Filhos do Metal – Pagar Para Tocar
Por Duarte Dionísio
(Filhos do Metal – À descoberta do Heavy Metal em Portugal)
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Num recente artigo publicado na Metal Hammer, a banda inglesa Witch Fever, apresentava queixas sobre a situação financeira que vivem no momento. Mesmo sendo uma das mais badaladas promessas do Rock atual e depois de uma tour de dois meses, como suporte dos Volbeat, que os levou a tocar por diversas arenas e estádios, estão falidos. Novidade? Não! Esta é uma situação comum e recorrente, com a agravante do estado atual da indústria musical. Se por um lado há bandas e músicos a lucrar imenso, outros há que não têm como sobreviver do seu trabalho como músicos e compositores. É necessário estar bem estabelecido no mercado para conseguir ganhar dinheiro a sério. As bandas emergentes têm muitas dificuldades. E no Reino Unido a situação parece ser ainda mais grave devido ao Brexit. Os custos para montar uma tour são elevadíssimos e até incomportáveis. Acrescem as taxas e um sem número de obrigações financeiras que tornam todo o processam inviável. Há casos concretos de bandas que tiveram de cancelar e abandonar digressões por se tornar insustentável suportar todos os custos. Aconteceu no passado recente com os Anthrax e com os The Agonist, por exemplo.
Imaginem programar uma digressão e reunir todos os recursos necessários. Imaginem os custos que isso acarreta. Em jeito de resumo: transporte, seja ele um tour bus (para os mais afortunados) ou uma mera carrinha, ou até uma caravana, já para não falar de eventuais voos; combustível; portagens; motorista, ou um dos elementos da banda assume essa função; pagar técnicos e roadies, isto só para quem pode suportar; refeições diárias para toda a comitiva; lavandaria; cordas para guitarras, peles bateria e baquetas; eventuais peças de cenário; vistos de entrada em certos países; taxas que possam ser cobradas sobre receitas; comissões a empresários; etc. Estou a referir apenas uma banda de pequena dimensão, porque uma grande banda tem muito mais custos de produção inerentes a espetáculos de maior envergadura. Para além disso, uma banda que esteja à procura de reconhecimento tem de pagar para conseguir embarcar numa tour como suporte de um artista já conceituado. A conclusão é simples, as bandas pagam para existir e tocar. É um investimento numa carreira, que se espera próspera, sem a certeza de que o sucesso surja. Por vezes as editoras suportam algumas das despesas, apostando claramente na banda com a qual assinaram contrato. No entanto, esse cenário está a desvanecer-se.
Em Portugal o cenário era diferente. As bandas limitavam-se a tocar em território nacional e esperar conseguir meia dúzia de concertos que fossem minimamente lucrativos para pagar as despesas. Dessa forma conseguiam manter a existência da banda sem grandes ambições de sucesso internacional, mas contentes por fazerem e editarem alguma música. Nos últimos tempos, a realidade mudou. Com a quantidade de concertos de bandas internacionais a acontecer em Portugal e o cada vez mais frequente concretizar do sonho, de assinar por uma editora estrangeira, as bandas portuguesas estão a deparar-se com outros desafios. As mais felizardas já conseguem embarcar em digressões por alguns países e continentes com relativo sucesso, como está a acontecer com os Gaerea, que a cada disco crescem. As que ainda só por cá vão editando discos e tocando em clubes e festivais, são confrontadas com a necessidade de gastar dinheiro para tocar em situações de maior exposição, pelo menos as que aceitam. Antes tocavam pela bifana e pela cerveja, agora há outra forma, mais empresarial e menos “caseira”. Os promotores cobram espaço de atuação nos concertos de bandas internacionais ou em festivais. São situações pontuais, cujo retorno é limitado. A receita que as bandas conseguem com a venda de discos e merchandising, não é suficiente para dar lucros, embora nunca se tenha vendido tanto merchandising como atualmente. É o mercado a funcionar e a ajustar-se. São as bandas internacionais a tentar ter receitas para tornar as digressões mais lucrativas. Mas os músicos da grande maioria das bandas nacionais não conseguem deixar o seu emprego para se dedicarem à música, senão estariam falidos, mesmo que o talento mereça melhor remuneração.
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