Filhos do Metal – Religião e Ideologia
Por Duarte Dionísio
(Filhos do Metal – À descoberta do Heavy Metal em Portugal)
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Por que águas navegam algumas bandas portuguesas de Heavy Metal? Será que há alguma estética religiosa por detrás do conceito ideológico? Coloquei a mim mesmo estas questões e numa primeira análise do meu próprio conhecimento e memórias, fiquei um pouco à deriva! Sem pensar muito, lembrei-me de algumas bandas: Black Cross, Filii Nigrantium Infernalium, Black Widows, Irae, Decrepitude, Mons Veneris, Rainha Cólera, Vetala (estas cinco últimas formaram o Black Circle, mas já lá vamos). Depois de pesquisar um pouco mais, a conclusão é bastante curiosa! Não parecem existir tendências dogmáticas claras. É difícil afirmar que a religião, seja ela de que espécie for, não é no sentido filosófico estruturado. Há mais uma estética de imagem, obscuridade e choque, do que no sentido religioso puro e duro. Os Stryper são um dos exemplos mais claros de metal explicitamente cristão. A banda americana assumia a evangelização através da música, defesa da fé cristã com mensagens de salvação, redenção e moralidade. Até o próprio nome “Stryper” vem de Book of Isaiah 53:5 (“by His stripes we are healed”). Em Portugal aventou-se, de forma muito superficial, a possibilidade das Black Widows alinharem nessa vertente cristã, algo que não foi confirmado pela mentora Rute Fevereiro, apesar da sua própria opção religiosa. No extremo oposto, parece existir um terreno mais fértil para especulação.
Os Black Cross foram, talvez, a primeira banda portuguesa de metal a ter uma imagem e estética que remetia para o anti-cristianismo ou satanismo. Mas também aqui, não é claro que seja ideológico, mas sim estético e até algo caricato, ao jeito de uns Venom. Há mais um conceito de revolta, um simbolismo provocador, mas não literal. Talvez um começo de temática niilista, que irá atravessar o contexto lírico e imagética da maioria das bandas de Black Metal portuguesas. Os Filii Nigrantium Infernalium enquadram-se mais claramente na tradição do Black Metal europeu mais “ortodoxo”, o que normalmente inclui: satanismo simbólico ou filosófico (mais ligado à rejeição de valores cristãos do que a prática literal), anti-cristianismo e crítica à religião institucional. Individualismo extremo e exaltação do “eu” e uma estética obscura, ritualística e por vezes provocadora. O próprio nome em latim (“Filhos do Negro Infernal”) já indica essa orientação estética e conceptual. No entanto, à semelhança dos Black Cross, importa dizer que, como em muitas bandas do género, há uma componente teatral e provocação artística – nem tudo deve ser interpretado de forma literal ou como posicionamento político direto. Outras bandas que fazem uso desta estética “ortodoxa” – há várias bandas que partilham esse tipo de imaginário mais obscuro, com simbolismo satânico, anti-cristão ou ocultista – são: Corpus Christii, In Thy Flesh, Morte Incandescente, só para citar alguns exemplos mais notórios.
Com um lado mais ritualista, ocultista, decadente e uma tendência lo-fi nas produções há alguns exemplos. Decayed – uma das bandas mais antigas da cena. Mistura horror, ocultismo e elementos teatrais, nem sempre focada exclusivamente em satanismo, mas com forte imagética negra. Black Cilice – bastante respeitada internacionalmente no underground. Estética lo-fi, ritualista e muito fechada, mais atmosférica, mas ainda dentro do universo anti-religioso. Mons Veneris – projeto com abordagem mais experimental, muitas vezes tocando em temas de decadência, ocultismo e transgressão. É aqui que se torna interessante mencionar o Black Circle, do qual esta última banda fez parte. O chamado “Black Circle” português é um daqueles fenómenos quase míticos dentro do underground extremo. Pouco documentado, deliberadamente obscuro e conhecido sobretudo por colecionadores, tape-traders e círculos muito específicos do Black Metal. Daria, certamente para um artigo dedicado em exclusivo. O Black Circle foi um pequeno coletivo informal de bandas portuguesas de Black Metal cru (raw/lo-fi) que surgiu por volta de meados dos anos 2000. Irae, Decrepitude, Mons Veneris, Rainha Cólera, Vetala foram as bandas integrantes. Este núcleo é consistentemente referido como um grupo fechado e altamente underground. Ele representa uma filosofia específica: underground acima de tudo; anti-exposição; elitismo artístico (no sentido Black Metal clássico). Basicamente, quanto menos conhecido, mais “puro”, uma lógica muito típica deste nicho. Ideologicamente identificava-se como anti-religião, mas não panfletário. À primeira vista, estas bandas parecem encaixar no clássico: anti-cristianismo, blasfémia, iconografia satânica. O Black Circle não é tanto sobre satanismo religioso ou ativismo anti-cristão. É mais sobre a negação total de estrutura musical, social e espiritual. Se tivesse de resumir numa frase diria – não é “adorar o mal”, é habitar o vazio depois de tudo ter perdido significado. Talvez se vislumbre uma ligação a niilismo filosófico (tipo Friedrich Nietzsche ou correntes mais extremas). Depois temos os Gaerea e a sua vertente misantrópica. Têm uma abordagem emocional, existencial e humana. As letras tendem a explorar o sofrimento psicológico (ansiedade, depressão, isolamento), alienação e vazio existencial.
Todos estas e muitas outras bandas portuguesas não oferecem “lenha para queimar na praça pública”. Não parece ser do interesse dos meios de comunicação social explorar a provocação, a obscuridade, nem mesmo a mensagem mais ortodoxa anti-cristã de alguns projetos. Exceção feita aos Agonizing Terror, de quem muito se falou por motivos bem mais reais e pungentes. Mas essa história ficará, quem sabe, para outro texto.
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