Rock Zone – Tochia, Vision Divine, Gravemass, Bustié, Venom, Coldwinter
Rock Zone é um programa de rádio na Rádio Alta Tensão e na Songs For The Deaf Radio da autoria de Miguel Correia e todos os meses, estes são os seus destaques.
Torchia – “They Are Born Under Rules of the Darkness”
Rockshots Records
Há bandas que nascem para tocar metal extremo. E depois há bandas como os Torchia, que parecem determinadas a construir um universo inteiro à volta dele. Com “They Are Born Under Rules of the Darkness”, os finlandeses não se limitam a lançar mais um disco pesado, mergulham de cabeça num ritual obscuro onde blackened melodic death metal, horror gótico e grandiosidade cinematográfica convivem sem pedir licença a ninguém. E a verdade é que resulta assustadoramente bem. Desde os primeiros segundos percebe-se que este não é um álbum feito para consumo rápido. Há detalhe em todo o lado. Há ambição. Há riffs suficientes para alimentar uma pequena guerra nórdica durante semanas. E, acima de tudo, há uma identidade cada vez mais vincada. Torchia já não soa apenas a “mais uma banda extrema da Finlândia”. Soa a Torchia.
A produção de Janne Saksa e a masterização do inevitável Dan Swanö ajudam muito nessa missão. O disco tem músculo, mas também respira. As guitarras esmagam, as partes orquestrais criam atmosfera sem cair no exagero hollywoodiano e tudo soa coeso, mesmo quando a banda decide abrir as portas do inferno e despejar blast beats, melodias épicas e passagens quase teatrais ao mesmo tempo. “Hellmouth”, “The Tiamat Machine” e “Sanguine Masquerade” mostram uma banda claramente mais madura na composição. Há agressividade, claro, mas também refrões memoráveis, leads melódicos cheios de personalidade e uma capacidade rara de equilibrar violência e melodia sem parecer um exercício de laboratório. Já “Black Cat” e “Stygian Waters” puxam mais pela vertente crua e feroz dos primeiros tempos, lembrando que, por muito refinada que a banda esteja hoje, continua a existir uma besta faminta por baixo de toda esta elegância sombria.
E depois há toda a componente conceptual. O imaginário gótico do século XIX, os rituais ocultos, as entidades sobrenaturais e aquela sensação constante de maldição iminente dão ao álbum um charme especial. Há discos que parecem coleções de músicas. Este parece um livro amaldiçoado encontrado numa cave húmida algures na Transilvânia. Claro que nem tudo aqui reinventa a roda. Algumas estruturas continuam bastante familiares para quem vive entre Behemoth, Cradle of Filth ou Children of Bodom. Mas os Torchia conseguem evitar a armadilha da simples cópia graças à forma como junta todas essas influências num pacote coerente, pesado e genuinamente divertido de ouvir. E convenhamos, qualquer banda que consiga soar simultaneamente maléfica, épica e pronta para incendiar um palco merece atenção.
“They Are Born Under Rules of the Darkness” não é apenas o melhor disco da carreira dos Torchia até ao momento. É também um daqueles álbuns que confirma que ainda há muito espaço para criatividade dentro do metal extremo moderno, desde que exista visão, talento e coragem para ir além do óbvio. Os finlandeses abriram as portas da escuridão. Entrar ou não… já depende de cada um.
Vision Divine – ““A Clockwork Reverie”
Scarlet Records
Há regressos que sabem a nostalgia. E depois há regressos que sabem a vitória. Vision Divine encaixam claramente na segunda categoria com “A Clockwork Reverie”, um EP que não só recupera a magia da chamada “era dourada” da banda, como ainda mostra que estes veteranos continuam perfeitamente capazes de dar lições a muito power metal moderno cheio de músculo… mas vazio de alma. O grande destaque, claro, é o regresso de Michele Luppi e Oleg Smirnoff. E sejamos honestos, para muitos fãs isto é praticamente equivalente a ver uma equipa lendária voltar ao ativo para mais uma temporada impossível. A química está toda lá. Aquela elegância melódica, os refrões grandiosos, os arranjos progressivos cheios de classe e a sensação constante de que a banda sabe exatamente quem é e o que quer fazer.
E Michele Luppi… bem, há vozes que envelhecem. A dele parece apenas ter ficado mais refinada. Continua tecnicamente impressionante, emocional quando precisa e capaz de subir às notas mais exigentes sem soar a alguém em sofrimento físico, o que no power metal atual já merece algum tipo de medalha honorária. Musicalmente, “A Clockwork Reverie” funciona como uma ponte perfeita entre o passado e o presente da banda. Há aquele ADN clássico de discos como “Stream of Consciousness”, mas com uma produção moderna, musculada e cristalina. Os teclados de Oleg Smirnoff voltam a trazer aquele brilho cinematográfico irresistível, enquanto as guitarras equilibram técnica e melodia sem cair na tentação olímpica do “olhem para mim a tocar 700 notas por segundo”.
Os singles “18 (It Feels Like Heaven)” e a faixa-título já tinham deixado água na boca, mas no contexto do EP ganham ainda mais força. Há energia, emoção, virtuosismo e, acima de tudo, músicas que realmente ficam na cabeça, algo que nem sempre acontece num género onde, por vezes, alguns músicos parecem mais preocupados em derrotar calculadoras científicas do que em escrever canções memoráveis. Claro que quem procura revoluções sonoras ou experiências ultra modernas talvez não encontre aqui o próximo manifesto futurista do metal progressivo. Mas sinceramente? Ainda bem. Os Vision Divine percebem perfeitamente que não precisam de reinventar tudo para soar relevantes. Basta fazer aquilo que sempre fizeram melhor. “A Clockwork Reverie” é elegante, poderoso, emotivo e incrivelmente bem executado. Um daqueles lançamentos que aquece o coração dos fãs antigos e, ao mesmo tempo, prova às gerações mais novas porque razão os Vision Divine continuam a ser um nome tão respeitado dentro do power metal progressivo. E sim… ouvir Michele Luppi de volta neste contexto sabe absurdamente bem.
Gravemass – “This Is The Way”
End Game Records Inc.
“This Is The Way”, o primeiro ataque sonoro dos Gravemass, entra pela porta dentro como um tanque desgovernado carregado de riffs assassinos, blast beats e ódio suficiente para alimentar meia dúzia de apocalipses modernos. E sinceramente? Que belo caos… Quando uma banda junta elementos ligados a nomes como 3 Inches of Blood, Revocation ou Zimmers Hole, a expectativa sobe imediatamente. Felizmente, os Gravemass não só correspondem, como ainda nos entregam um dos discos mais violentamente divertidos do underground extremo recente. “This Is The Way” tem menos de trinta minutos, mas parece uma sessão completa de pancadaria ritualística. Não há tempo morto, não há enfeites desnecessários, não há aquela típica mania moderna de transformar todos os discos extremos em bandas sonoras de três horas para filmes imaginários sobre o fim do mundo. Aqui é simples: riffs, destruição, groove, velocidade e vontade genuína de partir pescoços em contexto de mosh pit.
A mistura entre death metal, black metal, thrash e até uma certa energia hardcore funciona de forma quase irritantemente natural. Há momentos que cheiram a Slayer, outros que trazem aquela podridão clássica do som dos Morbid Angel, e ainda espaço para a maldade primitiva dos Venom. Mas Gravemass conseguem soar a si próprios, principalmente graças à intensidade absurda com que tudo é executado. “Fallen” continua a ser um autêntico murro no estômago, “Horned King” transpira blasfémia e destruição e a faixa-título “This Is The Way” parece criada especificamente para gerar acidentes cervicais ao vivo. Aquele grito coletivo “1, 2, 3, 4!” tem tanto espírito punk e energia de guerra de bar que quase dá vontade de atravessar uma parede só para entrar corretamente no ambiente.
E depois há a produção. Pesada, humana, crua quanto baste e sem cair naquela armadilha moderna de transformar tudo numa pasta digital sem alma. O disco soa perigoso, e isso num álbum extremo é meio caminho andado para o sucesso. Claro que isto não vem reinventar o metal extremo. Os Gravemass não estão preocupados em inventar jazz atmosférico progressivo pós-apocalíptico tocado com flautas tibetanas. A missão aqui é esmagar tudo à frente com riffs malignos, bateria impiedosa e uma atitude completamente furiosa. Missão cumprida com distinção. O mais impressionante é perceber que isto é apenas o começo. Se o segundo álbum já está a ser preparado e seguir esta linha de insanidade controlada, então o underground canadiano tem aqui uma máquina seriamente perigosa nas mãos. “This Is The Way” é bruto, rápido, maléfico, viciante e estupidamente eficaz. Um daqueles discos que termina… e imediatamente obriga a carregar no play outra vez antes que os ouvidos recuperem totalmente do estrago.
Bustié – “Throb”
Psychic Eye Records
Há discos que querem salvar o mundo. Outros querem pôr-te a dançar enquanto ele arde. “THROB”, o novo trabalho de Bustié, escolhe claramente a segunda opção… e ainda bem. O projecto de Angelika Padilla, aka Pogo Pope, apresenta-se aqui com uma identidade tão peculiar quanto impossível de ignorar. A própria definição de “Anarcho Body Music” podia soar a manifesto inventado às três da manhã num clube subterrâneo cheio de néon e fumo artificial, mas a verdade é que faz todo o sentido assim que o álbum começa a soar nas colunas. “THROB” vive da colisão entre electro obscuro, freestyle oitentista, punk, disco decadente e aquele espírito de pista de dança onde tanto cabe um grito político como uma dança completamente descontrolada às duas da manhã. E o mais impressionante é que, apesar da quantidade de influências, o disco raramente se perde no caos. Tem uma personalidade forte. Muito forte!
Faixas como “Lady of Dread” mergulham numa atmosfera gótica e sedutora, enquanto “Perimeters of Love” traz um lado mais melódico e quase hipnótico. Pelo meio, aparecem ecos de acid, new jack swing e até aquele brilho estranho de velhos discos pop que claramente marcaram Padilla. Sim, sente-se ali um cheirinho a “Rhythm Nation”, mas filtrado por noites mal dormidas, clubes alternativos e uma vontade enorme de derrubar convenções. Liricamente, “THROB” também não se esconde atrás da estética. O álbum aborda identidade, resistência, direitos LGBTQ+ e empowerment trans de forma direta e pessoal, sem soar panfletário. Há sinceridade nas palavras, especialmente sabendo o peso emocional associado à perda da mãe de Angelika durante a criação do disco. Isso acaba por dar profundidade a um trabalho que podia facilmente viver apenas da energia e da atitude.
Claro que nem tudo é perfeito. Há momentos em que a mistura de estilos ameaça transformar-se numa espécie de rave cyberpunk emocionalmente instável. Mas, honestamente, isso também acaba por fazer parte do charme. “THROB” nunca tenta ser polido demais. Prefere ser vivo, intenso e imprevisível. No final, Bustié entrega um álbum que tanto pode funcionar numa pista de dança alternativa como na banda sonora de um colapso existencial muito bem-vestido. Estranho? Sim. Excessivo? Às vezes. Memorável? Pode ser que sim…
Venom – “Into Oblivion”
Steamhammer
Falar de Venom nunca será apenas falar de uma banda. É falar de um ponto de ruptura. De um antes e depois dentro da música extrema. Há nomes que marcaram estilos, e depois há músicas como “Black Metal”, “Countess Bathory”, “Welcome To Hell” ou “Possessed”, que praticamente ajudaram a moldar mentalidades inteiras dentro do underground. Para muitos de nós, Venom não foi apenas uma descoberta musical, foi uma porta escancarada para um mundo completamente novo. E talvez por isso seja impossível ouvir “Into Oblivion” sem aquele misto de entusiasmo, respeito e expectativa quase infantil. Porque, honestamente, quando uma banda destas lança um disco novo, não estamos só a ouvir músicas novas. Estamos a revisitar uma parte importante da própria história do metal.
A verdade é que os Venom já passaram por tudo. Mudanças de formação, discos mais inspirados, outros menos brilhantes, guerras internas, regressos improváveis e fases em que parecia que o caos era tão importante quanto os riffs. E sejamos sinceros, parte do charme da banda sempre esteve precisamente aí. Os Venom nunca foram sobre perfeição técnica. Foi sobre atitude, perigo, ruído e aquela sensação constante de que tudo podia descarrilar a qualquer momento. Depois de um “Storm The Gates” algo irregular, “Into Oblivion” surge quase como uma resposta direta aos fãs que ansiavam por um regresso mais feroz à identidade clássica da banda. E, surpreendentemente, resulta muito melhor do que muitos esperavam.
“Lay Down Your Soul” entra a matar, carregando aquele espírito cru e acelerado que imediatamente remete para os dias de “Black Metal”. “Death The Leveller” traz groove, suor e um ADN claramente alimentado a Motörhead, enquanto “Metal Bloody Metal” é tão descaradamente simples e eficaz que quase parece feita de propósito para ser gritada por salas cheias de denim e cabedal gasto. E depois há Cronos. Claro que há Cronos. Porque Venom sem Cronos seria como um filme de terror sem sangue falso. Continua a ser uma personagem absolutamente única dentro do metal. Entre o caos, a teatralidade e aquele carisma meio provocador, meio completamente descontrolado, continua a soar como alguém que provavelmente ainda acredita que amplificadores devem cheirar a fumo e cerveja velha.
Musicalmente, o disco não reinventa nada. Nem precis! Os Venom não têm de provar mais nada a ninguém. Os riffs continuam primitivos, diretos e muitas vezes mais movidos pela energia do que pela sofisticação. E é exatamente isso que queremos deles. Claro que há momentos em que algumas ideias parecem esticar-se mais do que deviam, especialmente na segunda metade do álbum, onde nem todas as faixas mantêm o impacto inicial. Mas sejamos honestos, esperar que a banda soe cirurgicamente perfeita em 2026, seria quase ofensivo para aquilo que a banda representa. O mais importante é que “Into Oblivion” recupera algo essencial, a sensação de perigo, de urgência e de diversão caótica que sempre os definiu. E ouvir isso novamente é quase como reencontrar um velho amigo completamente desajustado…mas que continua exatamente como devia ser. No fim, talvez seja isso que faz de deles uma banda eterna. Não é apenas a influência gigantesca que tiveram sobre thrash, black ou speed metal. É o facto de continuarem a soar como Venom, independentemente das décadas que passem. E isso, por si só, já merece respeito absoluto.
Coldwinter – “Where Memories Drowning”
C.W. Music Records
“Where Memories Drowning” é muito mais do que um simples álbum de depressive doom metal. É uma obra construída sobre dor real, memória e perda verdadeira. Os Coldwinter transformam o luto numa experiência sonora profundamente emocional, criando um disco que não procura apenas soar melancólico, mas transmitir genuinamente o peso esmagador da ausência. Ao longo do álbum sente-se uma constante descida emocional, quase como um afogamento lento nas memórias de alguém que partiu. Cada música funciona como parte de um processo de luto, onde surgem sentimentos de desespero, saudade, vazio, nostalgia e até aquela tentativa inútil de esquecer quem marcou a nossa vida para sempre. Existe uma honestidade brutal em toda a narrativa do disco, e é precisamente isso que o torna tão impactante.
Musicalmente, apostam numa atmosfera extremamente densa e melancólica, onde as melodias arrastadas e o tal peso emocional caminham lado a lado. O álbum nunca soa forçado ou teatral. Pelo contrário, tudo parece nascer naturalmente, de emoções vividas e não inventadas. A participação de Fábio de Paula, vocalista e líder dos HellLight, em “Everlasting Pain”, reforça ainda mais essa identidade emocional e acrescenta um peso adicional a um dos momentos mais intensos do disco. Mas talvez aquilo que torna “Where Memories Drowning” verdadeiramente especial seja o contexto humano que existe por trás dele. Este álbum nasce como homenagem ao pai do autor, falecido em 2017, e toda a obra carrega essa ligação fortíssima. A sensação de perda percorre cada segundo do disco, como se as músicas funcionassem quase como cartas escritas para alguém que já não está fisicamente presente, mas continua vivo nas lembranças.
A capa do álbum complementa perfeitamente toda esta narrativa. A árvore nua no meio da névoa, a campa marcada pelos anos 1948-2017 e as figuras espectrais criam uma imagem carregada de simbolismo. Tudo remete para memória, saudade e permanência espiritual. A árvore representa raízes que permanecem vivas mesmo após a morte, enquanto as sombras parecem vigiar silenciosamente aquilo que o tempo nunca conseguirá apagar. “Where Memories Drowning” é um álbum pesado emocionalmente em todos os sentidos. Não é música feita apenas para entreter, é música feita para sentir. Um tributo sincero, doloroso e profundamente humano à memória de um pai, transformando sofrimento, amor e saudade numa experiência musical intensa e genuína.
