Rock Zone Reviews – Black Majesty, Margantha, Visions Of Atlantis, Celestial Wizard
Rock Zone é um programa de rádio na Rádio Alta Tensão e na Songs For The Deaf Radio da autoria de Miguel Correia e todos os meses, estes são os seus destaques.
Black Majesty – “Oceans Black”
Scarlet Records
Os veteranos australianos Black Majesty estão de regresso com “Oceans of Black”, o seu sétimo álbum de estúdio — uma proposta de power metal clássico que, embora fiel às raízes do género, revela tanto momentos de brilho como sinais de desgaste. Conhecidos pela sua combinação de vocais melódicos, ganchos memoráveis e a tradicional “twin axe attack”, os Black Majesty continuam a honrar o código do power metal tradicional. Ao longo dos anos, a banda construiu um legado respeitado com álbuns como “Silent Company“ (2005), considerado por muitos como um dos pontos altos do género na cena australiana. Mas o tempo passou, e “Oceans of Black” é, simultaneamente, um lembrete de talento e uma amostra das suas limitações atuais. Este novo trabalho propõe-se como uma jornada épica através de temas como o medo, a corrupção, a esperança e a superação. E há momentos em que essa ambição se concretiza — sobretudo nos solos arrebatadores de Hanny Mohammed e do novo guitarrista Clinton Bidie, que injetam vitalidade e intensidade a faixas como “Raven” ou “Lucifer”. Nestes momentos, o álbum atinge o fulgor que os fãs esperam.
Contudo, o impacto geral sofre com a falta de variação e com a previsibilidade da estrutura das canções. A maioria das faixas mantém-se dentro da fórmula segura, mas algo estagnada, de riffs rápidos, refrões potentes e secções rítmicas sem grande ousadia. O problema não é a fidelidade ao género — é a ausência de frescura. Músicas como “Dragonlord” e “Set Stone on Fire” seguem uma fórmula tão conhecida que acabam por se diluir numa audição mais atenta, sem grande capacidade de surpreender. A performance vocal de John Cavaliere, embora competente, mostra sinais claros da passagem do tempo. A sua entrega, outrora vibrante e com alcance impressionante, parece agora mais contida e limitada. A banda, por sua vez, mantém o instrumental a alta velocidade, sem ajustar verdadeiramente a dinâmica para acompanhar essa nova realidade vocal — o que causa um certo desalinhamento na energia de algumas faixas. A produção sonora é sólida, como esperado, mas a escolha da arte da capa — com uma abordagem pirata que roça o kitsch — poderá afastar quem espera uma estética mais sóbria ou épica. É um detalhe, mas que, conjugado com a falta de identidade sonora clara, levanta dúvidas sobre a direção criativa da banda neste novo ciclo.
“Oceans of Black” mostra os Black Majesty ainda com vontade de fazer parte do jogo — e com talento suficiente para isso — mas também revela as dificuldades de manter o mesmo nível criativo depois de mais de duas décadas de carreira. Há bons momentos, principalmente nos solos de guitarra e em alguns refrões que resistem na memória, mas o conjunto peca por falta de variação e pela sensação de que já ouvimos tudo isto antes… e melhor. Para fãs de power metal tradicional, este é um regresso que vale a pena ouvir, ainda que com expectativas moderadas. Para os seguidores de longa data da banda, será uma entrada sólida no catálogo, mesmo que longe dos seus melhores dias. E para novos ouvintes, talvez o ponto de partida continue a ser “Silent Company”.
Margantha – “Blood Moon Sacrifice”
Rockshot Records
Enraizado no mito, no medo e no ritual, “Blood Moon Sacrifice” marca a estreia oficial dos Margantha, um trio ítalo-finlandês que surge como uma entidade nova, mas inquietantemente familiar, no universo do black metal contemporâneo. Este EP não é apenas uma coleção de temas — é uma narrativa envolvente e densa, inspirada por um conto antigo de terror: o surgimento de um lobisomem que assombra uma aldeia isolada sob uma cordilheira remota. Cada faixa funciona como um capítulo de uma ópera negra, onde a música, as letras e a atmosfera se fundem numa história sobre maldição, desespero e sobrevivência. Com uma atenção meticulosa ao detalhe e um apurado sentido narrativo, Margantha criam não só um registo musical, mas uma experiência imersiva — quase cinematográfica. O tema de abertura, “Blood Moon Sacrifice”, estabelece desde os primeiros compassos um tom sombrio e cerimonial, com uma cadência que remete a uma valsa perversa em plena floresta ancestral. É o momento em que o protagonista, durante uma caçada solitária, se vê enredado por um destino maldito. Os interlúdios instrumentais de baixo e bateria intensificam a tensão, como se estivéssemos a assistir a um pesadelo folclórico em tempo real. Segue-se “Wolves at the Door”, onde a criatura se aproxima da aldeia. Longe de ser um ataque coletivo, é um predador solitário e ancestral que dá corpo ao medo primordial. A composição equilibra agressividade blackened com melodia e velocidade típicas do death metal melódico, sempre com um sentido de dinâmica e espaço que evita excessos técnicos e privilegia a atmosfera.
“Miriam and the Endless Night” (com a colaboração especial de Andy LaRocque, dos King Diamond) muda de perspectiva e mergulha-nos na mente de uma vítima — uma mulher presa numa noite interminável de terror. A faixa inicia-se com harmonias dissonantes e pouco ortodoxas, que se desdobram num redemoinho de violência rítmica. O solo de LaRocque surge como um grito dentro do caos, fundindo luxúria sanguinária com desespero.A viagem termina com “Curse of the Full Moon”, uma balada negra em 6/8, hipnótica e ritualística. É aqui que se dá a transformação final do protagonista — um colapso físico e espiritual traduzido em riffs lentos, harmonias obsessivas e uma entrega vocal primal. Esta faixa sintetiza tudo aquilo que Margantha representam: a fusão entre o horror ancestral e a ferocidade controlada do black metal moderno. Produzido, misturado e masterizado por Andy LaRocque no Sonic Train Studio, o EP soa poderoso, preciso e envolto em sombras. A produção respeita a crueza necessária ao género, sem sacrificar clareza ou impacto. Cada escolha estrutural, cada alteração de tempo, cada camada atmosférica serve o enredo — não há aqui espaço para exibicionismos técnicos vazios. Musicalmente, os Margantha citam influências como Mgła, Gaerea, Uada, Behemoth e Celtic Frost, mas não as replicam — incorporam-nas no ADN dos riffs, nas dinâmicas e na agressividade vocal. A sua abordagem não é de competição com os grandes nomes do género, mas de construção de um espaço próprio, onde o controlo e a tensão pesam mais do que a velocidade ou a violência gratuita. Com “Blood Moon Sacrifice”, a banda esculpe a sua marca num labirinto negro em constante mutação. Teatrais sem serem exagerados, conceptualmente sólidos e musicalmente intensos, este EP é um primeiro capítulo impressionante — um pesadelo folclórico com carne, osso e sangue.
Visions Of Atlantis – “Armada: Live Over Europe”
Scarlet Records
Depois de um 2024 absolutamente triunfante, os Visions of Atlantis continuam a navegar em marés de sucesso com o lançamento de “Armada: Live Over Europe”, um registo ao vivo que pretende capturar a energia intensa e o espetáculo visual que têm marcado a digressão europeia da banda. Este lançamento digital — dividido em várias partes e culminando num álbum ao vivo completo — é, simultaneamente, uma celebração do seu último álbum de estúdio, “Pirates II – Armada”, e um presente para os fãs que não puderam estar presentes nos concertos. Com um alinhamento que privilegia os temas mais recentes da banda, este registo ao vivo é uma extensão natural do universo temático que os austríacos vêm a construir desde “Pirates” (2022). As canções, quase todas extraídas dos dois últimos discos, ganham aqui nova vida. Há uma sensação constante de teatralidade e intensidade, onde a dupla vocal Clémentine Delauney e Michele Guaitoli brilha com carisma, técnica e paixão. A performance em “Hellfire”, gravada ao vivo em Pratteln, é disso exemplo — explosiva, carregada de intenção e com um solo de guitarra visceral que arranca aplausos só de se ouvir. A secção rítmica liderada por Thomas Caser dá corpo a este espetáculo marítimo, enquanto Christian Douscha e Herbert Glos completam o arsenal sonoro com peso e precisão. Visualmente, mesmo através dos vídeos disponibilizados, sente-se a dimensão épica do espetáculo: luzes, cenários e o típico ambiente “pirata” tornam a experiência ainda mais imersiva.
No entanto, apesar da força da performance e da produção cuidada, o álbum levanta algumas questões pertinentes. Por um lado, é o quarto álbum ao vivo da banda nos últimos seis anos — e embora a qualidade esteja lá, a proposta começa a soar repetitiva, sobretudo porque seis faixas já tinham sido incluídas no anterior “Pirates Over Wacken”. Além disso, o alinhamento aposta quase exclusivamente nos álbuns mais recentes, com 18 das 19 faixas oriundas de “Pirates” e “Pirates II – Armada”, deixando de fora grande parte do repertório mais antigo e potencialmente diversificando menos do que seria desejável para fãs de longa data. A única exceção é “Heroes of the Dawn”, uma inclusão curiosa e deslocada do resto da narrativa pirata que domina o alinhamento. Do ponto de vista sonoro, “Armada: Live Over Europe“ não sofre de “excesso de estúdio” — algo que arruína muitos álbuns ao vivo. Aqui, ouve-se o público, os momentos de improviso, os pequenos erros humanos que tornam um concerto real. Isso é louvável e aproxima o ouvinte da experiência do palco. Temas como “Master the Hurricane”, “Clocks” ou “Where the Sky and Ocean Blend” ganham um novo fulgor nesta versão ao vivo, e até faixas menos impactantes na versão de estúdio como “The Dead of the Sea” acabam por se revelar mais convincentes em palco.
Mas há que dar mérito onde ele é devido, o disco soa bem, tem alma, tem energia, e cumpre com o propósito de imortalizar um momento alto da carreira dos Visions of Atlantis. Os fãs mais recentes encontrarão aqui uma porta de entrada vibrante e acessível ao universo da banda. Já os seguidores mais antigos poderão sentir falta de alguma variedade, mas dificilmente ficarão desiludidos com a qualidade da performance. No final, os Visions of Atlantis provam que, mesmo em águas familiares, conseguem manter o leme firme e continuar a conduzir a sua embarcação musical com alma, rigor e um espetáculo visual que não tem paralelo no symphonic metal atual.
Stygian Fair – “The Hidden Realm”
Rockshots Records
Longe de modas passageiras ou produções excessivamente polidas, os Stygian Fair continuam a trilhar um caminho próprio no heavy metal europeu, abraçando um som que alia a dureza épica ao detalhe melódico, com uma vertente progressiva que nunca sacrifica a emoção em nome da técnica. “The Hidden Realm”, a ser lançado pela Rockshots Records, é o reflexo de uma banda que evoluiu sem perder a sua essência: direta, humana e brutalmente autêntica. O álbum é composto por 11 temas e apresenta-se como uma jornada emocional e conceptual que atravessa mitos antigos, caos moderno, tecnologia descontrolada, culto político e desespero existencial. Cada faixa é uma peça de um puzzle lírico e musical que aborda tanto o presente como o intemporal — uma reflexão sobre tudo aquilo que enterramos, ignoramos ou fingimos não ver. Logo a abrir, a faixa-título “The Hidden Realm” impõe-se com um riff thrashy e uma letra que alerta para os perigos de brincar com forças além da compreensão. “Look Into the Well” convida à introspeção e à dúvida sobre o que é real, enquanto “Peel the Layers Off” é o produto puro da sala de ensaios — espontâneo, mutável, orgânico. “What You’re Fighting For” veste um conceito de ficção científica com riffs clássicos de heavy metal, e “Meteor” carrega o peso do fim dos tempos numa estrutura repetitiva e hipnótica. Já “Anthem of the Lost” e “Rise from the Shadows” funcionam como um díptico emocional sobre o consumo desenfreado e a possibilidade de redenção.
Em “All Of Us”, a banda abranda, sem perder força. É um tema contido e doloroso, com melodias assombradas e uma entrega vocal que transmite vulnerabilidade e introspeção — um momento de pausa antes do recomeço. O encerramento com “The Fervor of Fools” deixa o ouvinte num limbo inquietante, alertando para os perigos da tecnologia desenfreada e a impossibilidade de voltar atrás depois de abrir a caixa de Pandora. Há uma beleza crua neste novo disco. Não há máscaras, backing tracks ou teatralidades — apenas quatro músicos escandinavos com raízes profundas na cena underground, a fazer música que soa real, pesada e emocionalmente carregada. Os Stygian Fair não procuram perfeição, mas sim propósito. Tocam o que sentem, escrevem o que os move, e entregam-se com uma honestidade que é, por si só, revolucionária. O disco soa como uma espécie de catarse coletiva. É música como terapia, como libertação — não só para quem a faz, mas para quem a ouve. Não é um álbum para consumo rápido, mas sim para regressos repetidos, cada audição revelando mais uma camada oculta, mais uma mensagem soterrada.
Celestial Wizard – “Regenesis”
Scarlet Records
Oriundos de Denver, no Colorado, os Celestial Wizard surgiram em 2018 como uma força nova, e rapidamente se tornaram uma referência na cena underground norte-americana. “Regenesis”, o seu terceiro álbum de estúdio, marca um ponto de viragem: é um disco vibrante, épico e cheio de nuances que consolida a identidade híbrida do grupo — uma fusão entre o power metal melódico, o death metal sueco da era “Heartwork” e um toque de thrash moderno. Produzido em parceria com Nick Nodurft nos estúdios Rusty Sun Audio, o álbum apresenta um som limpo e robusto, sem sacrificar a crueza necessária ao impacto emocional. A arte da capa, assinada por Dan Goldsworthy (conhecido pelos seus trabalhos com Alestorm, Gloryhammer e Orden Ogan), reforça a dimensão conceptual do disco — um verdadeiro renascimento artístico, como o nome sugere. Musicalmente, “Regenesis” apresenta uma amplitude dinâmica notável. Da abertura instrumental “Muerte”, com tons de western crepuscular e ecos de Ennio Morricone, até ao fecho grandioso com a faixa-título “Regenesis”, o álbum guia-nos por uma viagem através de paisagens áridas, confrontos internos e epopeias cósmicas. Em “Pale Horse” sentimos o desespero de um foragido metafórico que enfrenta a morte e a redenção. Já em “Ride With Fire”, os riffs típicos do power metal encontram um novo brilho, alimentados por vocais agressivos e estruturas inesperadas.
“She Is The Blade” destaca-se, não apenas pela sua estrutura acessível e melodia contagiante, mas pelo contraste entre a dureza instrumental e a sensibilidade lírica. O mesmo se pode dizer de “Into the Abyss”, um tema que parece saído do cruzamento entre Children of Bodom e Carcass, mas com uma assinatura própria. É talvez o tema mais marcante do álbum, com riffs intensos, solos que cortam como navalhas e uma energia explosiva que nos obriga a repetir a audição. A performance vocal alterna entre o gutural poderoso de Amethyst Noir e os registos mais limpos e épicos de Nick Daggers, criando um jogo de tensão que se reflete em toda a estrutura do álbum. As guitarras de Daggers e William Perkins demonstram uma fluidez e precisão notáveis, com solos que não estão lá apenas para impressionar — servem sempre a canção. A secção rítmica, composta por Soren Bray no baixo e Tom Gillman na bateria, mantém tudo coeso com um groove apertado e eficaz. “Regenesis” é também um álbum tematicamente rico. As letras abordam desde o renascimento espiritual e existencial, até críticas subtis ao culto da tecnologia, à alienação do consumo e à decadência política contemporânea. Mas não se limitam ao presente — há espaço para lendas antigas, westerns metafóricos e paisagens intergalácticas. Tudo isto sem soar forçado, numa escrita lírica que privilegia a emoção à moralização.
No entanto a versatilidade deste trabalho pode levantar uma questão válida: será demasiado death metal para os fãs de power? Ou demasiado melódico e estruturado para os puristas do death? A verdade é que os Celestial Wizard não se encaixam confortavelmente em nenhuma etiqueta — e é exatamente isso que os torna tão interessantes. Em vez de procurar agradar a públicos específicos, a banda escolhe criar música honesta, pesada e emocionalmente impactante, num disco tecnicamente bem executado, com alma, e que convida à reflexão e à catarse. É sobre reconstrução, aceitação e transformação. E num tempo em que tantos projetos soam formatados, Celestial Wizard provam que ainda há espaço para ousar, arriscar e, acima de tudo, ser autêntico.
