WOM Report – Pennywise, End It, Soulcrusher @ Coliseu dos Recreios, Lisboa – 30.06.26
O regresso de Pennywise antevia-se como algo épico. Não só pela importância da banda punk norte-americano, que é enorme em quem segue o género, mas sobretudo por ser uma banda muito desejada pelo público português. Uma ausência que foi quebrada pela Hell Xis Agency da melhor forma num Coliseu dos Recreios esgotado, onde a energia era tão palpável como as gotículas de suor que escorriam das paredes daquela que é uma das salas mais icónicas do país – e que não tem grande tradição dentro do punk e do hardcore.

À hora marcada, já estava um bom número de pessoas prontas para assistir à abertura, a cargo dos Soulcrusher, um projecto que nasceu de forma descomprometida e que tem agora passado para aos palcos, sendo que este foi o seu terceiro concerto. Terceiro concerto mas uma máquina bem oleada, ou não fosse este projecto composto por membros e ex-membros de bandas como For The Glory e Men Eater. A atitude descomprometida de Congas conquistou logo o público ainda que este estivesse, no geral, algo tímido. Com um repertório ainda curto, a banda compensou pela intensidade que temas como “Set Me Free” e “Keep On Pushing”. Quinze minutos com potência hardcore, que funcionou como uma apresentação fantástica para muitos que ainda não os conheciam.

Ainda no hardcore, mas do outro lado do Atlântico, vieram os End It, onde o frontman Akil Godsey avisou logo de que este seria um concerto de hardcore e não de punk rock. A intensidade das suas palavras foi superado pela actuação demolidora que debitaram no palco do Coliseu. Godsey pediu desculpa pela sua voz, nitidamente rouca e em esforço, mas não houve contenção por parte de ninguém, com temas como “Cloutbusting” a soarem demolidres. Talvez apenas o público não tenha correspondido em parte à energia que vinha do palco, que apesar de já preencher em maior número a plateia e de ter suscitado as primeiras movimentações a sério com alguns circle pits. Do álbum de estreia não faltaram argumentos para as várias sessões de mosh e circle pits que resultaram como um bom aquecimento para o que viria de seguida.

Depois de uma mudança de palco, e de uma espera agonizante após essa mudança estar terminado, quando os Pennywise subiram ao palco, logo com a melodia de “Bro Hymn” a fazer-se ouvir os níveis energéticos estava para lá de estratosféricos. E não demorou muito para se chegasse à conclusão de que estavam mesmo todos a guardar as energias todas (que não faltaram até ao final da noite) para receber da melhor forma os californianos. “Peaceful Day” deu o mote para um alinhamento que foi mais uma celebração do legado da banda do que propriamente reflexo daquilo que a banda tem feito nos últimos tempos em termos criativos. Algo que não afectou minimamente a recepção do público que foi um espectáculo à parte de assistir. De tal forma, que o elefante na sala, i.e. os vinte anos de ausência foram referidos várias vezes e numa delas Fletcher Dragge, guitarrista, referiu algo como “Porque raio não viemos cá durante vinte anos?!” Uma questão válida mas a reacção vingente era, “estão aqui agora e é o que interessa”.

Apesar da carreira de 38 anos, a energia ainda estava lá, ainda que mais intercalada por comunicação com o público, onde não faltaram as alfinetadas de comentário social como na introdução da “Fuck Autority”. Para além da energia, não faltou o amor ao punk como estilo, assim como também diversos trechos de músicas clássicas de bandas como Sex Pistols, Ramones, Dead Kennedys e claro a homenagem a NOFX e Bad Religion que depois culminou com a “Pennywise”, como um resultado de todas as influências que tinham citado anteriormente. Depois ainda da também cover da Stand By Me, cantada em uníssono pelo público, o final viria com a “Bro Hymn”, hino entoado por um coliseu inteiro em peso e com pessoas próximas à banda a subirem ao palco para cantar também aquela melodia que permanece na nossa mente por muito mais tempo.

Vinte anos que parece que perderam toda a importância perante um concerto que mostrou uma banda rendida ao seu público e também um público com energia para muito mais. Espera-se o regresso breve e fica na memória o calor, a energia, o suor e o momento de comunhão próprio daquelas noites que enchem o coração sempre que se pensa nelas. Valeu a pena a espera e que a próxima seja mais breve que a anterior.
Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos Hell Xis Agency
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