WOM Entrevista – A Constant Storm

A Constant Storm está de volta para o seu segundo álbum. “Lava Empire” é um trabalho ambicioso e um dos grandes destaques da cena nacional nesta primeira metade de 2020. Daniel Laureano (também guitarrista dos Moonshade) é o músico por trás deste álbum que tem tanto um conceito rico como também música que vai para além das barreiras rigorosas do death metal melódico. Fomos falar com o Daniel e tivemos uma longa e esclarecedora conversa que poderão conferir abaixo.

Olá Daniel e bem vindo ao nossso World Of Metal. Começo por perguntar sobre o parto difícil que foi Lava Empire começando pelo início mesmo. Após “Storm Alive” tinhas ideia do que querias fazer, da linha que querias seguir?

Antes de mais, queria agradecer o convite. É sempre um prazer poder conversar um pouco com a WOM, uma das minhas revistas favoritas.

Quanto à questão, o próprio conceito base do projecto A Constant Storm sempre foi procurar inovar a cada momento, criar coisas novas que fossem o mais desafiantes possível. Nesse sentido, suponho que se pode dizer que a mudança já estava traçada por desígnio, como de resto será sempre. Mais concretamente, no entanto, é verdade que sempre tive o desejo de fazer um disco que tivesse um som um pouco mais quente, a recuperar aquela atmosfera própria de bandas orientais, como os The Tea Party, Irfan, ou Orphaned Land, por exemplo. Claro que isto acabou por se tornar apenas uma das muitas componentes do álbum, mas é uma das mais importantes.

 Quando é que as coisas começaram a tornar-se mais claras na direcção a seguir?

Os primeiros esboços daquilo que viria a tornar-se o Lava Empire foram feitos nos inícios de 2017, creio que algures durante o mês de Fevereiro. Apesar disso, a verdadeira direção do disco apenas começou a tomar forma mais de um ano depois, numa altura em que já tinha existiam 6 ou 7 esqueletos de temas.

Chegado a este ponto e quando comecei a aperceber-me que as ideias estavam a fazer sentido e dialogavam bem umas com as outras, foi só questão de limar as arestas e começar a amarrar tudo.

Sendo o trabalho mais diverso (e arrojado) em relação a estreia, tiveste alguma vez dúvida desse caminho escolhido? Algum tema que te deixasse na dúvida se seria o correto para o projecto?

Não posso dizer que alguma vez tenha duvidado do caminho que estava a seguir com o “Lava Empire”, sobretudo porque fazia todo o sentido naquela altura – tanto ao nível dos conceitos como da própria sonoridade que queria explorar, com a mistura entre sons étnicos e modernos que existe no disco.

A verdade é que o meu processo criativo se rege constantemente pelo cumprimento de dois critérios, na prática duas perguntas que faço a mim mesmo constantemente, enquanto estou a criar:

– “Estou a gostar daquilo que estou a fazer?” é a primeira e mais importante, uma vez que me recuso a fazer música por achar que vai ser mais ou menos popular ou que as pessoas vão gostar mais ou menos, por exemplo;

– “Aquilo que estou a fazer está a fazer-me evoluir? Está a inovar?” é a segunda, que tem quase o mesmo grau de importância da primeira. Não me interessa repetir o mesmo disco 4 ou 5 vezes, uma vez que vejo isso como conformismo e ser conformista sempre foi algo que eu me senti bastante confortável a rejeitar.

Liricamente “Lava Empire” também é bastante rico e bastante pensado embora o termo conceptual talvez não seja no sentido tradicional mas sim numa sucessão de ideias interligadas. Esta é uma viagem a ter mais internamente de cada um do que propriamente um caminho estático e pré-definido. Concordas com esta afirmação? Qual o objectivo conceptual de Lava Empire?

De facto, a viagem que me propus a criar ao longo das faixas que compõem o Lava Empire obedece mais a uma sucessão de ideias do que propriamente a uma história no sentido tradicional da palavra. Não se trata de um conto com um encadeamento progressivo de ações, digamos, senão uma jornada exploratória, com muitos altos e baixos – momentos diurnos e nocturnos, momentos eufóricos e depressivos, fortes e dóceis.

      Essa noção de “jornada” é precisamente o mote da narrativa, assente no diálogo entre três aspectos:

      – O primeiro aspecto trata da crise pessoal, a reflexão acerca das falhas de personalidade que fustigam cada um de nós. Isto nasceu dos períodos de bloqueio criativo com os quais me debati durante os últimos anos, que me levaram a períodos longos de autocrítica e pensamento virado para o interior;

      – O segundo trata da noção de civilização antiga e/ou império perdido que tentei passar, tanto através do som quente do disco como de todo o seu lado visual e sugestivo: a viagem pelo interior da mente torna-se paralela com a exploração dessa mesma civilização (um império fictício que tem em si características reminiscentes dos Egípcios, Incas ou Maias, por exemplo, mas também de mitos, como a cidade perdida de Atlântida, ou o espírito senciente das pirâmides). Analisando isto, torna-se evidente que a civilização perdida não é mais do que o próprio império interior, o império da mente;

– Finalmente, o terceiro aspecto prende-se com a ligação à Divina Comédia de Dante Alighieri, obra na qual o lendário escritor italiano também parte numa extensa jornada – no seu caso através dos universos sobrenaturais além-morte –, onde passa em revista toda a sua vida, todos os seus defeitos e todas as suas virtudes.

Convém acrescentar ainda que o disco também tem no conceito de “Pirâmide” uma peça nuclear, particularmente em termos estruturais (basta ver a abundância do número 3 – triângulo – que descobrimos espalhada por todo o disco, nas letras, imagens e mesmo estruturas musicais).

 Até que ponto o conceito lírico ajudou a parte musical? Que pesou mais na tua visão para o produto final?

Talvez seja relativamente pouco comum, mas uma das características do meu processo criativo é que, geralmente, os conceitos e as letras precedem a música. É muito mais comum pensar num conceito, num título ou até num conjunto de frases e depois compor música que me remeta para esses elementos, do que fazer com que eles encaixem em música que já tivesse sido composta de antemão.

Nesse sentido, o conceito do Lava Empire é absolutamente indissociável da música. Para exemplificar, isto ganha particular expressão nas últimas duas canções do álbum, a “Pinnnboard” e a “Glory to the Sun”, que compõem o clímax, a chave emocional de todo o disco.

Concretizando, a “Pinnnboard” contém o momento emocional mais baixo, o ponto da narrativa em que o viajante se crucifica e humilha a si próprio por todos os seus erros e falhas, falhas essas que o mesmo tem extrema dificuldade em perdoar (o facto da música ter sido baseada numa ‘nursery rhyme’ não é acaso). Todo este autoflagelo acaba, porém, por servir de purificação, sendo através deste momento negro que o viajante acaba por descobrir a luz da aceitação.

Luz essa que irradia na “Glory to the Sun”, a faixa mais eufórica de todo o disco. Nela, o viajante aprende, por fim, que todas as falhas e traços de personalidade difíceis são precisamente aquilo que o torna humano e que o acompanharão durante o resto da sua vida. O viajante nunca deixará de tentar atingir a perfeição e corrigir ao máximo possível as suas falhas, mas ao mesmo tempo apercebe-se que nunca será perfeito, porque a perfeição não está ao alcance do ser humano. Somos perfeitos na nossa imperfeição e, logo que o nosso coração esteja sempre focado na tentativa de melhorar o máximo possível, seremos sempre gloriosos.

Do ideal para o concreto, como foi o processo de gravação? Não houve qualquer dúvida em relação à escolha de Pedro Quelhas, teu companheiro de banda nos Moonshade, certo?

A escolha do Pedro como produtor foi tão lógica quanto natural: a grande relação de amizade que temos facilitou tudo, mas desengane-se quem pense que optei por trabalhar com ele apenas por causa do lado pessoal: com efeito, o Pedro tem um talento inato para a produção musical, algo no qual ele só tem melhorado nos últimos anos, particularmente desde o trabalho que fez no “Sun Dethroned” (isto apesar de não ter sido o único produtor nesse disco).

No final de contas, a minha escolha veio a provar-se mais do que correta, sem qualquer surpresa para mim: a produção do “Lava Empire” satisfez-me totalmente, por via do equilíbrio entre boa técnica e crueza emocional, algo que sempre vi como fulcral para que as músicas tivessem a representação adequada. Nunca quis que o disco soasse demasiado polido e estéril, sacrificando assim a emoção necessária, mas simultaneamente também não estávamos propriamente a fazer uma peça de raw black metal… É sempre um equilíbrio delicado mas o Pedro compreendeu isto imediatamente e conseguiu-o com distinção, como de resto sempre soube que o faria.

A participação mais de uma vez Ricardo Pereira na voz já era esperada, menos esperada foi a de Inês Rento e a tua própria na voz. Começando pela Inês, como surgiu a sua participação – fantástica devo acrescentar?

De um grande e talentoso amigo para outro, é inevitável falar do fantástico gutural do Ricardo como um dos grandes pilares deste disco, apesar de ter um papel um pouco mais reduzido em comparação com o “Storm Alive”, por exemplo. Tal deve-se apenas às especificidades deste disco, nomeadamente o som – comparativamente menos pesado – e a ligação com a minha própria voz que quis que boa parte dos temas tivesse, daí a decisão de me ter ‘contratado’ a mim mesmo como vocalista principal.

Relativamente à Inês, tratou-se de uma descoberta familiar: ela é minha prima, com a qual partilho uma relação muito próxima, pela situação de termos passado muito tempo juntos durante a nossa infância. Ela é aproximadamente um ano mais nova que eu, pelo que a vejo um bocado como uma irmã mais nova.

A ideia de colaborar com ela no campo musical já era antiga e nasceu do meu conhecimento dos estudos de conservatório que ela tinha (sobretudo em violino) mas também do enorme talento para a voz que sempre lhe reconheci. Quando me apercebi que havia pontos do Lava Empire onde a voz dela não só caberia bem como acrescentaria muito ao produto final, foi só questão de lhe lançar o repto e partir daí.

E em relação à tua decisão de cantar, para além dos coros, como voz principal, foi algo que já querias fazer e agora sentiste necessidade de tentar? É algo que tencionas ou ambicionas explorar ainda mais no futuro?

Utilizar a minha própria voz desta maneira sempre foi algo que quis fazer, mas a verdade é que nunca tinha sentido que teria capacidade suficiente para dar conta da tarefa de um modo satisfatório. Ainda assim, o desenvolvimento das temáticas líricas do Lava Empire foi-se tornando tão pessoal que acabei por chegar a um ponto em que ‘dar’ a maioria destas letras a um outro vocalista para as interpretar simplesmente não me fazia qualquer sentido.

Em jeito de balanço, considero que fiz um bom trabalho, uma vez que consigo ouvir o disco e não só apreciá-lo genuinamente como até achar que é claramente minha melhor obra até hoje, mas ao mesmo tempo seria bastante ilusório da minha parte achar que de repente me teria tornado num vocalista excelente, pois penso que definitivamente não é o caso – há muito a melhorar. Apesar de tudo, ter conseguido levar a tarefa adiante mostra-me que esta é uma solução real para trabalhos futuros, o que só por si já é uma vitória.

Quais as ambições para “Lava Empire” após o lançamento do álbum? Sabendo que o interesse não passa por tocar ao vivo – até porque neste momento é complicado ter uma ideia de quando os concertos voltarão – ponderas mais algum tipo de exploração audiovisual? Algo na linha do playthrough ou até mesmo um videoclip?

Pelo menos actualmente, concertos de banda completa não são algo que esteja no horizonte – tanto pela situação do COVID como pelo meu próprio desinteresse nos mesmos. Confesso que considero que a repetição de temas ao vivo é muito menos interessante do que o próprio processo criativo, bem como a concretização das ideias que me surgem na cabeça, isto apesar de reconhecer aspectos positivos dos concertos ao vivo (ou não fosse eu um assíduo frequentador dos mesmos).

Tenho, contudo, planos de lançar um videoclip a curto prazo, portanto estejam atentos aos canais oficiais do projecto – sobretudo Facebook, YouTube e Instagram, sendo que esta última tem sido a rede social onde tenho apostado mais, até ao nível de conteúdos exclusivos. Se ainda não forem seguidores, façam-no!

“Lava Empire” está cá fora e após toda a luta (interior e não só) e todos os obstáculos superados, para onde a tua criatividade está voltada agora? Em pousio, a pensar já no próximo passo de A Constant Storm ou nos Moonshade?

E sabe mesmo muito bem vê-lo finalmente cá fora, devo dizer!

 Relativamente ao futuro, e começando pelo reino dos Shade, estamos neste momento nas fases finais da composição de um novo álbum, que não sabemos quando irá sair mas que seguramente será um espelho bastante elucidativo acerca do estado actual da banda (surpresa, surpresa: vêm aí mudanças!)

Para A Constant Storm o futuro ainda é mais incerto, não só por ele mesmo ser um projecto de natureza muito mais selvagem mas também porque o facto de não ter o fardo dos concertos ao vivo também faz com que, em teoria, consiga passar mais rapidamente para o capítulo seguinte.

 Por outro lado, os meus momentos de criatividade fugaz já me mostraram que é impossível prever quanto tempo demorarei a criar o capítulo III desta história que iniciei em 2013… Mas se há uma coisa que posso garantir, para lá de qualquer margem de dúvida é que será tão selvagem quanto sempre. Podem esperar o inesperado, apenas e nada mais.

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