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Filhos do Metal – Cantar Sem Rosnar

Por Duarte Dionísio
(Filhos do Metal – À descoberta do Heavy Metal em Portugal)
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Ao ouvir o novo álbum de Anthrax “Cursum Perficio”, com a voz melódica de Joey Belladonna, ocorreu-me que em Portugal não tenho ouvido novas bandas de Thrash Metal (e poucas mais antigas), cujos vocalistas tivessem um registo vocal mais limpo, cantado e melódico. A opção recai frequentemente nos vocalistas com vozes mais agressivas e gritadas, fazendo uso da voz gutural.

Convém começar pelo ponto de partida. “Cursum Perficio” é o décimo segundo álbum de estúdio dos Anthrax, que chega dez anos depois do anterior, e Belladonna continua a fazer o que sempre fez: cantar. Não rosna, não grunhe, não berra por sistema. Canta, com melodia e garra, por cima de riffs que andam a cem à hora. Mesmo na era de John Bush, com uma vocalização mais grave e sustentada, a melodia nunca saiu da banda de Nova Iorque. E os Anthrax nunca estiveram sozinhos. Bobby “Blitz”, dos Overkill, de New Jersey, e Mark Osegueda, dos Death Angel, da Califórnia, também provaram que o Thrash nunca exigiu growl por contrato. Exigia atitude, e a atitude cabe tanto numa voz limpa como numa voz mais gritada, mas sem ser gutural. Enfim, o óbvio, que por vezes convém dizer em voz alta.

Fui então à descoberta cá dentro, como é costume, e comecei pelo passado. O Porto dos anos 90 teve os Dove, uma banda de Thrash formada em 1988 que só chegou à edição de um álbum em 2018, para além de quatro demos e uma compilação, mas foi das mais influentes do underground português da década. Também no Porto, os W.C. Noise misturavam Thrash e Hardcore, com a voz de Nando a fazer lembrar os Pantera. Ou seja, a agressividade vocal não nasceu agora. Os RAMP nasceram no Seixal em 1989, com Rui Duarte na voz, começaram no Thrash e Speed Metal e foram derivando para o Groove. Rui Duarte tem uma voz agressiva e gritada, é verdade, mas sempre cantada, a pensar em refrões, e não é por acaso que “For a While” chegou ao top dez da Rádio Comercial. Os Tarantula, de Valadares, não são Thrash, são Heavy/Power, mas o vocalista Jorge Marques, na banda desde 1989, começou o seu percurso nos Web, uma banda de Thrash. Só alguns exemplos que provam a existência de uma escola. 

Entre o growl e a voz limpa há, porém, um território enorme, e é aí que encontrei o que procurava, ainda que sem chegar à pureza de um Belladonna. Os Toxikull, de Cascais, formados em 2016, têm em Lex Thunder uma voz aguda, ao estilo do Heavy e do Speed dos anos 80, enquanto o baixista Antim “The Viking” (já saiu da banda) acrescentava um registo mais grave. Fecham o álbum “Under the Southern Light” com uma versão do tema “Filhos do Metal”, dos Xeque-Mate, o que, confesso, me soou familiar, e apresentaram “Turbulence” no RCA Club, em Lisboa, a 24 de abril de 2026. Os Wrath Sins, de Vila Nova de Gaia, formados em 2011, têm em Mike Silva um vocalista que, deixando o growl de lado, alterna entre uma zona agressiva e uma zona melódica. Os Primal Attack, de Lisboa, vêm do lado do Groove e do Hardcore, mas um crítico notou, em “Heartless Oppressor”, a presença ocasional de voz limpa, sem pieguice, em “Heart and Bones”. No Death Metal a questão põe-se de outra maneira. Lá fora há precedentes antigos: em 1996, os suecos Edge of Sanity editaram “Crimson”, um disco que alterna growls com canto limpo. Cá dentro, há alguns bandas com vozes femininas que alternam entre os dois registos vocais, como os Reverent Tales.

Arrisco algumas hipóteses. A primeira é histórica: o Black e o Death moldaram a cena underground portuguesa durante décadas, e o growl tornou-se a língua comum. A segunda é a ideia, quase um reflexo, de que extremo é sinónimo de autêntico. A terceira é a língua: cantar limpo em inglês já expõe o sotaque, e cantar limpo em português expõe ainda mais, o que talvez explique a raridade de temas como o dos Toxikull. Uma voz limpa não perdoa desafinações, não se esconde atrás da distorção e exige técnica que não se improvisa numa sala de ensaio. Não é uma crítica, é uma constatação, e ao mesmo tempo um convite. Entre o grito e o canto há margem para muita coisa, e os exemplos que referi mostram que funciona. Falta quem assuma a voz melódica sem receio no Thrash português. Fica a dica. Em frente.


 

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