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Rock Zone – Ashen Horde, Lockhart, Fighter V, Purgatório Bestial, Nox Infernum

Rock Zone é um programa de rádio na Rádio Alta Tensão e na Songs For The Deaf Radio da autoria de Miguel Correia e todos os meses, estes são os seus destaques.

Ashen Horde – “The Harvest”
Edição de Autor

 Os Ashen Horde regressam com “The Harvest” e voltam a provar que são uma daquelas bandas que simplesmente recusam ficar presas a um rótulo. Este quinto álbum, com lançamento marcado para maio de 2026, marca uma nova fase, mais ampla, mais ousada e, acima de tudo, mais emocional. A entrada de Karl Chamberlain na voz faz toda a diferença. A sua performance é um dos grandes trunfos do disco, alternando entre guturais densos, gritos cortantes e momentos melódicos surpreendentemente expressivos. Não é apenas técnica, há aqui intenção e narrativa, algo que eleva o material a outro nível.

“The Harvest” não é um álbum conceptual no sentido clássico, mas gira em torno de uma ideia comum, o fim: fim de ciclos, colapso, decadência, transformação. Cada tema aborda esse conceito de forma diferente, criando uma experiência coesa, mas nunca previsível. Há sempre uma nova camada, uma mudança de direção, um detalhe que prende a atenção. Musicalmente, o disco é um verdadeiro caleidoscópio. Black metal, death metal, progressivo e até ecos de rock alternativo dos anos 90 surgem e desaparecem com naturalidade. Pode parecer caótico no papel, mas na prática funciona. E funciona bem. A composição está sempre no centro de tudo, garantindo que as músicas não se perdem na ambição.

A produção ajuda a consolidar esta visão. Misturado por Ricardo Borges e masterizado por Tony Lindgren, o álbum soa limpo, mas não polido em excesso. Mantém a agressividade e o peso, ao mesmo tempo que deixa espaço para as subtilezas respirarem. Se há algo que define “The Harvest”, é a sua capacidade de equilibrar complexidade e impacto. É um disco exigente, mas nunca hermético. Desafia, mas também recompensa. E, mais importante, mostra uma banda em constante evolução, confortável em arriscar e segura naquilo que quer dizer. Para quem procura extreme metal com identidade, ambição e alma, “The Harvest” não desilude. Não é fácil, não é linear, mas também não foi feito para ser.

 

 Lockhart – “City Pulse”
High Roller Records 

 A estreia num longa duração dos canadianos Lockhart chega com ambição, brilho e uma clara devoção à era dourada do AOR. “City Pulse” não é apenas um exercício de nostalgia, é uma tentativa consciente de revitalizar uma linguagem sonora que marcou gerações, trazendo-a para o presente com identidade própria. Formado por músicos experientes, com ligações a nomes como Cauldron, Enforcer ou Annihilator, o trio apresenta aqui um disco que mergulha sem reservas no universo do rock melódico dos anos 80. Há ecos imediatos de gigantes como Journey, Boston, Toto ou Foreigner, mas também uma atenção ao detalhe que vai mais fundo, tocando influências inesperadas como o doo wop dos anos 50 ou arranjos corais cuidadosamente construídos.

Na minha opinião, “City Pulse” destaca-se pela sua abordagem extremamente meticulosa à composição. Devon Kerr assume um controlo quase obsessivo sobre o processo criativo, e isso sente-se em cada faixa. Tudo soa pensado, polido e intencional. Canções como “The Dose That Made You Poison”, “Under Fire” ou “Together As One” revelam uma escrita sólida, com refrões memoráveis e uma produção que valoriza tanto as guitarras como os sintetizadores, sem nunca perder equilíbrio. Apesar da forte carga melódica, o álbum não se limita a ser acessível. Há músculo, há técnica e há momentos em que o ADN mais ligado ao metal emerge, especialmente nos solos e na energia rítmica. Participações especiais, como Nick Poulos dos Municipal Waste ou Ian Chains do universo Cauldron, ajudam a reforçar essa ponte entre mundos.

O resultado é um disco que poderá até surpreender parte do público, mas, acima de tudo que se impõe pela qualidade e pela convicção. “City Pulse” é um trabalho que vive do contraste entre o familiar e o inesperado, entre o clássico e o contemporâneo.Não reinventa o género, mas também não precisa. O que faz, fá-lo com classe, precisão e um respeito evidente pela herança que carrega. Para quem sente falta do brilho das grandes arenas e dos refrões que ficam no ouvido à primeira audição, este é um lançamento a não ignorar.

 

 Fighter V – “Deja Vu”
Frontiers Music

 Os suíços Fighter V regressam com “Deja Vu” e, para quem cresceu com o som das grandes arenas dos anos 80, este disco é puro combustível emocional. Não há aqui rodeios nem tentativas de reinventar a roda. O que há é paixão, entrega e uma capacidade impressionante de captar a essência de um género que muitos tentam replicar, mas poucos conseguem realmente sentir. Gravado no estúdio Little Creek e produzido com um cuidado quase obsessivo, “Deja Vu” soa enorme, luminoso e absolutamente envolvente. Desde os primeiros segundos de “Raging Heartbeat”, percebe-se que a banda está num momento de confiança total. As guitarras brilham, os teclados criam aquela camada atmosférica irresistível e a voz de Emmo Acar assume-se como o verdadeiro motor emocional do álbum.

Ao longo do alinhamento, há uma consistência que não cansa. “Victory” e “Made For A Heartache” entregam refrões gigantes, daqueles feitos para serem cantados em uníssono, enquanto “Foolish Heart” e “Stand By Your Side” exploram o lado mais sentimental sem cair no cliché fácil. A faixa-título “Deja Vu” funciona como o ponto central do disco, quase um manifesto sonoro, onde a banda abraça totalmente a sua identidade e a transforma num momento memorável.

O que torna este álbum especial não é apenas a execução técnica, que é irrepreensível, mas a forma como tudo soa genuíno. Há alma nestas canções. Há aquele brilho nostálgico que remete diretamente para nomes como Whitesnake ou Journey, mas sem soar a cópia. É antes uma continuação natural desse legado. “Deja Vu” é, no fundo, aquilo que o título promete. Uma viagem familiar, sim, mas irresistível. Um regresso a um tempo em que os refrões eram maiores que a vida e a emoção vinha sem filtros. E, sinceramente, é difícil não se deixar levar por isso.

 

Purgatório Bestial – “Ciclo Infernal”
Prophetical Productions

Há discos que se ouvem. Outros suportam-se. “Ciclo Infernal” pertence claramente à segunda categoria. A entidade Purgatorio Bestial, nascida da colaboração entre o letrista LordSir7Peles e o compositor/produtor Melkor, não vem pedir licença. Vem rasgar, esmagar e deixar marca. E que marca! E quando se fala em peso no underground nacional, o nome LordSir7Peles já não surpreende ninguém estar associado a sons do género. É mais um capítulo de uma visão artística que nunca foi feita para agradar, mas sim para confrontar. Aqui, em comunhão com Melkor, atinge um nível particularmente sufocante. Há uma sensação constante de claustrofobia, como se cada faixa fosse uma descida mais profunda a um abismo sem fundo.

“Ciclo Infernal” não esconde ao que vem. Nove faixas que funcionam como rituais de degradação total, onde a carne, a alma e a própria noção de humanidade são trituradas sem piedade. As letras são viscerais, desconfortáveis e absolutamente implacáveis. Parasitas, decomposição, violência ritual, sofrimento contínuo. Tudo aqui respira decadência. Mas é na componente sonora que o disco realmente se impõe como um murro no estômago. Melkor constrói um ambiente denso e corrosivo, com riffs que parecem enferrujados pela própria podridão que evocam. A produção é crua, sufocante, quase opressiva, como se cada camada sonora estivesse a empurrar o ouvinte ainda mais fundo nesse purgatório sonoro.

Não há momentos de alívio. Não há concessões. “Ciclo Infernal” é uma experiência extrema do início ao fim, pensada para quem procura precisamente isso, algo que vá além do entretenimento e entre no território da confrontação pura. Este não é um disco para todos. Nem quer ser. Mas dentro do underground, é exatamente este tipo de lançamento que mantém a chama acesa. Brutal, honesto e absolutamente sem filtros e eu cada vez mais começo a gostar disto!

 

Nox Infernum – “Maledictum Noctis
Prophetical Productions

Há criadores que seguem fórmulas, e depois há aqueles que constroem mundos inteiros a partir da própria visão. Em Nox Infernum, o nome de Melkor surge, mais uma vez, não apenas como músico, mas como arquiteto absoluto de um universo sonoro onde cada detalhe respira intenção, identidade e uma entrega quase obsessiva à arte. Eu acho que Melkor, aparentemente acorda de manhã, decide abrir um portal para o abismo e trata de fazer tudo sozinho, da primeira nota até ao último detalhe visual. Aqui, isso fica mais do que claro. “Maledictum Noctis” não é apenas um álbum, é praticamente uma obra artesanal de escuridão… feita por um só homem, sem pedir ajuda a ninguém, nem sequer à luz do dia.

E isto não é só aquela conversa bonita de “one-man band”. Aqui sente-se mesmo o controlo absoluto. Composição, gravação, produção, letras, mistura, masterização, artwork… se faltasse cozinhar o jantar durante as sessões, provavelmente também era ele a tratar disso. E o mais impressionante é que nada soa improvisado ou perdido. Pelo contrário, tudo encaixa com uma precisão quase cirúrgica. Musicalmente, “Maledictum Noctis” mergulha de cabeça no black metal mais cru, mas com aquele toque pessoal que evita cair na simples repetição de fórmulas. As guitarras rasgam com intenção, a bateria cai como um martelo constante e os teclados surgem a envolver tudo numa aura ritualística que dá ao disco uma dimensão quase cinematográfica. Não é só peso, é ambiente, é construção, é narrativa.

E depois há a escrita. Porque Melkor não se limita a criar som, também constrói o universo onde ele vive. As letras puxam o ouvinte para um território onde a redenção não entra sequer em discussão. Aqui celebra-se a queda, a noite, o profano. Mas sempre com uma coerência temática que liga todas as faixas, como se estivéssemos a percorrer um único ritual dividido em vários capítulos. O mais curioso é que, apesar de toda esta densidade e escuridão, há algo de fascinante na forma como tudo flui. O álbum não cansa, não dispersa. Pelo contrário, prende. É aquele tipo de trabalho que te faz pensar, “ok, isto foi mesmo pensado ao detalhe”.

No fim de contas, “Maledictum Noctis” confirma algo que já começa a ser evidente. Melkor não anda aqui a experimentar à sorte. Sabe exatamente o que quer fazer e, mais importante, sabe como o fazer. E quando alguém consegue juntar talento musical, visão criativa e uma ética de trabalho destas, o resultado só pode ser isto, um disco que se impõe com personalidade e que merece ser ouvido com atenção. Respeito total. Mesmo quando o convite é para descer ao inferno.


 

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