Filhos do Metal – Gerações
Por Duarte Dionísio
(Filhos do Metal – À descoberta do Heavy Metal em Portugal)
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O Heavy Metal nasceu como rutura geracional. Nos anos 70 e 80 era, por definição, o género que os pais não entendiam e desaprovavam. Ter cabelo comprido, ouvir “barulho”, ter em casa capas de discos agressivas, vestir de preto e usar patches das bandas favoritas, tudo isto era demasiado provocatório para ser aceitável por parte de alguns pais. Décadas depois, é comum ver esse mesmo género a passar de pai para filho como se fosse património de família. Não é um fenómeno exclusivo de Portugal, mas em concertos de maior escala no país, como o Rock in Rio, ou mais recentemente o concerto dos Iron Maiden no Estádio da Luz, a mistura geracional na plateia é visível a olho nu, sem necessidade de estatística: crianças ao colo, adolescentes com t-shirts herdadas, e adultos que já lá estavam há trinta anos.
Convém não romantizar o que isto significa. Não há garantia nenhuma de transmissão automática, e o Metal não é imune ao mesmo mecanismo que afeta qualquer outro gosto cultural: a rejeição do que os pais ouvem enquanto forma de afirmação própria. Conheço tanto filhos de metaleiros que abraçaram o género por osmose doméstica, como filhos de Metaleiros que se tornaram fãs de trap ou de pop coreana precisamente por reação contrária. A ideia de uma “herança natural” do gosto musical é mais frágil do que a fotografia de um concerto sugere.
O que parece pesar mais do que a genética familiar é o acesso: quem cresce com discos em casa, com o carro a tocar sempre as mesmas cassetes antigas nas viagens, ou com um pai que o leva a um primeiro concerto ainda criança, tem uma exposição que o resto da geração não tem, e exposição repetida cria familiaridade, e familiaridade facilita afeto. Isso não é exclusivo do Metal, mas o Metal tem uma vantagem que poucos géneros preservam tão bem: o repertório envelhece pouco. Uma canção de 1982 continua a soar a atualidade num alinhamento de digressão de 2026, porque a essência do género se mantém. Isto facilita que pai e filho consigam ouvir literalmente a mesma canção, no mesmo concerto, sem que um dos dois sinta que está a assistir a uma relíquia do outro.
Há também um efeito menos falado: o Metal deixou de ser, na maior parte dos casos, um ato de contestação social visível. Um adolescente que hoje ouve Iron Maiden ou Black Sabbath não está a provocar os pais – está, com frequência, a confirmar-lhes o gosto. Isto retira ao género parte da sua função histórica de rutura, mas explica também por que razão é tão fácil transmiti-lo: já não exige a mesma coragem de contrariar a família que exigia há quarenta anos. Continua a existir contestação dentro do Metal, principalmente nos subgéneros mais extremos, no Black Metal, no Grindcore. Esses são os territórios que alguns pais, que não acompanham o Heavy Metal, poderão achar mais chocantes.
Talvez a conclusão mais honesta seja esta: o Metal não se transmite por defeito, transmite-se por exposição continuada e por coincidência de gosto, tal como qualquer outra cultura musical. O que o distingue é ter, ao mesmo tempo, discografias suficientemente antigas para atravessar décadas sem se tornarem datadas, e uma comunidade suficientemente pequena e fiel para insistir em passá-las adiante.
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