Filhos do Metal – Inteligência
Por Duarte Dionísio
(Filhos do Metal – À descoberta do Heavy Metal em Portugal)
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Começar um novo ano com preocupações não é lá muito prometedor! No entanto, pode ser uma forma de incentivar à descoberta de soluções para problemas. Decidi falar de um assunto já muito debatido e que não é restrito ao Heavy Metal, mas sim muito abrangente no universo da música. Ainda assim, penso ser pertinente e… preocupante. Os compositores, músicos, artistas sempre tiveram razões de queixa sobre a forma como eram e são remunerados. As editoras e outros intervenientes que investem e exploram o trabalho dos músicos, nem sempre o fazem da forma mais justa. São muitas as histórias de artistas de renome internacional com diversos episódios de exploração descarada por parte das editoras. Investimentos de milhões que tinham de ser pagos pelas receitas das vendas de discos, antes desses artistas receberem um cêntimo. Justo ou não, a verdade é que o mercado da música está repleto de polémicas. Com a evolução e as constantes inovações tecnológicas, cada vez mais rápidas e extraordinárias, parece que se está a perder totalmente o controlo da situação. Ouvi alguém afirmar recentemente que a legislação não consegue acompanhar a evolução. É pura verdade. Falo da Inteligência Artificial e do que esta está a fazer no âmbito da música. Mas já lá vamos.
O trabalho dos músicos (vou utilizar este termo para facilitar) é vendido há quase 150 anos em formato físico, desde que em 1877, Thomas Edison inventou o fonógrafo, que gravava som em cilindros. Muito depois surgiu o formato puramente digital para comercializar a música, isso aconteceu há quase 30 anos. Mais recente, mas ainda assim já com idade para ter juízo, surgiu o serviço de streaming. Rhapsody foi lançado em 3 de dezembro de 2001 e é amplamente reconhecido como o primeiro serviço de streaming de música com assinatura paga. Embora já uns anos antes tenha existido uma plataforma que permitia a colocação de músicas online, sem download, para que o público pudesse aceder, chamava-se Internet Underground Music Archive (IUMA) – criada em 1993, foi um dos primeiros serviços de streaming direto ao público. Atualmente existem um sem número de plataformas de streaming. E agora? A Inteligência Artificial (IA) permite criar músicas sem as interpretar, sem as compor! É uma mudança de paradigma.
Os formatos físicos contemporâneos, refiro-me às cassetes, discos de vinil e CD, embora este último já seja o início da era digital, foram e são amplamente utilizados para distribuir e vender música. A venda destes formatos alimenta uma indústria com diversos intervenientes. Esta indústria sofreu bastante, e quase definhou, com o aparecimento dos formatos digitais, nomeadamente o MP3 e o download gratuito, muitas vezes pirata. As plataformas de streaming trouxeram a facilidade de acesso gratuito e/ou pago, a milhões e milhões de músicas. A IA está a gerar uma imensidão de músicas que inundam as plataformas de streaming e o mundo das redes sociais. Este é um processo sem travão e que ainda carece de legislação adequada. Como ficam os músicos no meio desta incontornável realidade? Se o advento digital trouxe muitas contrariedades (lembram-se do processo movido pelos Metallica contra a Napster?), a IA pode ser o próximo passo para uma discórdia global, ou talvez não. Vejamos então! Os músicos recebem royalties pelas vendas de CD, cassetes e discos de vinil, pagos pelas editoras que lançam os discos. Com o sucesso dos formatos digitais junto dos consumidores, houve um decréscimo acentuado nas vendas, logo uma redução nas receitas. O download sem regras de músicas em formato MP3, resultou num “roubo” aos músicos, que viram as suas músicas utilizadas sem qualquer pagamento. Depois as plataformas de streaming apareceram e prometeram divulgação massiva das músicas, mas com pagamentos ridículos aos músicos. Houve inclusive alguns dos mais conceituados que se recusaram a colocar as músicas no Spotify, como foi o caso de Neil Young. Agora decidiu regressar. Ou seja, não há como contornar esta realidade. Mas a IA é outra história. Já não é necessário saber compor ou escrever, basta escrever um prompt com as indicações do que se pretende e, voilá, em segundos estão músicas feitas, que já dificilmente se distinguem das que são organicamente produzidas. Estamos perante algo de assustador e belo ao mesmo tempo. Já não está em causa como os músicos são pagos, mas sim se os músicos ainda são necessários. Pode parecer muito radical, mas a médio prazo podemos vir a assistir a uma viragem neste mercado. E depois há os direitos de autor, outra fonte de receita para os músicos, ou talvez aquela que é mais genuína. Há ainda muitas dúvidas sobre este assunto. Como remunerar e quem remunerar. Afinal quem são os verdadeiros autores? Há pouco tempo alguém colocou um comentário no Facebook sobre um vídeo de Scordalus da música “Santa Satana”, perguntando se conheciam a banda. Pois acontece que se trata de um Artista que “criou” com IA o vídeo e eventualmente a própria música. Não posso afirmar com toda a certeza, mas este é um entre imensos casos, cuja realidade se confunde com a ficção. Mas será que é ficção? Não! É bem real e veio para ficar.
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