Álbum do Mês – Julho 2022

20 – Mondo Podre – “Necronomía De Subexistência”

Colectivo Bilis, minoRobscuR, Finte Platte, AAIP, I Don’t Give A Fuck, Cancer Christ Tapes, Indómita Galaxia 

Nunca um nome de banda fez tanto sentido. Quer pelo conceito lírico quer pela maneira como soam. Os nuestros hermaños Mondo Podre têm uma sonoridade bem podre e fazem um chavascal impressionante. Desde o som do baixo que até mete a guitarra na sombra até ao som da bateria que parece um conjunto de panelas e tachos bem profissionais – sim, porque soa bem! – sem esquecer obviamente a garganta desumana de Dani que berra, grita e urra como se a sua vida dependensse disso. É disto que a minha malta gosta, e é a receita infalível para termos um grande disco. Grande em qualidade porque em tamanho não chega aos 20 minutos. Ganda padrada.

8.5/10
Fernando Ferreira


19 – Rancor – “Bury The World”

Xtreem Music

Regresso dos veyteranos Rancor, banda madrilena que já tem mais de duas décadas de carreira apesar deste ser apenas o seu quarto álbum. Thraaaaaaaaaaaaaaash metal bruto e old school a fazer pensar em nomes como Nuclear Assault ou até mesmo, no que diz respeito à abordagem vocal, Municipal Waste e afins. Bons pormenores técnicos sem complicar que garante o equilíbrio perfeito para quem gosta de uma boa thrashada mas sem ser-se básico. “Bury The World” não dá um momento de descanso e é um trabalho unidimensional que sabe bem ser assim. Ou seja, não enjoa e não perde a dinâmica. Excelente trabalho.

8.5/10
Fernando Ferreira


18 – American Anymen – “Cities Changing Names”
Eclipse

Confesso que este terá sido um dos discos mais difíceis de entrar num top desde há muito tempo. Isto porque, por norma, os discos aqui presentes têm sempre pelo menos um elemento que nos fazem ficar logo rendidos. Não foi o caso de “Cities Changing Names”. Mas o que lhe faltou no imediato surgiu a longo prazo. A abordagem industrial é refrescantemente tradicional, ou seja, quando os elementos tradicionais surgiam na música pesada para acentuar a agressividade e não para tornar a coisa mais comercial. Temos aqui lembranças de Ministry (ali por alturas do “Psalm 69”) e Nine Inch Nails (“Pretty Hate Machine”) mas sem deixar de estar com os pés bem fixos no presente. Até temos vislumbres daquilo que nos lembramos Static-X e ficamos com vontade de ir conferir novamente a banda de Wayne Static. Agressivo, intenso e claustrofóbico. É assim que um disco de metal industrial deverá soar em 2022.

8.5/10
Fernando Ferreira


17 – Michael Schenker Group – “Universal”

Atomic Fire

Confesso que não é fácil acompanhar a carreira de Michael Schenker. Ele é U.F.O., ele é MSG (Michael Schenker Group), ele é MSG (McAauley Schenker Group), ele é Michael Schenker Fest. Agora o foco parece ser mesmo Michael Schenker Group mas no fundo isso não interessa muito. Basicamente o nome apenas indica as regras pela qual esse vai reger mas invariavelmente o resultado é o mesmo de sempre – hard’n’heavy de qualidade elevada. Não me entendam mal, não é que tenhamos aqui a sensação de que é apenas mais um álbum numa longa discografia (que o é), mas apenas que aquela classe à qual nos habituou está mais presente que nunca, não dando sinais de querer abrandar – basicamente desde 2018, este é o seu quarto álbum editado, o que dá boa indicação do nível presente de inspiração. “Universal” não foge ao que é esperado e isso se noutros casos poderia ser algo mau, aqui é mesmo o que se quer ouvir. O público quer, o mestre dá. De destacar a “A King Is Gone”, com Michael Kiske na voz.

8.5/10
Fernando Ferreira


16 – Extinguish The Sun – “Transformations”

Edição de Autor

Segundo álbum destes norte-americanos que se revelaram uma excelente surpresa. Uma toada dinâmica que vai desde o progressivo alteranativo até a umas proximodades com o sludge, torna este trabalho bem interessante. É a vertente mais progressiva que acaba por se tornar a mais efectiva aos nossos ouvidos, no entanto, como um todo, este é um disco surpreendentemente coeso e forte com músicas que têm ganchos e incríveis. E nesse aspecto apenas uma ou duas (“Planet Nowhere” estou a apontar o dedo para ti”) que não são particularmente interessantes porque de resto é um excelente álbum para quem gosta de música alternativa e da sua larga abrangência.

8.5/10
Fernando Ferreira


15 – Heart Attack – “Negative Sun”

Atomic Fire

A Atomic Fire Records está a reunir um bom conjunto de bandas. Os Heart Attack já nos tinham deixado boas indicações em 2017 mas agora deixam-nos completamente derreados com este terceiro álbum que conjuga os melhores elementos de vários géneros próximos do thrash metal – do groove até a alguns pormenores próprios do metalcore. “Negative Sun” é tão violento quanto se poderia esperar de uma banda de thrash metal e bem mais dinâmica do que se espera de uma proposta groove ou até metalcore, dando a devida importância e espaço aos elementos mais tradicionais – como solos de guitarra. Claro que alguns, como as linhas vocais de “Bound To This Land” são mais previsíveis do que o desejável mas ainda assim o saldo final é bem positivo, sendo este um sítio ao qual voltaremos muitas mais vezes.

8.5/10
Fernando Ferreira


14 – Motor Sister – “Get Off”

Metal Blade

Regresso de uma banda que provavelmente muitos se esqueceram mas da qual tinha alguma vontade de ouvir coisas novas. Os Motor City, para quem bão conhece, são uma super-banda que reúne Pearl Aday, Scott Ian, Jim Wilson, Joey Vera e John Tempesta que surgiu como apenas uma banda de covers dos Mother Superior (banda de Jim Wilson) e a Metal Blade gostou tanto que lhes ofereceu um contrato. No primeiro disco focaram-se nos temas dos Mother Superior mas aqui é aquele onde tocam pela primeira vez temas originais, que não andam muito longe do feeling presente no primeiro disco. Hard rock poderoso e cheio de raça onde as vozes de Pearl e Jim Wilson se complementam e trazem um som descomprometido mas também muito honesto. Fácil de apanhar, fácil de viciar e simples como toda a música deve ser.

8.5/10
Fernando Ferreira


13 – Khold – “Svartsyn”
Soulseller

Por esta não esperava, sinceramente. Os Khold regressam oito anos, quase uma década depois do seu sexto álbum. Sendo sincero e apesar de apreciar a sua música, foi banda que foi perdendo gás aos meus ouvidos, sendo que os seus posteriores álbuns nunca conseguiram ter o impacto que tiveram em mim os primeiros trabalhos como “Masterpiss Of Pain” e “Phantom”, com a sua abordagem cheia de groove que foi semi-revolucionária quando o black metal era apresentado de maneiras bem definidas. Então o que esperar desde regresso? Um regresso triunfal também a esses tempos? Essa é sempre uma armadilha à qual é preciso ter cuidado para não cair. Bandas e fãs. O que já lá vai, já lá vai e esperar (ou dizer) que se está perante um regresso às raízes é pedir para cair numa profunda desilusão porque nada poderá ser como o que foi. E se o é, é porque se trata de uma proposta medíocre e pálida em relação ao original, sem acrescentar nada. O que não é o que se tem aqui. Claro que temos aquele black metal triturador compassado que nos traz groove, mas também temos algumas (ainda que poucas) explosões mais tradicionais de black metal rápido. Mas acima dos tempos que as músicas têm, o que temos é um conjunto de temas que nos conseguem cativar sem termos a sensação que nos tentaram agradar fazendo uso da nostalgia. Este álbum Poderia ter sido lançado tanto em 2015 como em 2003 assim como soa naturalmente lançado hoje em dia. Fiel à sua identidade bem firmada e com inspiração para nos fazer apreciar sem pensar em mais nada. É o que basta.

8.5/10
Fernando Ferreira


12 – The Heretic Order – “III”

Massacre

Como o nome indica, este é o terceiro álbum dos britânicos The Heretic Order que nos chegam com um heavy metal thrashado (ou será um thrash heavy metalizado?) que soa mesmo muito bem. Dinâmica que não tem receio de meter o peso e a violência com bons pormenores técnicos e com aquele feeling bem tradicional – que se salienta a cada solo. A temática do oculto é omnipresente naquilo que a banda faz, ao ponto da sua editora os descrever como occult metal, e o resultado é um álbum sólido sem pontos fracos. Muito potente para heavy metal poderão pensar mas delicioso para quem gosta daquele gostinho thrash, “III” é um destaque do estilo para 2022.

9/10
Fernando Ferreira


11 – Cartilage – “The Deader The Better”

Creator-Destructor 

Segundo álbum por parte destes que se assumem cada vez mais como mestres do death/goregrind norte-americanos. Ao contrário do que é comum encontrar neste género, a fórmula é bastante dinâmica e tecnicamente são bem acima da média, o que resulta num álbum rico ao qual não nos fartamos facilmente. Sangue e tripas ao sol mas também excelentes solos, ritmos por vezes complexos e uma boa variedade vocal faz deste trabalho algo obrigatório para 2022 nas secções mais brutais da música extrema. Recomendado.

9/10
Fernando Ferreira


10 – Obscene – “… From Dead Horizon To Dead Horizon”

Blood Harvest

Qual será o apelo de uma banda de death metal? Deverá ser uma questão mais complicada do que aparenta. Se o público alvo for a velha guarda, corre o risco da mesma já estar cansada da mesma fórmula. Se for a nova onda do género, se calhar corre o risco de ser apenas mais uma. E depois ouvimos o segundo álbum dos Obscene e ficamos logo rendidos. E convencidos que isto quando se corre por gosto, basta fazer o que se gosta e haverá sempre alguém que vai gostar. O que neste caso deverá significar todos os que gostam de death metal tradicional. Segundo álbum de um projecto que começou cinco anos atrás mas que está longe de ser pessoal que está à procura do seu som. O seu som está encontrado desde a estreia e apesar de ser death metal sem espinhas, podemos dizer com toda a confiança que não são mais uns para juntar à lista. A voz de Kyle Shaw está entre um Donald Tardy (obituary) e um Martin van Drunen (Asphyx) chegando a ter repentes de um Tompa (At The Gates). A voz e estes riffs com uma secção rítmica demolidora faz com que este seja um dos tesouros preciosos de 2022 no que ao death metal diz respeito.

9/10
Fernando Ferreira


9 – Darkened – “The Black Winter”

Edged Circle Productions

Regresso de um super projecto com músicos divididos entre o Reino Unido, Suécia e Canadá de bandas como A Canorous Quintet, Grave, entre outros. Segundo álbum que tem um poder imenso sendo que foca-se na fórmula clássica de fazer death metal como também nos dá um gostinho moderno, principalmente na produção que só favorece. Riffs emblemáticos e épicos que têm até um carácter cinematográfico por vezes e que resultam numa proposta bastante entusiasmante de death metal isto já para não dizer viciante. Para quem não os tinha apanhado anteriormente, vai ficar completamente fascinado por este.

9/10
Fernando Ferreira


8 – Druids – “Shadow Work”

Pelagic

Já não é mês se não tivermos pelo menos uma proposta da Pelagic Records nestes tops que vamos soltando. E não se trata de favorecimento, é porque tudo o que esta editora lança normalmente está mesmo dentro daquilo que apreciamos. No caso dos Druids, até nem é uma sonoridade muito comum entre o catálogo da editora, mas esta proposta também não é a típica stoner/doom, já que também temos aqui uma atmosfera muito palpável – facilmente comprovada em temas hipnóticos como a “Ide’s Koan”. E esta faixa também é perfeita para exemplificar a dinâmica da música dos Druids, já que tem por um lado o factor hipnótico da repetição mas depois também uma capacidade de atirar uma carta fora do baralho que torna tudo muito mais interessante. Groove que nos dá balanço mas também muito peso que nos faz querer ver esta banda ao vivo – sim, porque isto ao vivo de certeza que será ainda mais acentuado o seu efeito. Uma grande banda stoner/doom e um grande álbum!

9/10
Fernando Ferreira


7 – Semblant – “Vermillion Eclipse”

Frontiers Music

Os Semblant têm estado num nível impressionante. Se por um lado não têm apresentado nada de novo – o que é novo nesta altura no campo do metal gótico e sinfónico? – por outro têm apresentado álbuns cada vez mais sólidos e este “Vermillion Eclipse” não é de todo excepção. Um álbum bem forte e poderoso onde a componente sinfónica e gótica não significa um trabalho mais acessível ou pelo menos um descuidado da componente metálica. Versatilidade e dinâmica vocal por parte de Sérgio Mazul e Mizuho Lin nas vozes limpas, guturais, gritadas e operáticas. E em músicas onde as coisas fluem de maneira natural sem sentirmos que tenhamos qualquer tipo pressão para sermos encaminhados para este ou aquele género. Surpreendentemente bom!

9/10
Fernando Ferreira


6 – Circle Of Silence – “Walk Through Hell”

Massacre

Apesar de não ter atingido patamares de sucesso impressionantes, os alemães Circle Of Silence têm vindo a desenvolver um percurso sólido. No entanto, apesar dessa solidez, não deixa de ser surpreendente o power que este “Walk Through Hell” manda. Power e sobriedade! O que nos afasta bastante do enfado em que o power metal apontava na primeira década do milénio e onde o termo “power” insere-se mesmo no peso da proposta, não dispensando, claro, as melodias das harmonias nos leads e nos solos. Uma lição em bom gosto e a mostrar por muito que uma tendência “morra”, existem sempre aqueles que são cegos e surdos em relação a isso e que continuam a fazer o que gostam e depois apresentam álbuns assim.

9/10
Fernando Ferreira


5 – Animalize – “Meat We’re Made Of”
Dying Victims Productions

Existem editoras que são referências incontornáveis (com deslizes permitidos) para boa música. A Dying Victims Prodductions são sem dúvida uma dessas editoras. Da sua parte temos agora o álbum de estreia dos franceses Animalize que é heavy metal irreverente, old school, mas totalmente essencial. Algures entre o heavy tradicional e o speed metal, “Meat We’re Made Of” é um álbum que se absorve depressa e sem qualquer tipo de problema. Claro que ajuda o facto de ter pouco mais de trinta e cinco minutos assim como a alta qualidade com que estes temas se apresentam perante nós. Enquanto bandas destas continuarem a debitar temas como “Escorte Funèbre” e “Back from the Sematary”, o estilo está muito bem entregue. Ah, e como devem ter reparado, sim, temos temas tanto em inglês como francês e resulta sempre bem.

9/10
Fernando Ferreira


4 – Truent – “Through The Vale Of Earthly Torment”

Edição de Autor

Mais uma bomba canadiana que se apresenta ao serviço. Álbum de estreia dos Truente que têm uma sonoridade intricada que surge logo de forma refrescante. Claro que temos piscadelas a Atheist e Pestilence e outras mais bandas que foram influenciados por estes também, mas apesar do caminho já percorrido por outros anteriormente, este á um álbum que soa genuinamente refrescante e interessante à primeira e que depois nas posteriores audições se solidifca como um dos grandes álbuns de death metal técnico que ouvimos nos últimos tempos. Tem uma tonalidade moderna que não estraga a sonoridade em nada – até lhe dá uma roupagem mais actualizada – e temos verdadeiras músicas que não ficam em frangalhos mediante a exibição técnica dos seus executantes, que está presente mas flui de forma perfeitamente natural. Daqueles discos que dá genuíno prazer auditivo.

9/10
Fernando Ferreira


3 – Corpus Christii – “The Bitter End Of Old”

Immortal Frost Productions

Álbum muito aguardado por uma das mais respeitadas bandas de black metal nacional. “The Bitter End Of Old” não só representa o regresso dos Corpus Christii como também o testemunho de que apesar dos tempos terem mudado – em tudo em geral e no black metal em particular – ainda é possível capturar um pouco de um sentimento de que se pode julgar extinto no estilo com a sua massificação. E enquanto é certo que a exposição e a progressão poderão mudar muita coisa ao longo dos tempos, também é certo que a inovação sem desvirtuar a essência é possível desde que exista criativade para isso. Criatividade e o objectivo de criar “apenas” uma peça de arte e não mais um produto para ser colocado à venda – que no final será sempre isso mas essa já é outra questão. “The Bitter End Of Old” é a representação das várias facetas dos Corpus Christii mas também um olhar em frente. Motivado pela amargura mas indo mais além do que a simples representação dessa emoção.

9/10
Fernando Ferreira


2 – Besieged – “Violence Beyond All Reason”

Unspeakable Axe

Eita que disco mais putência. Demorou doze anos  para que o segundo álbum dos canadianos Besieged viesse cá para fora mas também quando vem, surge com uma urgência que até nos deixa boquiabertos. “Violence Beyond All Reason” é um death/thrash metal vitaminado por parte de um power trio de impor respeito. São apenas sete faixas em menos de meia hora (mais dois temas não lhes faria mal nenhum) mas se este poderia ser noutros contextos um factor negativo, aqui é apenas mais uma das características do álbum que até funcionam a seu favor. A proposta é tão intensa e tão sufocante que mais tempo poderia ser demasiado. Unidimensional e bruto até dizer chega, o título deste álbum é totalmente justificado e é um dos grandes vícios death/thrash de 2022.

9/10
Fernando Ferreira


1 – Misery Index – “Complete Control”

Century Media Records

Já estava mais que na hora de termos de volta os Misery Index com a sua visão violenta (ainda que realista) do mundo. “Complete Control” quebra o jejum de três anos mas parece que foram seis (ou múltiplos disso). Sobretudo por esta lucidez que sempre permeou os seus álbuns e aqui parece estar mais acutilante que nunca. Musicalmente, continuam supremos. Continua a ser death/grind mas longe de seguir qualquer padrão que não o seu. Líricamente também sempre no ponto de atingir quase a perfeição, usando as letras como arma de arremesso social numa descrição que arrepia de tão verdadeira – verifiquem as letras de temas como “The Eaters And The Eaten” ou “Necessary Suffering” e vejam como fazem sentido. No geral e algo que surge como de imediato, este é mais um excelente álbum dos Misery Index, tal como se antecipava.

9/10
Fernando Ferreira


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