Filhos do Metal – Prog A Quanto Obrigas
Por Duarte Dionísio
(Filhos do Metal – À descoberta do Heavy Metal em Portugal)
Blog // Facebook
No final da década de 70 e princípio dos anos 80 houve diversos projetos musicais em Portugal de grande interesse no que aos sons progressivos e psicadélicos diz respeito. Foram importantes neste género nomes como: Tantra, Petrus Castrus, Objetivo, Quarteto 1111, Arte & Ofício, o próprio José Cid com o seu álbum “10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte”, este um marco e internacionalmente reconhecido como um dos 100 mais importantes, segundo algumas fontes. No Heavy Metal também tivemos e temos alguns nomes interessantes, mas será que é um subgénero com muitos admiradores? Quer sejam músicos, compositores e fãs? É difícil de ter a certeza! Na cena internacional há nomes que atingiram grande sucesso, basta referir alguns exemplos como os Tool, Dream Theater, Mastodon, Opeth, entre outros.
Em Portugal, as raízes do metal progressivo remontam também aos anos 80 e 90, ainda que de forma mais tímida e sempre à margem do mainstream. Os Shrine, de Luís Simões, gravaram em 1993 o “Perspective”, um dos discos incontornáveis do thrash nacional, com laivos progressivos que hoje, três décadas depois, continuam a ser reconhecidos, tanto que a Larvae Records o reeditou em vinil já em 2024. Na mesma linha temporal, os Thormenthor, de Almada, apresentaram em 1994 o “Abstract Divinity”, um álbum de Death Metal progressivo e psicadélico frequentemente comparado aos Cynic, mas com Voivod nas entrelinhas, que continua a ser citado como uma das obras mais avançadas do metal português dessa década. Depois há os Forgotten Suns, ativos desde 1991, em Lisboa, e que são talvez o nome mais próximo de uma “instituição” do prog metal nacional. Com uma sonoridade que bebe fortemente dos Dream Theater, foram evoluindo ao longo de discos como “Innergy” e “When Worlds Collide”, este último de 2015, e há quem diga, sem exagero, que o futuro do metal progressivo português passa por eles.
A cena mostra sinais de vitalidade renovada, mesmo que ainda dispersa. Os Destroyers Of All, de Coimbra, formados em 2011, combinam thrash, death e progressivo com uma técnica acima da média, já tocaram no Vagos Metal Fest, no SWR Barroselas e até no Resurrection Fest espanhol, e editaram em 2025 o seu terceiro álbum, “In Darkness We Remain”. Os Soul Of Anubis, de Santa Maria da Feira, seguem por um caminho mais pesado e abrasivo, entre o doom, o sludge e o thrash progressivo, com discos como “Alone” e “The Last Journey” a granjearem elogios lá fora. Há também os Legacy Of Cynthia e os Oblique Rain, dois nomes que ilustram bem a diversidade dentro do próprio subgénero: os primeiros com um metal progressivo mais alternativo, os segundos com uma sonoridade mais sombria e emocional, com o “Isohyet” de 2007 a ser apontado como um dos discos mais surpreendentes vindos de Portugal, contando ainda com músicos ligados a bandas como os Anathema britânicos (Daniel Cardoso) ou os Heavenwood (Marcelo Aires).
Os Apotheus, de Paços de Ferreira, são porventura o exemplo mais bem-sucedido dos últimos anos: metal progressivo melódico, discos conceptuais inspirados em Isaac Asimov, como o “Ergo Atlas” de 2023, comparações a Katatonia, Soen e Gojira, e um convite para tocar no ProgPower Europe em 2024, um dos festivais de referência do género no continente. Prova de que a qualidade lá fora é reconhecida, mesmo quando a visibilidade cá dentro é escassa. Já os Phase Transition, do Porto, trazem talvez a proposta mais original: um trio sem baixista nem teclista, liderado pelo violino e voz de Sofia Beco, ao lado de Luís Dias e Fernando Maia, que nasceu a tocar covers dos Dream Theater na faculdade e que hoje edita discos elogiados pela Prog Magazine e pela MetalSucks, como o “In Search of Being”, de 2025. Os Allamedah, de Lisboa, arriscam ainda mais ao fundir metal moderno com fado e rap, uma aposta arriscada, mas que tem sido bem recebida internacionalmente, sobretudo desde o EP “Alma”, de 2023. E não posso deixar de referir os 11th Dimension, também de Lisboa, que entre 2013 e 2023 fizeram um progressivo mais denso, quase post-metal, com o álbum “Paramnesia” a ser o seu ponto alto, antes de a banda se separar, um lembrete de como estes projetos vivem sempre num equilíbrio frágil.
Quanto à qualidade, não tenho grandes dúvidas: os nomes que aqui deixo, e ainda outros como os Hourswill, mostram um nível técnico e criativo perfeitamente equiparável ao que se faz lá fora. A diversidade também é real, do progressivo mais melódico ao mais extremo, passando por fusões improváveis com fado ou música clássica. E, ao contrário do que por vezes se pensa, o género não anda propriamente órfão de palco em Portugal. Gouveia tem, desde 2003, o Art Rock, o único festival português inteiramente dedicado ao rock progressivo, hoje já com 19 edições e reconhecido internacionalmente, com nomes históricos e a nova geração a partilharem cartaz todos os anos, ao ponto de os concertos esgotarem com regularidade. Em Tomar, o Comendatio Music Fest foca-se na música progressiva mais moderna, já recebeu nomes como Vola, Ihsahn ou os noruegueses AVKRVST lado a lado com os nossos Phase Transition e Yokovich. E mais recentemente, em outubro de 2025, nasceu o Porto Prog Night, organizado por Fernando Maia (baterista dos próprios Phase Transition), um festival pensado precisamente para preencher o tal vazio de oferta regular, e que na estreia juntou Phase Transition, Living Tales, Needle e Rei Bruxo, curiosamente todos com vozes femininas à frente. É um sinal animador: há organização, há vontade e há já alguma tradição a sustentar o género, mesmo que a escala continue a ser, precisamente, a de um nicho.
Porque o problema, esse sim, mantém-se: a assistência regular. O metal progressivo é um nicho dentro de um nicho, exige atenção e tempo do ouvinte, e isso não combina bem com salas pequenas e públicos cada vez mais dispersos por tantas outras propostas. Fora dos festivais dedicados, a maioria destas bandas continua a depender de concertos avulsos e do reconhecimento que, por vezes, só chega quando são convidadas para palcos lá fora, como aconteceu aos Apotheus no ProgPower Europe. Fica a pergunta, mais uma vez sem resposta certa: teremos fãs e músicos suficientes para sustentar este género em Portugal de forma consistente, ou continuaremos com um punhado de nomes de grande qualidade, alguns festivais de nicho a resistir com mérito, mas sempre a tocar para poucos?
Support World Of Metal
Become a Patron!
