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Filhos do Metal – Heavenwood

Por Duarte Dionísio
(Filhos do Metal – À descoberta do Heavy Metal em Portugal)
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Portugal teve (e tem) a sua dose de bandas que se internacionalizaram, seja lá o que isso quer dizer hoje em dia. O mercado digital global permite a difusão mundial da música que as bandas produzem. Mas há sempre aquele “pequeno” detalhe que é a efetivação. A verdadeira distribuição fisíca dos discos, assim como a apresentação ao vivo em diversos países. Nesse contexto, os Heavenwood são um exemplo muito interessante daquilo que o nosso país tem para oferecer no campo do Heavy Metal. A primeira vez que ouvi música feita pela banda foi em 1994 com a demo “As Illusive as A Dream”. Nessa altura ainda utilizavam o nome Disgorged, que viria a mudar para Heavenwood em 1996. Confesso que fiquei bastante impressionado com o que a banda produzia. O Death/Doom/Gothic Metal estava em ascenção com bandas como Paradise Lost, Anathema, Amorphis, Tiamat, Sentenced a fazer furor no panorama internacional do Heavy Metal. As principais editoras independentes do género apostavam forte neste tipo de sonoridade. Os Heavenwood foram apanhados nessa corrente. A qualidade demonstrada foi apelativa para a alemã Massacre Records, que lançou o primeiro album da banda a 27 de Agosto de 1996, intitulado simplesmente “Diva”. E que album! Ainda hoje é apreciado em todo o mundo. Os Heavenwood tiveram a oportunidade que muitas outras bandas portuguesas procuravam. Mas a carreira da banda não teve a continuidade desejada. Apesar do grande passo que foi o álbum de estreia, o que se seguiu não foi uma carreira constante. Mas a banda sobrevive hoje, sempre com resiliência, principalmente por parte do membro fundador, o guitarrista Ricardo Dias Dos Santos. Passados 30 anos da estreia discográfica, a banda volta a lançar um novo disco intitulado “The Tarot Of The Bohemians – Part II”, previsto para 12 de junho pela Mighty Music. Troquei algumas ideias com o Ricardo, aqui fica o ressultado.

Ricardo Dias dos Santos, tem 48 anos e nasceu no Porto. Como muitos metaleiros por todo o mundo, também o Ricardo foi marcado pelos Iron Maiden, nomeadamente “2 Minutes to Midnight/ Aces High”. Uma excelente referência que despoletou, certamente, o talento de um músico e compositor que se viria a revelar. Desde o tempo em que era apenas um fã até hoje foi um percurso nem sempre fácil. Em 2026, o que motiva o Ricardo para continuar a fazer música e a editar um novo disco de Heavenwood? O Ricardo comentou – “Mais do que uma paixão, o amor incondicional primeiro e paralelamente o respeito, consideração e agradecimento aos fãs de Heavenwood”. – 30 Anos depois de “Diva” e 10 anos depois de “The Tarot Of The Bohemians” muita coisa mudou. O Ricardo resumiu numa frase de Friedrich Nietzsche a principal mudança neste “The Tarot Of The Bohemians – Part II” – “O que não me mata, torna-me mais forte”. – Bastante explícito, parece-me. Estes últimos anos foram complicados. O Ricardo atravessou tempos difíceis nos últimos anos. Problemas físicos, problemas com a banda. Quanto disso está refletido neste “The Tarot Of The Bohemians – Part II”? – “Em matéria de conceito deste novo álbum rigorosamente nada, uma vez que o respetivo é uma continuação e conclusão da abordagem do ocultista Papus (Dr Gerard Encausse) relativamente aos seus estudos e obra do século XVIII ‘The Tarot of the Bohemians’. No que respeita ao acidente e incidente, não deixa de ser “curioso” que o primeiro abriu “portas” e “janelas” para o segundo acontecimento e então ambos tornaram-se uma espécie de “fantasma”. Longe de o disco ser uma espécie de “tributo” a esses acontecimentos mas que ambos estiveram mentalmente e emocionalmente presentes durante o processo? Sim, mas jamais como inspiração ou motivação”. – O conceito do álbum já estava definido, mas o processo criativo e a execução foram emocionalmente influenciados.

Heavenwood é agora uma “one man band”. Como vai ser apresentado este novo álbum ao vivo? Com convidados? – “Na realidade sempre assim foi desde a sua formação, em matéria de composição musical e lírica, também os conceitos associados. O “input” dos anteriormente envolvidos estava focado na interpretação e execução apenas. Relativamente ao presente, Heavenwood irá actuar ao vivo com músicos de sessão experientes e dos quais mantenho afinidade e respeito recíproco (muito mais além das questões de índole técnica, business oriented ou ‘trampolim’ para os seus interesses pessoais)”.Heavenwood é um nome com legado. Tem fãs em muitas partes do mundo. Onde ainda queres chegar com a banda? – “Boa questão!! Penso que chegar e estar mais perto desses e novos fãs, seja em cima ou fora de um palco. Atualmente Heavenwood trabalha com duas estruturas de origem nórdica, a editora (Mighty Music) e o booking (Allegro Talent Music) e esse ‘know-how’, ‘work ethic’, cultura e mindset serão 2 faróis importantes para que Heavenwood chegue a outros portos”. – O que mais reténs da carreira da banda? – “A constatação que a música de Heavenwood é intemporal, atravessando gerações, culturas e sobrevivendo ao teste de algodão de isto tudo. Ou seja, o tempo”. – Para terminar pedi ao Ricardo uma contemplação sobre a atualidade. O Mundo, a nossa sociedade sempre foi confusa. Mas quanto mais avançamos no tempo, parece piorar. Guerras, incerteza, tudo acontece a uma velocidade estonteante. O virtual, o artificial, parece ganhar um espaço que começa a ocupar o lugar do Ser Humano. Concordas? Como vês a música hoje neste contexto? – “Estamos perante uma fase de transformação, da mesma forma que outras transformações tiveram lugar no passado. Eu vejo tudo isso como ferramentas e não como substitutos, quando muito outras alternativas de ter acesso à base/fonte, ou seja a música. Não esqueçamos que as vias que optamos utilizar são escolhas individuais e conscientes, eu escuto música em plataformas digitais porque eu assim o decidi, tenho a alternativa de adquirir vinil ou cd. Uma outra questão é que atualmente a oferta aumentou exponencialmente e financeiramente falando é impossível adquirir fisicamente a avalanche mensal de edições discográficas, espectáculos, merchandise etc, das bandas consagradas e da nossa eleição, quanto mais das que entretanto surgem. O streaming digital acaba por potencializar a divulgação de novos projetos ou bandas de menor dimensão e impacto/influência no mercado. No entanto, considero que há que ser sensato e ter os pés bem assentes na terra para os seguintes factos e realidades: competir diretamente com Grandes Bandas e Grandes Estruturas, deveríamos saber de antemão a previsão dos resultados. Gerir expectativas quando apresentam um produto ‘home-made’ com 1% apenas do budget de outras bandas, lançar para o mercado mais um cópia de uma fotocópia, a escassez de essência e personalidade musical (alguém está assim tão interessado em ouvir um nórdico cantar fado em ‘português’ ?!), a dimensão e capacidade do próprio mercado interno associado à qualidade, potencialidade e globalidade da música apresentada, etc. Por estes e tantos outros motivos é necessário e vital existir um circuito underground, pequeno mas definitivamente bem estruturado e preparado para as bandas novas ou de pequena dimensão irem alinhavando e trabalhando a sua fan-base ou mesmo criar e ter noção do seu próprio modelo de trabalho á sua dimensão e fora da sala de ensaios”. Vamos ouvir o album “The Tarot Of The Bohemians – Part II”.


 

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