeu ao que esperava e isso, vindo de um músico com o historial de Ricci, é um elogio genuíno. Não há aqui promessas não cumpridas nem ambições por cumprir a meias. Há oito músicas escritas por alguém que sabia exatamente o que queria dizer e soube como dizê-lo. Para quem cresceu com o heavy metal dos anos 80 e tem saudades de discos que soam como se importassem mesmo, Beast é o álbum que estava a faltar em 2026.
Gotthard – “More Stereo Crush”
Reigning Phoenix Music
Quando “Stereo Crush” chegou em 2025, ficou imediatamente claro que os suíços estavam numa forma invulgar. O álbum soou rejuvenescido, confiante, cheio de energia. Então, quando foi anunciado que havia mais material das mesmas sessões, a questão era óbvia: seriam estas sobras de estúdio por uma razão, ou havia aqui algo genuinamente valioso? A resposta, depois de ouvir “More Stereo Crush” do princípio ao fim, é clara: há aqui muito mais do que sobras. Há músicas que não mereciam ficar guardadas numa gaveta.
O EP arranca com a energia que qualquer fã da banda espera, e rapidamente fica evidente que Nic Maeder continua a ser um dos vocalistas mais sólidos do hard rock europeu. A sua presença em palco traduz-se também em disco, com uma naturalidade que poucos conseguem manter depois de tantos anos. Mas são “Snafu” e “Mayday” que ficam. São os dois momentos onde a banda soa mais instintiva, mais crua, mais Gotthard no seu estado mais puro. “Snafu” em particular tem um riff que não pede licença para entrar na cabeça e lá ficar. “Mayday”, que muitos já conheciam do vídeo, ganha uma dimensão diferente no contexto do EP, rodeada pelas outras faixas. Ouvida assim, em sequência, percebe-se porque é que merecia estar aqui e não continuar apenas num ecrã.
O dueto de Liverpool com Marc Storace dos Krokus é um momento simpático e bem executado, dois veteranos do rock a partilharem um palco sonoro com a descontração de quem tem décadas de estrada nas pernas. “Smiling In The Pouring Rain” é a balada que os fãs do lado mais emotivo da banda vão abraçar. E o radio edit de “Burning Bridges” fecha o ciclo de forma coerente para quem quer o EP como complemento ao álbum anterior.
“More Stereo Crush” correspondeu exatamente, de forma natural, ao que esperava, e isso dito sobre os Gotthard é um elogio sincero. Não há aqui surpresas radicais nem reinvenções desnecessárias. Há uma banda que sabe muito bem o que é, que ama o que faz, e que tem material suficientemente bom para justificar um lançamento a meio do caminho para o próximo álbum. Para os fãs, é um presente. Para quem ainda não conhece a banda, é uma porta de entrada tão boa quanto qualquer outra.
Battleroar – “Petrichor”
No Remorse Records
Cheguei aos Battleroar pela primeira vez precisamente com este “Petrichor”, sem o peso da nostalgia nem a expectativa acumulada de quem os segue desde os primeiros discos. Ouvi-o como alguém que descobre uma banda nova, sem referências anteriores para comparar, sem álbuns favoritos para defender. E talvez por isso mesmo, a minha leitura seja diferente da de muitos fãs de longa data: é uma leitura honesta de alguém que encontrou aqui coisas genuinamente impressionantes, mas também algumas que ficaram por cumprir.
Comecemos pelo que funciona, e funciona bem. O carácter dramático e épico do álbum é inegável e é, sem dúvida, o seu maior trunfo. Há momentos em “Petrichor” onde a música transporta o ouvinte para uma paisagem cinematográfica, quase mitológica, construída com passagens atmosféricas que respiram com uma grandiosidade pouco comum no metal contemporâneo. Percebe-se imediatamente a herança de bandas como Manilla Road e Omen, e percebe-se também que os Battleroar não estão a imitar essa herança, estão a habitá-la com convicção. Quando o álbum levanta voo, levanta mesmo.
A produção de Kostas Tzortzis e a mistura e masterização de Arthur Rizk fazem o seu trabalho com competência. O som é sólido, com espaço e profundidade, e o carácter épico da música é servido tecnicamente de forma adequada. Rizk, conhecido pelo seu trabalho com bandas como os Eternal Champion, sabe como tratar este tipo de material sem lhe retirar a rugosidade necessária.
Mas “Petrichor” tem também as suas fragilidades, e seria desonesto ignorá-las. O álbum sofre de uma certa uniformidade ao longo do alinhamento. As faixas partilham uma linguagem comum que, se por um lado garante coesão, por outro acaba por diluir o impacto individual de cada tema. Depois de alguns momentos mais memoráveis no início do disco, há uma sensação crescente de que as músicas se fundem umas nas outras sem que nenhuma reclame verdadeiramente o seu território. As melodias, por mais cuidadas que sejam, nem sempre ficam. Ouve-se o álbum com prazer, mas quando termina, é difícil cantarolar mais do que um ou dois fragmentos. Para um género que vive precisamente da força das suas melodias e da sua capacidade de criar imagens duradouras, isso é uma limitação que não pode ser ignorada.
Dito isto, “Petrichor” é um ponto de partida válido para quem quer conhecer os Battleroar, e um regresso digno para quem os esperava há oito anos. A identidade da banda está intacta, a convicção é real, e há aqui suficiente para justificar a atenção. Só precisava de mais alguns momentos que recusassem ser esquecidos.
Highway – “Last Call for Rock N’ Roll”
Rock Music City
Vinte e cinco anos de carreira. Esse é o peso que os HighWay carregam nas costas à entrada deste novo álbum. E o título é uma declaração de intenções tão direta quanto um riff de abertura: isto é rock, foi sempre rock, e vai continuar a ser rock enquanto houver alguém disposto a tocá-lo com esta convicção. Depois de “The Journey” em 2022, um álbum mais acústico e introspetivo, a banda regressa às origens elétricas com uma energia que, honestamente, não esperava encontrar tão intacta nem tão vigorosa.
“Last Call For Rock’n Roll” superou tudo o que eu antecipava. Não porque o álbum reinvente o género, mas precisamente porque não tenta fazê-lo. Há aqui uma honestidade rara, a de uma banda que sabe exatamente o que é, que ama o que faz, e que canalizou 25 anos de estrada para 12 faixas que soam vivas, urgentes e completamente sem complexos. As influências são claras, AC/DC, Queen, Whitesnake, mas nunca se tornam imitação. Os HighWay bebem dessas fontes e depois fazem algo inconfundivelmente seu.
“Hi-Way” é um dos muitos momentos que ficam. É um hino de estrada construído com uma simplicidade aparente que esconde um trabalho cuidadoso: o riff é imediato, a voz de Benjamin Folch cavalga a música com a naturalidade de quem nasceu para cantar rock, e quando chega a ponte orquestral, inesperada e absolutamente bem colocada, percebe-se que esta banda tem mais camadas do que à primeira vista parece. É o tipo de faixa que soa bem no carro, melhor ainda num palco, e que não sai da cabeça durante dias. O que mais se pode pedir a uma música de rock?
“Bang Bang” chega carregada de energia suja e uma letra que ri de si própria com inteligência, e “D.K/D.C”. explode num refrão de arena que justifica completamente o adjetivo. Mas o álbum funciona sobretudo como um todo, com uma coesão que se sente faixa a faixa, sem quebras de ritmo desnecessárias nem tentações de ser algo diferente do que é. A produção de Brett Caldas-Lima, que já trabalhou com nomes como Megadeth e Devin Townsend, está ao serviço da música com uma clareza que não esteriliza a agressividade: limpa quando precisa de ser limpa, suja quando a música o exige.
“Last Call For Rock’n Roll” é o álbum que me fez parar e prestar atenção a uma banda que deveria ter descoberto muito antes. Para quem os segue há anos, será provavelmente a confirmação de que a banda nunca esteve tão afiada. Para quem chega agora, como eu, é uma porta de entrada magnífica para 25 anos de história que de repente se tornou impossível de ignorar. Que não seja mesmo a última chamada.
Honesto, urgente e sem complexos. Um grande disco dos HighWay!
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