WOM Report – SonicBlast Fest 2026 – Dia 1 @ Praia da Duna dos Caldeirões, Vila Praia de Âncora – 06.08.26
Um regresso muito antecipado para mim desde a edição de 2023, devido a choques com outros festivais, música, praia, sínodos. Este ano havia competição, o NeoPop celebrava a 20.ª edição em Viana a 20 minutos, e o Vagos sobrepunha as mesmas datas, com 5 dias. Ainda assim o SonicBlast com uma lotação de 6000 pessoas esgotou esta 14.ª edição, começando a acolher no dia 5 à noite, para a habitual warm-up party. A localização é das melhores coisas do festival, uma floresta a cinco minutos do recinto, da praia, da vila e do Intermarché. Cheguei por volta das 2 na quinta-feira e o campismo já estava bem preenchido. Com a mata cortada e limpa, é um alívio acampar ao fresco e sombra em vez de um descampado. Prestem atenção ao montar a tenda, a mesma sombra de manhã não vai estar no mesmo sítio, e aquece rápido. Convém procurar um sítio plano, visto que nem as estacas da tenda trouxe, quando voltei do Wacken quase fiquei sem elas na segurança do aeroporto de Hamburgo, também não consegui enfiar na mochila o saco-cama, uma mantinha chega disse eu.
O recinto engana, parece pequeno, mas tem capacidade para a lotação, com grande área para sentar e uma dúzia de opções de comida, carne, peixe, vegetariano, praticamente sem filas, é uma daquelas coisas que outros festivais ainda têm de aprender. Podia melhorar a quantidade de WC. Quanto aos preços, achei-os caros mas não extorsivos, a comparação altura foi com o Wacken, que era só um euro ou dois acima em comidas e bebidas, para quem não precisar de gourmet, os rissóis e pataniscas são deliciosos e baratos. Este festival sempre foi uma anomalia demográfica, cerca de 60% do público é estrangeiro, desde o outro lado da fronteira da Galiza, até Estados Unidos e America do Sul, o Sonicblast é conquistador. Em fotografia, a organização apertou o pit, no ano passado eram cinquenta fotógrafos (50!!!), este ano 35. Honestamente uma boa decisão, seria demasiada gente para a vala, apesar de muitos não fazerem cobertura completa. Na cabine de imprensa éramos poucos, um paraíso com ar condicionado. Tive uma excelente surpresa em cruzar-me com o Tim Bugnee (@tinnitus_photo), de Boston, Massachusetts, presença assídua nos Desertfest e um gosto partilhar o pit com ele. Havia também outro enredo meio secretivo, estava a ser filmado um documentário sobre o festival, com equipa própria e zona reservada. Filmaram muitas bandas a partir do palco, podiam esperar depois das 3 músicas para não saírem nas fotos.

Apesar de uma quinta-feira, os Free Ride de Madrid abriram no palco secundário que estava cheio, e às 4 os Elephant Tree já tinham uma boa plateia com mais a chegar. Trouxeram um convidado para substituir o Jack (guitarrista), que estava em mau estado devido à epilepsia, e se apresentou como tendo a guitarra e o corte de cabelo do Jack (nenhum!). Encaixou perfeitamente, mas não apanhei o nome. Seguiram-se os Clamm, trio australiano de punk mas com alguma classe, partiu uma corda imediatamente mas mas fez uma rapida troca de guitarra sem grande drama e deu seguimento.

O que eu não estava mesmo à espera era dos Trash Talk, de Sacramento Califórnia, que adicionaram o hardcore ao punk. Ficavam melhor no Barroselas do que num entardecer soalheiro à beira-mar, mas ninguém se queixou. O vocalista saltou para o meio da plateia a instigar um circle pit enorme com crowd surfing pelo meio, inclusive o guitarrista. De repente, parou o concerto e ordenou a plateia inteira sentar-se no chão, apontando o dedo a quem não o fizesse: “sit down or fuck off, I won’t keep going until everyone is on the ground.”. Ao sinal dele, rebentou novamente um mosh desproporcional e tive de fugir com as camaras, ele próprio levou uma cabeçada, “MAN DOWN”, gritou, trinta segundos de pausa e continuou. Foi realmente épico, sem exagero.

Os Midnight mantiveram a mesma energia, mais diretos ao assunto e com menos interação, mas igualmente correndo e saltando pelo palco entre dedos do meio para a frente. A última vez que os vi, no New Cross Inn em Londres, levei uma cabeçada tal que fiquei a ver estrelas e sangrar do nariz. Diria que são um clássico.

Para acalmar o ambiente brevemente o Frankie e os Witch Fingers adicionaram um pouco de psicadélico, com calmo não quero dizer parado, não faltou nem energa nem presença, anda a circular uma foto de um deles a trepar pela estrutura do palco acima.

Com os Deafheaven caiu a noite, e subiu o volume, tal ensurdecedor que o nome da banda só pode ser mesmo inspirado na vontade de deixar a plateia deaf, na cabine da press comentamos “até a barraca abana”. De visuais tinha pouco, foi um concerto escuro, mas com muita qualidade e emocionante, vi pessoas a chorar. Vinham de tocar no Wacken na semana anterior e lamento ter trocado o set deles por outra banda.

A plateia foi encolhendo com a hora, os Chat Pile introduziram algum sludge, apesar de me soar a punk, com alguns comentários político-sociais, perguntar porque é que nem todos tem uma casa para morar. Com mais uma reviravolta musical, Snapped Ankles de Londres foram a banda mais estranha e imaginativa do dia, e digo como elogio, até me deu interesse de procurar uma entrevista. Fatos tipo ghillie com uma lanterna na cabeça, dizem vir da floresta descendente de árvores e tocar instrumentos feitos de pedaços alheios de madeira, “woodnoise” foi a auto descrição do ultimo projeto, absolutamente imersivo, mas também quebrou a terceira parede saltando para a plateia de teclado na mão.

Para Bongzilla e Mephistofeles apenas ficaram os verdadeiros fãs de um bom doom/sludge pesado. Sentia-se no ar o cheirinho da erva em perfeita correlação com a mensagem da banda, que ultimamente se apresenta como “we are Weedeater without Weedeater”, com quem tem uma ligação de longa data. Era também a estreia deles em Portugal, e tocaram também no warm-up. Tinha visto ambos recentemente no Desertfest e Stoomsesh, e já estou ansioso pelo próximo concerto.

Para quem não quer ficar até ao fim, podem-se retirar ao campismo para uma curta noite de sono, pois ouve-se perfeitamente, mesmo entre as colunas, gargalhadas e as portas dos sanitários a bater constantemente. Recomendo dormir de tampões ou com phones ANC.
Texto e fotos por Luís Balsa (Moshografia)
Agradecimentos Sonicblast & Garboyl Lives
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