Filhos Do Metal – Editoras Na Era Digital

Por Duarte Dionísio
(Filhos do Metal – À descoberta do Heavy Metal em Portugal)
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Há muitos anos atrás fundei uma editora dedicada ao Heavy Metal nacional. A dedicação, a paixão e a vontade de fazer algo de profissional pelo Metal, não foram suficientes para a continuidade e sucesso do projeto. Apesar de tudo, foram lançadas três edições em formato CD. Tenho orgulho nas edições e na qualidade global de cada uma delas e acima de tudo nas bandas em que apostámos. A editora foi uma aventura com muito empenho, trabalho e investimento. A ideia sempre foi criar algo muito profissional, com qualidade e que oferecesse as melhores condições possíveis às bandas contratadas. No entanto, há 28 anos atrás tudo era diferente se compararmos com a atualidade. Os processos de gravação, estúdios e produtores ainda não tinham a maturidade nem conhecimentos que hoje em dia já é possível encontrar, mesmo em estúdios quase caseiros (claro que me refiro ao universo do Heavy Metal). A promoção era menos prolífera, sem grandes soluções digitais para atingir mais público com um só clique, como nos dias de hoje. Pese embora esses fatores, oferecíamos tudo o que era possível e com competência. Bons estúdios, boa execução gráfica, boa prensagem e duplicação, mas acima de tudo, investíamos nas bandas, suportando todas os custos inerentes aos processos de edição e promoção. Muito dinheiro foi gasto e perdido. Alguns erros foram cometidos. Objetivos ficaram por atingir. Mas os CD editados ficaram para a história do Heavy Metal em Portugal.

Ao longo dos anos a indústria da Música foi sofrendo mutações, como é normal, fruto da evolução tecnológica e social. Os formatos digitais começaram a ganhar prevalência sobre os formatos físicos, principalmente com o download ilegal de músicas em MP3 e logo depois com o aparecimento das plataformas de streaming. Esses acontecimentos ditaram novas regras no mercado. Desde logo, a perda significativa de receitas para as editoras, que viram as vendas decrescerem radicalmente. A reação não demorou muito e as editoras passaram a assinar contratos 360o com os artistas. Ou seja, as receitas para as editoras passaram a ter origem não só nas vendas de discos, mas também no merchandising, nos concertos, entre outras fontes. O investimento tinha de ter retorno, o que deixou de ser possível só com as vendas de fonogramas. Na verdade a relação entre Artistas e editoras nunca foi propriamente pacífica, mas esse assunto daria outra crónica e muito longa.

Para além das editoras, as bandas sempre investiram em si próprias, não só pela aquisição de instrumentos, equipamento, aluguer de salas para ensaio, mas também suportando os gastos com gravações em estúdio e edições de autor. Esta situação era e é comum quando não há editoras interessadas em apostar e investir na banda. No entanto, há um fenómeno que tem vindo a ganhar expressão nos últimos tempos. Embora não seja algo de inédito, trata-se de um sistema que ganha força. Refiro-me às edições formais e profissionais por “record labels” (utilizo o termo em inglês propositadamente), sem investimento total por parte das mesmas. As bandas entregam as Masters prontas a serem enviadas para a reprodução em fábrica, muitas vezes já com o trabalho gráfico também finalizado. As editoras prestam serviços de reprodução, venda online, distribuição e, eventualmente, promoção. O papel que as editoras têm na aposta e investimento, fica, nestes casos, reduzido a uma menor responsabilidade. Esta configuração editorial tem gerado um natural aumento da quantidade de record labels e consequentemente de bandas. Para além disso, permite também um abrir de portas para mais bandas portuguesas colocarem os discos no estrangeiro. Verifiquei também edições unicamente digitais por intermédio de editoras que servem apenas de ferramenta para colocar as músicas das bandas nas plataformas online. Por mais estranho que tudo isto possa parecer, é neste oceano que as bandas mais novas surgem e navegam. O que resta saber é quais são as vantagens. Se o futuro trará uma verdadeira carreira profissional e/ou internacional para as bandas que apostam neste formato. Sem julgamento de valores, resta observar com atenção a evolução imparável e mudança de paradigma, que obriga as bandas a serem cada vez mais autónomas.


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