Road To Vagos  – Napalm Death

Simplesmente uma das bandas mais emblemáticas da música extrema. Grindcore, Death Metal, seja o que for, Napalm Death é uma verdadeira instituição do peso britânico, uma banda com quase quarenta anos de história, que já não conta com ninguém da sua formação original mas que ainda assim continua a ser referência para todos assim como a arrastar multidões sempre que o seu nome é mencionado.

Formados em Meriden, perto de Coventry por dois fãs de música anarcopunk, Nic Bullen e Miles Ratledge, a banda passou por diversas mutações sem nunca se estabilizar por muito tempo. No entanto lançaram uma série de demos que começaram a ter algum impacto na cena de trape trading em expansão. A entrada que viria levar a banda a ir dos terrenos do punk para mais extremos aconteceu seria a de Justin Broadrick (que mais tarde viria a formar Godflesh e Jesu). “Hatred Surge”, “From Enslavement To Obliteration (já com Mick Harris  – que mais tarde viria a formar os Scorn –  na bateria) e a “Scum” são embriões para o grindcore que a banda viria a estabelecer

Grande parte destes temas viriam a fazer parte do álbum “Scum”, que reúne períodos distintos de gravação por parte da banda – o lado A era para fazer parte de um split inclusive. Parte das gravações foram feitas com Lee Dorrian na voz (ele que também fazia parte dos Cathedral) e Bill Steer (que viria a fazer parte dos Carcass, explorando uma vertente diferente mas também revolucionária do grindcore). Inesquecível a “You Suffer”, o tema mais curto de sempre, registadoo no Guiness.

Shane Embury, uma das peças fulcrais da banda, viria a aparecer pela primeira vez nas míticas “Peel Sessions” do malogrado John Peel, enquanto o seu primeiro álbum seria o “From Enslavement To Obliteration”, outro clássico do grindcore. Letras de contestação social e a urgência do punk, crust aliado ao grindcore resultam num dos álbuns essenciais do género.

Esta formação, apesar de ser mítica, também não iria durar. Podemos dizer que o EP “Mentally Murdered” foi o último onde a mesma brilhou. No entanto isso não iria significar que o impacto inicial ou o burburinho criado com os dois primeiros álbuns (e os muitos splits e EPs) se iria perder. Lee Dorrian e Bill Steer saem e para o seu lugar entram Mark “Barney” Greenway, Mitch Harris e Jesse Pintado (dos Terrorizer que entretanto já tinham acabado – aliás, tinham acabado antes do álbum mítico “World Downfall” ter sido lançado, onde também Shane participou e foi uma das forças motrizes para o mesmo acontecer.

“Harmony Corruption” foi o trabalho que resultou desta formação e apresenta um caminho mais death metal. Um trabalho clássico que foi a porta de entrada na altura (1990) para muitos no estilo e na música extrema. O álbum e o vídeo que se seguiu, “Live Corruption”, provavelmente o vídeo mais pirateado de sempre daqueles tempos.

Como esquecer um tema como “Suffer The Children”, um dos mais emblemáticos da fase primordial da banda e também um daqueles que mais marcantes deste seu início de carreira, com um riff bem característico.

Tais mudanças estilísticas levaram a que os fãs mais hardcore os acusassem de se terem vendido, uma acusação acolhida de forma séria no seio da banda. Como resultado lançaram o EP “Mass Appeal Madness” que foi mais ao agrado dos fãs descontentes.

Este EP, o split com os S.O.B.  e os temas do já mencionado “Live Corruption” viriam a ser reunidos todos num só disco, esse disco chamado “Death By Manipulation”, uma compilação que via a editora de sempre dos Napalm Death a fazer render o peixe e a capitalizar com a junção de alguns trabalhos lançados de forma limitada e que eram difíceis de arranjar.

O trabalho seguinte “Utopia Banished” apresenta a última alteração significativa do alinhamento da banda durante algum tempo. Falamos de Mick Harris, baterista, que entrou em rota de colisão com os outros membros em relação à direcção criativa a seguir – a banda queria fazer temas mais rápidos enquanto Mick queria tocar coisas mais lentas. Para o seu lugar entrou Danny Herrera, amigo de Jesse Pintado e que trouxe uma batida diferente em relação ao som que dominava nos Napalm Death.

Apesar de ter envelhecido bem, não é dos trabalhos mais marcantes da banda mas por esta altura já era mais que claro que os britânicos andavam numa busca diferente por algo diferente. Ainda assim, ainda foi editado o EP “The World Keeps Turning”, um dos temas mais memoráveis do álbum e um sinal claro de que os Napalm Death estavam dedicados em ir em direcção ao futuro, sem quererem saber das amarras ao passado.

Representação física desse arrojo criativo é sem dúvida “Fear, Emptiness, Despair”, álbum de 1994 que marcou a viragem para um som que viria a marcar a restante década da banda. O grindcore transforma-se em mais death metal e este death metal é mais cheio de groove e compassado, até com algumas soluções algo experimentais. Um álbum divisor mas que, tal como “Utopia Banished” apresenta-se como um clássico nos dias de hoje. Um tema como “Twist The Knife (Slowly)”.

Penetrando ainda mais nesse terreno, pouco mais de um ano depois, sairia o EP “Greed Killing” que antecipava o próximo álbum de estúdio, “Diatribes” com alguns temas mais que fariam parte do álbum quer seria lançado três meses depois. “Greed Killing” é um malhão graças a um dos leads mais viciantes que saiu da banda naquela década.

Pelo EP de Novembro de 2015, era fácil prever que a banda continuava na senda pelo death metal mais groove e, de certa forma, mais acessível. No entanto há por aqui muito bom e rico material para a posteridade, mesmo que muito desse material tenha realmente muito groove à mistura – “Cursed To Crawl”, “Just Rewards” (excelente trabalho de bateria de Herrera), “Take The Strain” e “Corrosive Elements” são aqueles que mais se destacam.

Independentemente da aproximação do som às tendências em voga na música pesada, o ritmo de trabalho da banda não diminui e os splits ainda era uma realidade bastante forte. Depois do split de 96 com os At The Gates, chegava a vez dos Coalesce, o que também demonstrava a proximidade estilística com o hardcore, ainda que pouco convencional como é o caso dos norte-americanos.

“Inside The Torn Apart”, para mim, sempre foi um álbum irmão do “Diatribes”. A mesma fórmula, o mesmo feeling mas embora aqui a atenção estivesse mais no peso bruto. No entanto, por esta altura a banda viveu uma grande instabilidade. Barney, que tem uma fobia a andar de avião, decide sair da banda por estar farto de andar sempre de um lado para o outro devido ao ritmo alucinante de trabalho da banda – também a acusar o desgaste dos anos ao serviço da banda. Para o seu lugar é chamado Phil Vane (ex-Extreme Noise Terror, falecido em 2011) que acaba por não acertar com a química da banda, forçando-os a tentar convencer Barney a voltar, ele que entretanto já tinha gravado um álbum com… Extreme Noise Terror.

A mesma linha do “Diatribes”, algumas experimentações falhadas, mas novamente, um malhão a abrir que deu origem a um EP. Falamos claro de “Breed To Breathe” que vem acompanhado por mais um punhado de malhões tendo como brinde uma cover da clássica “Suffer The Children” por parte dos Fatality, banda que ganhou um concurso internacional e que ganhou assim uma oportunidade única de aparecer junto aos Napalm Death.

A provar a forma diferente dos Napalm Death em relação ao resto, está na forma como editaram o seu primeiro álbum ao vivo (o segundo se contarmos com o áudio do mítico “Live Corruption” que foi editado em CD). Ao encontrarem umas gravações piratas de performances suas no Japão, ficaram surpreendidos pela sua qualidade de tal forma que tiveram que editá-las de forma oficial. Gravação crua, registada na altura do “Diatribes” e que evidencia todo o seu poder.

O ritmo editorial continuava imparável e em 1998 era altura de mais um álbum estar pronto. Se “Diatribes” é irmão de “Inside The Torn Apart”, “Words From The Exit Wound” é o que encerra a trilogia dos três álbuns que definem todo o som da banda na década de noventa. Como que o final de uma era, os britânicos trazem o seu death metal com uma produção cristalina (cortesia do senhor Colin Richardson, pela última vez e que não deixou a banda totalmente satisfeita embora da nossa perspectiva o som seja brutal) mas aumentam um pouco mais a intensidade. E ainda têm uma surpresa com a “None The Wiser”, a primeira vez em que Barney canta com voz limpa.

Ainda a fechar a década (e o milénio), os Napalm Death lançam um EP de covers (algo viral entre as grandes bandas no final da década de noventa) onde põem a nu todas as suas influências dos italianos Raw Power aos Pentagram sem deixar esquecer obviamente os Dead Kennedys. Um MCD que foi o primeiro a ser editado pela Dream Catcher, terminando assim a longa duração com a Earache Records, editora de sempre da banda. A separação foi tão complicada que o título do próximo álbum da banda seria inspirado em toda a situação: “Enemies Of The Music Business”

Este álbum marca um regresso da banda ao seu velho logo e apesar de manter como referência o trabalho criativo da década anterior, nota-se que há uma nova raiva adjacente. Como se não tivessem qualquer tipo de coisa a provar a quem quer que seja. E não tinham. Algo que se nota bastante neste álbum. Livre de qualquer amarras, a banda ditava agora as suas próprias regras. “Order Of The Leech” foi o álbum seguinte, saindo agora pela FETO Records.

“Order Of the Leech” traz de volta algum do experimentalismo da década de noventa mas também mostra um equilíbrio maior entre o death metal e o grindcore, sendo agora quase impossível onde começa um e onde acaba o outro.  Jesse Pintado, devido a problemas pessoais não participaria neste álbum nem no próximo, acabando por sair em 2004 – viria a falecer em 2006. A banda continuaria apenas como um quarteto. Por esta altura o seu som já é único e referência para gerações de músicos que estavam no activo ou iriam estar num futuro próximo. Entretanto a Earache iria lançar uma compilação de dois cds que é uma autêntica bíblia para o que os Napalm Death representam. Primeiro CD com os clássicos, segundo CD com raridades, temas ao vivo e inéditos.

Por esta altura, Napalm Death já é uma instituição pelo que era normal ver compilações e até edições em CD de trabalhos lançados em DVD anteriormente como o “Punishment In Capitals”. E seria um destes trabalhos que marcaria a ligação da banda à Century Media Records, uma ligação que dura até aos dias de hoje. Falamos da segunda parte da compilação de covers, desta feita um álbum com alguns das maiores referências da música extrema a serem alvo de homenagem.

O primeiro álbum de originais pela Century Media Records foi um dos mais emblemáticos da banda no novo milénio. “The Code Is Red… Long Live The Code”. Com muitas mais influências punk, hardcore e crust, este trabalho funciona como o fechar do círculo para a banda, onde vão buscar as suas raízes, o seu passado e presente e abrem caminhos para o futuro que não desiludiu os fãs. Contou com a participação de Jeff Walker (Carcass), Jamey Jasta (Hatebreed) e Jello Biafra (Hatebreed).

Em alta, com a criatividade a fervilhar, “Smear Campaign” consegue ainda fazer com que o impacto do trabalho anterior não só fosse igualado como também superado. Surpreendeu pela participação de Anneke Van Giersbergen. A notícia da morte de Jesse Pintado surgiu quando a banda estava em plena digressão mundial.

“Smear Campaign” é a prova da sabedoria popular, certas coisas apenas ficam melhores com a idade. A banda atravessava uma excelente fase criativa e a aclamação chegava-lhes um pouco por todo o lado. Sem parar – até porque descanso é algo que uma pessoa como Shane Embury não conhece, com os seus inúmero projectos paralelos – o próximo álbum da banda tinha um título que redlectia isto mesmo – “Time Waits For No Slave”

E por esta altura tinha-se a sensação que a banda não tinha como errar. Não querendo afirmar que tinham estabelecido uma fórmula da qual não se desviavam. Apenas tinham um espectro já alargado que era abrangido pelo seu som assim como uma identidade que era inabalável. E apesar deste trabalho ser algo experimental, foi bem absorvido pelos fãs e críticas e o facto de ser experimental não significa que fosse algo menos intenso. Muito pelo contrário.

A Earache, por outro lado, ainda tentava capitalizar pelo filão daquela que foi uma das suas maiores bandas no seu catálogo. E nisso inclui-se o lançamento do álbum “Live At Rock City” e do triplo CD “Grind Madness At The BBC onde surgem ao lado dos Extreme Noise Terror, Carcass, Bolt Thrower, Godflesh, Unseen Terror, Heresy e Intense Degreee.

O impacto na cultura da música extrema não passa despercebido e ainda que num retrato simplista do jovem apreciador da mesma, a banda acaba por ser representada em 2011 na conceituada série “Skins” (disponível na Netflix), aparecendo inclusive em imagens num dos seus concertos – esse um retrato bem real. Nesse mesmo ano começam a preparar o seu próximo passo editorial, “Utilitarian”

Podemos ver “Utilitarian” como um seguimento natural do “Time Waits For No Slave”, ou seja, estão presentes as raízes crust/punk do início de carreira, o groove bruto da década de noventa assim como a veia mais experimental. E o grind, claro, que faz parte do seu ADN.

Ainda antes de lançar o próximo álbum de originais, a banda teve ainda uma baixa de peso, com Mitch Harris a sair devido a doença na sua família. Foi anunciado como hiato e foram as suas guitarras que apareceram registadas no “Apex Predator – Easy Meat”

Podemos dizer que “Apex Predator – Easy Meat” seguiu o caminho de “Utilitarian” mas optando por um foco diferente. A fórmula de equilíbrio entre o experimental e o death/grind/crust continua presente, apenas apresentam uma variante diferente em relação ao experimental, focando-se mais nas soluções mais próximas ao que se convencionou chamar no início da década de oitenta como pós-punk.

A banda anunciou que o seu próximo álbum sairia apenas em no início de 2020, confirmando que Mitch Harris gravou as guitarras embora não houvesse a certeza de que o guitarrista voltaria alguma vez a andar em digressão com a sua banda de sempre. Como que a preparar o caminho para um novo trabalho, a banda edita um compilação com faixas raras que foram sendo registadas no período de 2004 e 2014.

É sabido que nem cinco horas chegariam para que a banda deitasse cá para fora todos os seus grandes temas mas isso só faz com que um concerto seu se torne imperdível. Lendas vivas do grindcore britânico que são sempre um furacão em cima do palco. Vagos, prepara-te… não vai ser fácil resistir ao poder dos Napalm Death.

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