Filhos do Metal – Expetativas
Por Duarte Dionísio
(Filhos do Metal – À descoberta do Heavy Metal em Portugal)
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Os Disaffected e os Inhuman lançaram no mês de novembro os seus mais recentes álbuns. Ambos representam o quarto álbum de originais das bandas, que se podem considerar veteranas do Metal em Portugal. Apesar de ambas terem mais de 30 anos de carreira, as discografias não são muito vastas. Os lançamentos têm sido esporádicos, com bastantes anos de intervalo. Com todas as diferenças de género específico, há diversos pontos de contato. Desde logo a extensão da carreira e discografia, que coincidem em muitos aspetos. Mas há um outro detalhe que também aproxima as bandas. Ambas tiveram uma experiência de edição e/ou distribuição internacional de um dos seus álbuns. Os Inhuman, em 1998, viram o álbum “Foreshadow” ter o selo da Dream Catcher/Music for Nations, editora inglesa. E os Disaffected tiveram o selo da Massacre Records, editora alemã, no seu álbum “Rebirth” de 2012. Houve um reconhecimento, por parte dos responsáveis destas editoras, do potencial e qualidade artística de ambas as bandas. Abriram-se as portas de outros mercados para exportar o Heavy Metal nacional praticado por projetos que foram crescendo e mostrando as suas capacidades. No entanto, os contratos não duraram muito e ficaram-se por uma edição para cada lado. Para além disso, parece não ter havido uma continuidade, uma aposta mais séria na promoção e quiçá, na carreira das bandas. O que falhou? Esta é a pergunta que pode ter muitas respostas.
Não está em causa a qualidade, a criatividade e o talento dos músicos e dos projetos em si. Também é óbvio que nem todas as bandas e artistas têm sucesso e carreiras longas. São milhões e apenas um punhado consegue atingir o almejado reconhecimento e consequente sucesso. Depois, há diversos níveis de sucesso. Uns tornam-se megaestrelas do mundo da música, com milhões de vendas e digressões de estádios a esgotar. Outros conseguem um estatuto invejável com milhares de fãs e uma carreira consistente. Há também bandas de menor dimensão, mas ainda assim com uma carreira sólida. No entanto, muitos tentam e ficam pelo caminho. O caso dos Disaffected e dos Inhuman não se encaixa em nenhum dos tipos descritos. Mantêm uma carreira sóbria e algo inconsistente. Quais as motivações para continuar? Quais as causas da falta de consistência? A vontade e o gosto por fazer música e tocar é a resposta mais coerente para manter uma banda ativa, ainda que com interrupções. Por certo que o Heavy Metal e os seus subgéneros, sendo agregador, é motivação mais que suficiente para continuar a fazer parte da comunidade. Estas bandas contribuíram para o desenvolvimento do género em Portugal, por isso, deixar morrer projetos de interesse não é sensato, mesmo que inseridas num contexto underground. Desta forma, continuam a produzir música de qualidade e a lançar álbuns esporadicamente. Mesmo que apenas por gosto e com um certo cariz de “passatempo”. O income financeiro não é, certamente, aliciante. Estas bandas não são profissionais. É muito positivo e compensador ver as composições destes músicos lançadas para o público, para que possamos usufruir de bom Metal nacional.
Mas a pergunta mantém-se – o que falhou para não atingirem outro estatuto e reconhecimento fora de portas, apesar das tentativas? Há décadas que se discute este assunto. As razões são simples, embora nem sempre consensuais. Eu diria que a primeira, e talvez a mais dura e polémica, é a falta de disponibilidade mental e física para abandonar um certo conforto e partir à aventura, apostando tudo numa vida incerta. O início de uma carreira de músico profissional é muito difícil e requer um empenho extraordinário. Há imensa literatura e documentos que relatam esse facto, com exemplos de muitas bandas de sucesso. Contatos certos no momento certo. Todos os negócios (e a música não é exceção) florescem com os contatos certos. É necessário estar perto de alguém com poder de decisão, que possa fazer a diferença. Um produtor, um agente, um manager, um advogado ou um dono de editora são aqueles que podem ter influência para posicionar uma banda no sítio e momento certos. O género mais na moda. Como em todos os géneros musicais, também no Heavy Metal há modas. Isso faz com as editoras editem o que for mais procurado, logo mais rentável. Quem se lembra do boom do Nu Metal ou o Grunge no início dos anos 90! A qualidade, a originalidade, o empenho, a dedicação, a loucura, a aposta sem barreiras e os contatos certos são a receita para o sucesso. Enquanto isso fica reservado para alguns, vamos saboreado “Gloriae” dos Inhuman e “Spiritual Humanized Technology” dos Disaffected.
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