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WOM Cartas de Vinil – É O Corona!

Por Rosa Soares

Tenho uma certa dificuldade em compreender os portugueses… tenho mesmo.

É triste, mas somos um povo que não consegue sair do fatalismo e do pessimismo do fado. O que me faz escrever esta Carta de Vinil é o vídeo “É o Corona”, que juntou 38 músicos do heavy metal português e fez um vídeo durante este período de isolamento social que vivemos, e que nos afasta, fisicamente, uns dos outros. Até aqui, nada de novo…  outros países também já o fizeram, nomeadamente Espanha, que teve várias iniciativas semelhantes, com músicos dos mais variados estilos musicais.

O vídeo foi alvo de comentários em vários meios de comunicação social, incluindo a sua passagem na televisão da cidade de Ceuta. E, em vez de nos orgulharmos com isso, decidimos o quê? Lamentar! Lamentar que a TV portuguesa não passe o que a espanhola passou, lamentarmos que os nossos músicos fiquem conhecidos para muita gente com este vídeo e não pela música que fazemos músicos intervenientes, que o Miguel Esteves Cardoso faça um “mea culpa” sobre o seu desconhecimento de tão bons músicos, porque preferimos que ele continue a desconhecer, uma vez que “é um beto” e não queremos ser conhecidos/reconhecidos por betos.

É triste que assim seja. É triste que se continue a focar o menos positivo em detrimento de uma valorização do positivo que tudo isto tem. E é triste porque é precisamente esta atitude que não nos deixa sair da cepa torta, que nos condena a sermos sempre os maiores “lá da nossa rua”. O vídeo passou nas televisões de Ceuta, porque alguém o levou até lá! Por cá, até temos malta de bandas e ligados “à cena do metal” a trabalhar nas nossas televisões, o que à partida até poderia facilitar o acesso…  mas não, nós não fazemos isso, nós vivemos cada um na sua quinta. Vou lá agora pedir a alguém para passar este vídeo na TV, não, não vou dar a cara, depois fico a dever favores… em Ceuta, alguém deu a cara por nós! E o que fazemos? Agradecemos? Não! Queixamo-nos porque eles passaram o vídeo e as televisões portuguesas não!

Um amigo meu, espanhol, ao ver o vídeo perguntou-me sobre um determinado vocalista: era o Rui Duarte, dos Ramp. Gostou muito da voz dele e como desconhecia a banda eu enviei-lhe uns vídeos. Resultado: mais um fã dos Ramp e até os partilha no seu perfil pessoal de facebook. Ficamos contentes com situações destas? Não! Lamentamos que os nossos músicos fiquem conhecidos através “deste vídeo”.

E, o que mais me aborrece, é que este tipo de críticas e lamentos, são a desvalorização de todo um trabalho de quem está por detrás deste vídeo. Quando se lamenta ficar conhecido por “este vídeo”, expressa-se falta de humildade e de reconhecimento, mesmo que sem intenção.

Já é tempo de começarmos a valorizar o que se faz, a dar visibilidade ao que se tem, em vez de ficarmos eternamente agarrados ao que podia ter sido ou acontecido. Quando somos o próprio bloqueio do nosso crescimento, por pré-conceitos desactualizados que nos fazem cair na arrogância de não valorizar o que é feito, perdemos toda a legitimidade de o exigir aos outros.

Tudo se resume a querermos ver o copo meio cheio ou meio vazio. E o “É o Corona” está genial! É um copo cheio de alegria, boa disposição, bons músicos e atitude!


 

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