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Filhos do Metal – A Língua Da Tribo

Por Duarte Dionísio
(Filhos do Metal – À descoberta do Heavy Metal em Portugal)
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Porque é que tão poucas bandas portuguesas de Heavy Metal cantam na língua de Camões? Fiz-me esta pergunta há tempos, sentado a ouvir um disco qualquer de uma banda nacional cantado num inglês competente mas algo postiço, e a resposta não é simples. Há aqui um nó que mistura mercado, identidade e até fonética. A verdade é que o inglês tornou-se a língua franca do metal, e não por acaso. As consoantes mais duras, as vogais mais curtas, encaixam melhor na agressividade do género. O português, mais melódico, mais aberto nas vogais, exige outro tipo de phrasing — algo que poucas bandas dominam com naturalidade. Talvez por isso os Moonspell, apesar da fama internacional cantada quase sempre em inglês, tenham feito um dos gestos mais interessantes da nossa cena: o álbum “1755”, inteiramente cantado em português, sobre o terramoto de Lisboa. Não é um disco menor por isso — é, arrisco dizer, um dos mais identitários que produziram.

No outro extremo do espectro temos os Holocausto Canibal, fiéis ao grindcore mais cru, que nunca abandonaram a língua materna. E funciona. Funciona porque o grind, pela sua brutalidade fonética, absorve bem o português gritado, quase irreconhecível de qualquer forma. Aqui a língua deixa de ser obstáculo e passa a ser arma. Atravessando o Oceano Atlântico, os brasileiros Ratos de Porão são talvez o melhor argumento contra a tese de que cantar na língua materna fecha portas. Décadas de carreira, reconhecimento internacional no underground do crossover/hardcore, tudo isto cantado em português do Brasil sem complexos. Mostraram ao mundo que autenticidade pesa mais do que sotaque. E se quisermos outro exemplo além fronteiras, basta olhar para os alemães Rammstein. Cantam em alemão, vendem estádios em todo o mundo, e ninguém parece achar isso estranho. O argumento de que cantar na língua materna limita o alcance comercial perde força quando confrontado com este exemplo. Talvez o problema não seja a língua, mas a falta de coragem — ou de identidade forte suficiente — para a assumir.

Porque é que, então, tantas bandas portuguesas preferem o inglês? Arrisco três explicações. Primeiro, o mercado: o inglês abre a porta a um público maior, mesmo que de forma ilusória, porque a esmagadora maioria dessas bandas nunca sairá do circuito nacional de qualquer forma. Segundo, uma certa insegurança histórica, quase pós-colonial, em relação à nossa própria língua dentro de um género que nasceu anglo-saxónico. Terceiro, e talvez o mais prosaico: simplesmente soa melhor aos ouvidos de quem cresceu a ouvir Iron Maiden e Black Sabbath, e nunca questionou porquê. Não creio que cantar em português seja, por si só, garantia de qualidade ou de identidade. Há letras em português dolorosamente forçadas, rimas que ferem o ouvido. Mas também não creio que seja o obstáculo que tantos assumem. Talvez faltasse à nossa cena mais bandas dispostas a correr o risco — a escrever sobre o que nos é próprio, na língua que nos é própria, sem medo de soar “menos metal” por isso. Embora tenhamos bons exemplos de antes e de agora, que assumiram um Português, nem que por momentos. Nos primórdios, tivemos NZZN, Ferro & Fogo, Vasco da Gama, Xeque-Mate. Seguiram-se os V12, Black Cross, Samurai, Casablanca, com o album de estreia. Os Filii Nigrantium Infernalium também utilizam a lingua portuguesa. Os Bizarra Locomotiva desde sempre assim o fizeram. Mais recentemente os Rasgo apresentaram-se com um album cantado em Português. A Paula Teles avança com a sua carreira a solo a cantar em Português. Outros exemplos são: Besta, Sardonic Witchery, entre outros que não utilizando o Português a 100%, têm letras na língua materna. Fica o convite, então: da próxima vez que uma banda nova decidir cantar em português, talvez mereça um ouvido mais atento, em vez do habitual encolher de ombros. Pode ser que aí esteja, escondida, a tal autenticidade de que tanto se fala e tão pouco se pratica.


 

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