WOM Entrevista – Attick Demons – Exclusivo!

Os Attick Demons são uma banda de referência no heavy metal. Após um ano pouco activo, no que respeita a actuações ao vivo, avizinha-se alguns concertos: Porto, Lisboa, Madrid e Ceuta. A banda está também em fase de composição, e promete novo álbum para 2019. A acrescentar a tudo isto, está o lançamento das cervejas Attick Demons: “Ghost” e “Dark Angel”, tema de que falaremos num outro artigo.  Por todos estes motivos, a World of Metal tem, em exclusivo, uma mega entrevista, feita a todos os elementos da banda (Artur Almeida – voz; João Nabais Clemente – baixo; Luís Figueira – guitarra; Nuno Martins – guitarra; Ricardo Oliveira – bateria), onde se fala do passado, do presente e do futuro. A não perder. – Por Rosa Soares – Fotos por Sónia Ferreira, Cameraman Metálico e Rui M. Leal

Artur, vamos começar por ti. Como é que surge esta tua vocação para o canto? Quando é que começaste a cantar?

Artur – A vocação para o canto surgiu quando, num certo dia, me levanto da cama e, ainda a dormir, mando uma cacetada com o dedo mindinho do pé na esquina do roupeiro. Foi aí que, ao acordar a família toda com um falsete de dor, reparei que iria ter uma carreira de unhas dos pés partidas e escoriações no corpo. Mas, tirando a história acima, foi basicamente no duche que comecei a cantar: músicas principalmente da banda que eu adoro, AC/DC, influenciado pelo vinil que o meu irmão tinha (“If You Want Blood You’ve Got It”), o primeiro albúm de AC/DC ao vivo, e mais tarde Manowar. Mais a sério… foi nos Bombeiros voluntários que tudo começou. Eu fazia equipa com um motorista de uma ambulância  (Nuno Estevão) e o chefe de viatura (João Abrantes) e, nesse dia fomos destacados para um serviço, ao Aeroporto de Lisboa, que consistia em tirar uma doente de um avião da TAP e mudá-la para um da British Airways (a senhora era Escocesa). Depois das devidas autorizações, tirámos a senhora do avião da TAP e, como ainda não estava lá o outro avião, permanecemos com ela na ambulância durante cerca de uma hora à espera que o avião chegasse. A senhora já com uma certa idade e com um sorriso muito simpático fazia-se acompanhar de uma enfermeira. Aquilo para mim estava a fazer-me tanta confusão (tudo calado na viatura) e muito sérios! Foi quando tomei a decisão de começar a cantar uma música Irlandesa que tinha aprendido na escola. Ficou tudo com cara de caso, a olhar para mim e a pensar “coitadinho, é maluco!”  Foi quando o chefe diz para o motorista “Foda-se, o Artur já está a fazer merda”. Foi quando a doente e a enfermeira começaram a acompanhar-me com palmas e sorrisos. A partir daí desbloqueámos aquela postura que tínhamos, e foi pura diversão até vir o avião da British. A senhora agradeceu o tempo passado connosco (até porque naquela altura já o motorista e o chefe se riam e batiam palmas também).  Depois disso, quando regressávamos ao quartel, o motorista diz que o irmão dele tocava numa banda, e estavam à procura de um vocalista. Combinámos então uma noite de piquete em que estivéssemos juntos, e foi aí que conheci o Miguel Ângelo (o primeiro baixista dos Attick Demons)…. O resto vocês já sabem 😉

A tua voz é uma voz muito característica, com um timbre muito próprio e quem já te ouviu ao vivo sabe que ela é assim, naturalmente, sem esforço. Tens alguns cuidados especiais com a voz?

Artur – Apesar de gostar de cerveja, nunca bebo quando é altura de concertos e gravações (aprendi com erros que cometi no passado), pois tenho que estar bem para o espetáculo. Beber bebidas frescas arruinam completamente a voz em notas mais altas, e isso nota-se muito! Já basta estar rouco, quando às vezes apanho aqueles resfriados de mudanças bruscas de temperatura, que é o suficiente para arruinar um espetáculo. .. Quando não se canta não se liga a isso, mas sendo vocalista temos que ter cuidado e basta uma má prestação para te apontarem o dedo. Voltando aos cuidados: agasalho-me (roupas mais quentes e cachecol se for necessário) e o fantástico chá de perpétua roxa que, como é arroxeado, já me perguntaram se estava a beber petróleo. Respondi que sim, a brincar, mas pareceu-me que a pessoa acreditou. Antes de qualquer espetáculo convém também aquecer a voz meia hora antes. E o belo do shot. 🙂

João, como começou este teu percurso de músico. O baixo sempre foi o teu instrumento de eleição?

João – Bem… deve ter começado como a maior parte da malta… a tocar com os amigos… Um tinha uma viola e lá íamos todos para casa do Marco tocar, enquanto dava o DragonBall. Éramos quatro putos a querer aprender a tocar, os outros três foram para a Guitarra, eu como sempre fui do contra, achei que o Baixo iria ser muito mais interessante. …e lá fomos os quatro ter aulas… Aprendi imenso com essa malta… sempre que me lembro destes tempos tenho um sorriso para dar!

Nuno, é a tua vez de nos contares como é que nasceu este teu gosto pela música e pela guitarra? Com que idade começaste a tocar?

Nuno – O gosto pela música começou bem cedo graças ao meu irmão, mais velho que eu 5 anos. Nessa altura eu ouvia as bandas que ele seguia e que acabava por comprar cassetes, vinil e posteriormente CD’s. Tinha um gosto bastante variado (Faith No More, Red Hot Chili Peppers, Guns ‘n’ Roses, Soundgarden, Iron Maiden, Helloween, Metallica, etc.), mas onde já integrava bandas da NWOBHM. Aprendi a tocar guitarra sempre de uma forma autodidacta e iniciei este “hobby” junto de amigos por onde íamos partilhando umas violas e aprendíamos uns com os outros a tocar alguns riffs. Penso que tudo terá começado por volta dos meus 12 anos de idade. Mas foi um ou dois anos mais tarde, quando um amigo meu me mostrou o álbum “Passion and Warfare” do Steve Vai, que se deu o grande click! Foi aí que cravei os meus avós para me comprarem a primeira guitarra eléctrica: uma JACKSON performer PS-2 (que ainda a possuo… está ao meu lado, num suporte, enquanto escrevo estas palavras).

Actualmente, és o único elemento que está na banda desde a sua fundação. O que é que te move, após todos estes anos?

Nuno – Move-me agora o que sempre me moveu desde o início. O gosto pela música, de uma forma geral e, neste caso em particular, pelo Heavy Metal, a amizade que vamos criando com os restantes membros da banda e o por fim, o gosto de tocar ao vivo e de todo o processo de composição e gravação e ver o resultado final. Paralelamente aos Attick Demons fui tendo projectos de covers e não tem nada a haver uma coisa com a outra. Não estou a dizer que é melhor ou pior… mas criar uma coisa nossa, com o nosso cunho, é diferente.

Ricardo, quando é que começaste a tocar bateria e porquê bateria e não outro instrumento qualquer?

Ricardo – Comecei com experiências em teclados e guitarra, o que se calhar me ajudou a ter uma melhor noção de melodia. Mas não escolhi a bateria, ela escolheu-me… Aquele riff do “One” dos 4:20 aos 5:20 mudou-me a vida. Melhor riff metal da história. Ponto!

E tu Luís, queres contar-nos como tudo começou? Julgo haver alguma “culpa” de uma cassete dos Iron Maiden e de um walkman…

Luís – Sim, é verdade. Foi um Walkman oferecido pela minha avó e uma cassete original do álbum “Killers” oferecido pela madrinha do meu irmão, quando passei para a segunda classe, que provocaram uma revolução nos meus gostos musicais. Para um miúdo de sete anos foi um abanão!!! Moldou a minha vida, definitivamente.

Ricardo, tu foste o último elemento a entrar para os Attick Demons. Como é que foi entrar numa banda já consolidada, com uma identidade e um som já bem definidos?

Ricardo – Quando fui convidado, a banda estava tudo menos consolidada, pelo menos foi o que senti naquele meu primeiro encontro com o Artur e o Luís. Vinham de um período bastante atribulado com algumas saídas, nomeadamente do baterista anterior. A primeira reunião denotava vontade de reavivar a banda, apesar de eu notar que havia problemas ainda por resolver. Quanto à banda e sua história, mentiria se dissesse que era um profundo conhecedor do seu som, embora já tivesse ouvido, claro. Engraçado dizeres que a sonoridade da banda já estava bem definida, porque na minha opinião a banda ainda procura (e ainda bem que assim é!) o seu próprio som. Se no “Atlantis” eram os “Iron Maiden portugueses”, o “Let’s Raise Hell” já não me parece de todo que assim seja. E o novo álbum ainda vai ser mais diferente, embora claro, se consiga identificar certos traços de ligação entre eles.

Artur, tu és o frontman dos Attick Demons. Qual é a sensação de estar em cima do palco e ouvir todo o público a cantar contigo, a corresponder-te naqueles momentos em que tu “puxas” pela audiência, em que banda e público se fundem?

Artur – Não consigo explicar por palavras aquilo que sinto, porque é um misto de emoções. Basicamente é isto: Para mim são todos meus irmãos e irmãs que estão a assistir a um ensaio nosso num mega estúdio e só temos que agradecer de coração ao nosso querido público que nos apoia, pois sem eles nós não somos ninguém.

 Em palco, interages com todos os outros elementos, permites que os instrumentos tenham o seu espaço, sendo habitual ver-te sair de cena durante as partes instrumentais e solos de guitarra. Estes gestos, para além de revelarem um enorme respeito pelos restantes membros da banda, revelam uma forte ligação entre vós. Podemos dizer que os Attick Demons são uma banda de emoções, de afectos?

Artur – Sim. Quem nos conhece sabe que aquilo que transportamos para o palco é aquilo que somos fora dele. Nunca fomos posers (apesar de muitos pensarem que sim).
Quanto ao sair do palco só o faço porque tenho que beber água. Uma história curiosa: Aqui há uns anos, ouvi dizer que comentaram que eu ia “dar na coca!” Mais um mito que criaram sobre mim. Julgo que este mito surgiu num concerto, salvo erro, no antigo Paradise Garage em Lisboa, quando íamos abrir um concerto de Tarântula. Isto porque eu costumo sair e entrar frequentemente em palco na altura dos solos. Um senhor do público diz para o grupo que estava com ele: “Eu não vos disse, o vocalista saiu do palco para ir dar na coca, olhem como ele sai a correr lá de trás”. Eu soube isto porque estava uma amiga da banda que prontamente me defendeu e defendeu os Attick Demons. Terá dito: “Eles não dão na coca, são é malucos!”. Soube esta história porque ela me contou.

 Continuando a falar de “puxar” pela audiência, João, tu és um furacão em palco! Interages com o público, com os outros elementos da banda, estás sempre a puxar pela audiência. Onde vais buscar toda a tua energia?

João – Seria muito interessante responder que era da cocaína, mas não… Nos Attick Demons gostamos imenso de proporcionar concertos, que embora sérios, têm que ser cheios de energia. Temos imenso respeito pelo público que nos vai ver, e tentamos sempre que se divirtam tanto como nós. E a melhor maneira, é tentar transmitir energia e boa disposição. Limito-me a fazer o que gosto, para ajudar a banda a cumprir com estes objectivos.

 

A tua forma de estar em palco Ricardo, é muito interessante: transmites ao público o quanto gostas de estar ali, o prazer que sentes. É muito giro ver-te atrás da bateria, a percorrer com o olhar todos os outros elementos da banda, durante todo o concerto. Para além de tocares, tu também estás a ver o concerto. Esse teu contacto visual com os outros elementos é importante para ti, ou é algo natural e intuitivo?

Ricardo – Sabes, eu era daqueles que tocava para mim, curtia o gig à minha maneira. Vinham-me perguntar, no fim, se eu estava chateado e tudo. Com os anos fui-me apercebendo que quem vai ver um concerto não quer apenas ouvir a música, quer movimento, acção! Hoje em dia isso sai-me naturalmente, e já não consigo curtir da mesma forma se não o fizer.

Já tu, Nuno, és o elemento mais discreto da banda, mas em palco não passas, de todo, despercebido. O Nuno discreto do dia-a-dia precisa do Nuno em palco, para se libertar, ou o Nuno que dá tudo em palco, equilibra-se com o Nuno do dia-a-dia?

Nuno – Os dois acabam por se equilibrar… são realidades diferentes, logo são atitudes diferentes. A minha descrição sempre foi característica em mim, mas quando toco e tenho que libertar uma certa energia em palco ou composição, a adrenalina toma conta. 

O que é que mudou e o que é que permanece no Nuno de hoje, do Nuno do sótão da Rua de Santa Marta, onde tudo começou?

Nuno – O que mudou? 25 anos… (Risos)! E com isso outras responsabilidades… Família, emprego, etc… por vezes é uma luta conciliar tudo, mas lá tem sido possível. Penso que a característica mais evidente, que ainda permanece, é a forma como encaro a minha presença na música. Acima de tudo é para me divertir e me sentir realizado. Sem pressões para a direccionar para algum lado específico.

Luís, recuando aos tempos anteriores ao sótão, o teu percurso musical passa por um período punk, ou de influências punk, em que tocaste nos “Arame Farpado”. Queres falar um pouco dessa tua fase?

Luís – Sim, claro… (risos). Tinha acabado de aprender os primeiros acordes na guitarra e é obvio que queria começar a tocar alguma coisa. Conheci pessoal fixe e juntámo-nos para fazer uma banda. E todos gostávamos de punk, e eu era o que evidenciava mais o lado Metal. Uma vez o baixista disse-me que parecia Sex Pistols com solos de Pantera… (risos).

Quem são “as vozes” da tua vida, Artur?

Artur – As vozes da minha vida são a da minha mãe e a do meu pai. E, logo a seguir, Brian Johnson, Eric Adams, Bruce Dickinson, Michael Kiske, Rob Halford, Steve Perry e uma voz que nada tem haver com o Hard Rock e com o Heavy Metal mas era, sem dúvida alguma, um grande cantor, o Mr. Freddie Mercury.

Nuno, quem são os teus ídolos musicais, os músicos que te inspiram?

Nuno – Os ídolos são muitos… vão-se adicionando uns aos outros com o passar do tempo. Enquanto banda os Iron Maiden sempre foram uma grande influência em mim. Quando iniciei na guitarra, os guitarristas que mais idolatrava eram, principalmente, o Steve Vai, Joe Satriani, Malmsteen, Paul Gilbert, etc… Claro que também ouvia os clássicos: Brian May, Jimmy Page, Slash, Kiko Loureiro. Com o passar do tempo, e aumentando o meu leque musical, fui incluindo outros (muitos dos quais já não se encontram entre nós): Gary Moore, Joe Bonamassa, Jimmy Hendrix, Andy Timmons, …      

E por falar de ídolos, quem é que inspira o Ricardo Oliveira baterista? E quem é que inspira o Ricardo Oliveira?

Ricardo – Comecei a tocar aos 11 graças ao “… And Justice for All” de Metallica. Lars Ullrich, Vinnie Paul (R.I.P.) e Mike Portnoy foram as minhas primeiras influências. Depois veio uma lista de nomes como Raymond Herrera de Fear Factory, Nicholas Barker de Cradle e Dimmu Borgir, Jason Rullo de Symphony X e Nicko McBrain de Iron Maiden. Todos eles me moldaram naqueles anos iniciais. Mas a minha lista seria gigante demais para por aqui. Quanto a quem inspira o Ricardo Oliveira? Nenhum baterista, tudo guitarristas. Sou mega fã de John Petrucci, Steve Vai, David Gilmour ( a.k.a. DEUS!!!!! ) e Gary Moore. Enfim, não é de espantar, uma vez que cresci no meio de guitarras a ouvir o meu irmão que é guitarrista. Percebo mais de guitarras e afins do que 80% dos guitarristas que eu conheço! (risos)

Para além de músico, Ricardo, tu és fã de música. Tanto te encontramos a tocar no palco de Vagos, como no público desse mesmo festival. Como é estar do lado de cá, do lado do fã? Vives o momento como qualquer fã ou o teu conhecimento musical interfere e estás, por exemplo a “estudar” o baterista?

Ricardo – Vou ser sempre fã, músico não sei o dia de amanhã! Sou um ávido comprador de álbuns, sempre que posso. Já tenho qualquer coisita como 300 cd’s originais, interessante, julgo eu. Quando vejo uma banda que curto mesmo muito, aprecio todos os músicos, não só a bateria. Claro que é normal os meus olhos e ouvidos focarem-se mais no gajo que tem o “best seat in the house”, sim, o baterista! Há dúvidas??

Falando um pouco dos vossos projectos paralelos: Ricardo, quando entraste para os Attick Demons, já tocavas numa banda, onde ainda te manténs. Como é que conjugas as duas bandas: ensaios, concertos, gravações, estúdios, é tudo a dobrar…

Ricardo – Faço parte de My Enchantment desde 2001. Embora não seja membro fundador, a banda nunca gravou nem tocou ao vivo com outro baterista. Conjugar mais que um projecto nunca foi problema. Para além de My Enchantment já toquei em Reset, (os actuais New Mecanica), Artworx, In the Flesh, Rockwave, Chaparro e Rasnatura band, RAD, e sempre fui fazendo umas “perninhas” como freelance com uma data de outras bandas. Tudo é a dobrar, sim, no que diz respeito a My Enchantment e Attick Demons. Ambas têm o seu próprio estúdio e eu tenho o material todo em duplicado, uma bateria em cada estúdio.

Já tu Artur, participaste em projectos internacionais – Marius Danielsen’s Legend of Valley Doom e Iron Mask. Com os Iron Mask chegaste a fazer uma digressão, na qual até há uma história bem engraçada, de teres sido reconhecido enquanto vocalista dos Attick Demons. No entanto, mesmo com este apelo do reconhecimento internacional, puseste sempre os Attick Demons em primeiro lugar. Tens noção que nem todos os vocalistas com o teu poder vocal e estas oportunidades, teriam tido a tua atitude?

Artur – A minha banda é e sempre foi os Attick Demons. Quando sou convidado para algum projecto internacional ou nacional, é sempre a primeira coisa que digo. Estou disponível para participar em projetos que considero interessantes, mas deixo sempre isso bem claro. Se isso não for problema, vamos lá com isso para a frente.

E tu, João, tocas numa banda de tributo aos Megadeth. No actual panorama musical, é mais fácil viver de uma banda de tributo / covers, do que de uma banda de originais? Porquê?

João – Eu diria que é muito mais fácil tocar ao vivo com uma banda de covers/tributo, pela simples razão que vais tocar músicas que todos conhecem. Sou apologista que um concerto de uma banda de originais tem que ser sempre algo especial. Ou musicalmente, ou visualmente, ou de outra maneira qualquer, um espectáculo de uma banda que está a apresentar algo criado por ela, tem que trazer sempre algo diferente e diferenciador. Nos Attick Demons tentamos sempre trazer algo novo para os concertos, ou é o backdrop que muda, ou o Artur que leva uma máscara, ou a Lillith dos Inner Blast canta connosco… Mesmo quando tocamos a meio de um festival e optamos por estar ali 40 ou 45 minutos a debitar músicas, sem muita conversa, tentamos que haja sempre algo que seja único.

Luís, tu tens histórias fantásticas, e não só no seio da banda. Lembro-me, por exemplo, de contares como ficaste fascinado com uma cassete que encontraste na rua, quando eras miúdo: Burn, dos Deep Purple. Hoje, o que e que ainda te fascina? O que é que o Luís, homem, adulto tem do miúdo que se deslumbrou com a cassete?

Luís – O Luís, homem, adulto e o Luís, miúdo que se deslumbrou com a cassete continuam a ser os mesmos. Considero-me uma pessoa cheia de sorte, conheço bem os meios em que me “movo”, com o tempo aprendi a afastar-me das pessoas e situações “tóxicas” mantendo próximos apenas os verdadeiros e positivos, e quando assim é, é fácil continuar a ter situações em que me deslumbro. Ainda há uns dias atrás estava em Madrid na festa do Mariskal (da revista La Heavy e da rádio Mariskal Rock) e deslumbrei-me várias vezes com o reconhecimento, com o apoio e com o carinho que somos recebidos cada vez que vou a Madrid. As pessoas não fazem ideia do quanto somos “grandes” em Espanha.

Enquanto vossa fã muito poderia dizer em relação ao serem “grandes”, mas enquanto entrevistadora tenho de manter a imparcialidade (risos)… Em relação a Espanha, a verdade é que “nuestros hermanos” vos recebem e acarinham de uma forma muito emotiva. E com salas cheias! Com o novo álbum a sair, pensam apostar mais a sério no mercado espanhol? Quem sabe, fazer uma tournée de promoção do novo trabalho?

Luís – Sim, é de facto um dos temas mais abordados quando estamos a definir estratégias para promover o próximo álbum. A não ser que haja uma grande reviravolta, é uma forte possibilidade.

Alemanha, Eslovénia, Espanha… estiveram presentes em festivais nos dois primeiros e em breve voltarão, pela terceira vez, ao país vizinho, onde têm concertos agendados. A vossa experiência no estrangeiro é de grandes palcos e de casas cheias. No seguimento da resposta do Luís, a internacionalização será uma aposta para o novo álbum?

João – Em Espanha, sem querer mentir, penso que já seja o sexto concerto dos Attick Demons, mas vá, detalhes à parte, a internacionalização é algo que teremos sempre como objectivo, mas sempre sem descorar os palcos e o mercado nacional, que tanto nos tem dado. Tal como em Portugal, felizmente que em Espanha também temos sido sempre recebidos com muito carinho, o que nos faz acreditar que ainda teremos muito para dar no país de “nuestros hermanos”. Isto de estarmos aqui neste cantinho da Europa, faz com que as deslocações ao resto da Europa tenham que ser encaradas de uma forma muito objectiva e pragmática, para tentar rentabilizar ao máximo cada oportunidade.

 João eu referi terceira vez e não terceiro concerto, mas estás desculpado (risos)… Luís, vamos fazer aqui um recuo de alguns anos e falar um pouco do vosso primeiro trabalho. Atlantis é o vosso primeiro LP, e descrito por várias pessoas como uma obra-prima. Na verdade, este álbum, que completa sete anos este mês, continua a fazer novos fãs e a deliciar os mais antigos. É um álbum intemporal. Como surgiu a ideia de fazer algo assim, no primeiro álbum?

Luís – Não foi feito de uma forma deliberada. Trabalhámos muito para que o nosso primeiro álbum se destacasse e não fosse apenas mais um álbum, de uma banda qualquer e continuamos a querer sempre fazer melhor. Ainda há pouco tempo me disseram que o Atlantis está entre os álbuns clássicos do Heavy Metal. Posso-te dizer que antes de te responder a esta entrevista, estive a organizar as gravações das músicas novas que vamos fazendo no nosso estúdio e fiquei a pensar que o terceiro álbum vai ser fantástico e tem tudo para ser uma obra-prima. Pessoalmente, acho que é o facto de os discos passarem o teste do tempo que os tornam clássicos.

João, como é que defines os Attick Demons de hoje em relação aos Attick Demons que lançavam o seu primeiro LP, “Atlantis” há sete anos atrás?

João – Pessoalmente, desde que estou nos Attick Demons (2004), sou da opinião que existiram três bandas distintas. A banda antes da gravação do Atlantis, que era uma banda muito à procura do seu espaço e de como se comportar em palco, tanto visual como musicalmente. Depois da gravação do Atlantis demos um salto qualitativo muito grande… subimos um degrau gigante… a meu ver, foi aí (peço desculpa pela imodéstia), que nos tornamos numa banda a ter em conta para qualquer tipo de concerto. Ficámos a perceber o nosso espaço e o que uma banda de Heavy-Metal deve fazer para poder proporcionar os tais concertos sérios, mas cheios de energia. Se depois do Atlantis subimos um degrau, depois disso fomos subindo rampas de uma forma mais gradual, e fomo-nos tornando naquilo que somos hoje, para o bem ou para mal… Somos uma banda muito mais estável e organizada e que, se por um lado ainda temos muito que aprender, por outro penso que ainda temos muito a dar ao Heavy-Metal e continuar a dar boas emoções a quem nos acompanha.

Como é que é trabalhar com grandes nomes internacionais, como Paul Di’Anno, Chris Caffery, Ross The Boss? Queres falar sobre isso Nuno?

Nuno – É como um sonho tornado real. Passar uma infância a ouvi-los nos discos das suas bandas e passado uns anos tê-los a tocar/cantar num disco nosso é simplesmente espetacular.  

Os Attick Demons estão a preparar um novo álbum de originais, o terceiro da banda, mas o primeiro contigo na bateria (gravaste o “Back to the Attick… Live”, mas esse não é um álbum de originais). Como é que estás a viver este momento, Ricardo?

Ricardo – Não é fácil! Tenho uma visão fresca da sonoridade, venho de fora, tento incorporar coisas novas e lutar contra alguns vícios! (hehehehe)! Mas as coisas estão a correr lindamente confesso, o processo vai bem adiantado. Para o ano vai estar cá fora tenho a certeza! 

A tua entrada nos Attick Demons veio trazer uma bateria mais rápida, mais heavy e mais forte à banda. Voltando ao álbum que estão a preparar, como é que isso vai influenciar o som dos Attick Demons?

Ricardo – Quem está de fora é que pode comentar. Eu tive e tenho o cuidado de respeitar o que foi gravado inicialmente. Quanto ao resto, vais ter que esperar para ver/ouvir! 😉

João, com já vimos, vocês estão em fase composição do novo álbum. Podes desvendar um pouco de como vai ser? Vai seguir a linha conceptual de Atlantis, os temas mais épicos de “Let’s Raise Hell”, ou vai ser algo completamente diferente?

João – A única certeza que tenho é que será um álbum dos Attick Demons, não nos vamos re-inventar e começar a fazer outro tipo de música qualquer. Somos o que somos, e fazemos a música que fazemos… se apesar do Atlantis ser mais fácil de ouvir e o Let’s Raise Hell mais pesado, penso que qualquer pessoa consegue identificar os dois álbuns como sendo da mesma banda. E agora não há-de ser diferente… Só pelo facto de termos o Ricardo na bateria, já é motivo para ter uma influência nova na composição. Mas… prometo que irá ser um álbum, cheio de melodias, de solos de guitarra e tudo o resto que caracteriza o Heavy Metal.

E como é que é o vosso processo de composição? É um processo feito em casa, individual e que depois todos complementam, ou é um processo de grupo?

João – Para quem acredita, só Deus sabe como saem músicas daquele estúdio… Somos cinco maduros, muito diferentes uns dos outros e com gostos e influências também muito diferentes. Uns têm mais jeito para fazer coisas em casa, outros mais jeito para compor em conjunto… enfim… Alguém leva uma ideia de casa, entra na “máquina de chouriços” dos Attick Demons e as músicas aparecem feitas… De resto é “só” ter respeito pelas opiniões uns dos outros, e gerir o ego de cada um para que a continuemos todos amigos, que no fundo é o mais importante.

Luís, muitas das letras das músicas dos Attick Demons são escritas por ti. Onde é que te inspiras, para escrever letras tão diferentes como “Ritual” ou “Meeting The Queen”?

Luís – Sabes, quando escrevo uma letra, adoro encarnar num personagem totalmente diferente, embora o traga para a minha realidade. Ou seja, acabo por usar muitas metáforas nas letras que escrevo. Hoje em dia, deixo mais essa tarefa para o Artur. Comecei a reparar que ele canta as letras que escreve de uma forma totalmente diferente em termos de feeling. É diferente estares a cantar uma letra escrita por ti, sobre algo que aconteceu contigo do que estares a cantar sobre algo que aconteceu com outra pessoa, por mais íntimo que seja.

Isso quer dizer que vamos deixar de ter letras escritas por ti?

Luís – Não necessariamente. No entanto, pessoalmente, gosto muito do que o Artur fez no “Let´s Raise Hell” e no que se está a preparar para fazer no novo álbum, onde vamos explorar novos caminhos… mas isso será surpresa. Se, entretanto, me surgir alguma ou algumas letras que sejam suficientemente boas, claro que as usaremos. Confesso que ultimamente é das coisas a que dou menos prioridade, tenho-me focado mais na parte musical.

Uma banda é muito mais do que se vê em palco. É algo que tem outros processos para lá da música: a gestão de tudo o que envolve uma banda, agendamentos, promoção, divulgação… Com 22 anos de carreira, os Attick Demons continuam, ainda, pouco conhecidos do público em geral, pouco falados na imprensa especializada, com a discografia ausente dos grandes escaparates de venda. Quais os principias motivos para que isso aconteça, Luís?

Luís – Tem existido ao longo dos anos várias barreiras que nos têm impedido de voar mais alto. Por exemplo, não temos distribuição em Portugal porque a nossa editora alemã pura e simplesmente não deixa. Estávamos presos por motivos contratuais. Felizmente o contrato era de dois álbuns e agora estamos livres para negociar com outras editoras ou até mesmo para editarmos nós próprios o terceiro álbum. Sentimos que nós próprios conseguíamos fazer muito mais do que a editora fez, tanto em termos de distribuição como em termos de promoção.

Vocês não têm manager, não têm ninguém que vos trate de marketing, de agendamentos, que procure oportunidades. Isso é tudo feito pela própria banda (o que hoje em dia é muito comum em várias bandas).   No entanto, houve um tempo em que tiveram manager… O que é que vos fez optar pelo modelo de gestão actual da banda – a auto-gestão? O tempo dedicado às questões burocráticas não vos retira tempo de banda, de músicos, de ensaios?

Luís – Sim, retira mesmo muito tempo, demasiado tempo até… mas o facto de não termos manager, dá-nos a certeza que fazemos o que todos queremos (democraticamente) e que o nome da banda não é “queimado” por terceiros. No entanto estamos sempre abertos á possibilidade de ter um manager, desde que sejam pessoas competentes e que saibam o que estão a fazer

Artur, os Attick Demons não estão presentes nas plataformas digitais, como o Spotify, por exemplo. É uma opção vossa? Qual a vossa opinião sobre essas plataformas, onde as pessoas têm acesso às músicas de forma gratuita ou a baixo preço, optando por não a comprarem em formato físico?

Artur – Os Attick Demons já estiveram no Spotify mas, por opção da editora, saímos. Estas novas plataformas são boas para dar a conhecer as milhares de bandas que existem por este mundo fora mas, por outro lado, é mau, porque ainda há muitas bandas apenas a sobreviver das vendas em formato físico.

 

Ainda sobre o mundo virtual, gostava de saber a tua opinião Nuno, sobre o seguinte:  vivemos num mundo onde as redes sociais aproximam as pessoas, onde os fãs podem falar com os seus ídolos.  Dantes tínhamos de ir aos concertos, se queríamos ver as nossas bandas, enquanto que hoje isso está à distância de um click. Achas que esta facilidade de comunicação, de acesso aos acontecimentos, afasta o público dos concertos?

Nuno – Não! De modo algum… A dinâmica e a adrenalina que um espetáculo ao vivo proporciona, não se consegue transmitir de outra forma. As redes sociais vieram aproximar os fãs às bandas e melhorar o acesso a informação, mas nada mais, a meu ver.

Os vossos concertos estão muito concentrados a Sul – Lisboa e arredores. Esporadicamente, têm concertos mais a Norte, mas a verdade é que, por exemplo, este ano, para além de Odemira onde participaram no Mira Fest, ainda não saíram da grande Lisboa, e ao Porto já não vão há uns dois anos. Artur, isso deve-se a questões logísticas, ao facto de o vosso público se concentrar na grande Lisboa ou a outros factores?

Artur – O nosso público não se concentra só em Lisboa. E, felizmente para nós, temos “demónios” espalhados por este Portugal fora. Penso que, por vezes atuamos mais em Lisboa por não termos tantos convites da parte dos promotores. Mas espero que a nossa ida, agora no dia 27 de Outubro ao Metalpoint ,no Porto, seja o príncipio de muitos. Preparem-se, pois vai ser uma noite demoníaca!

João, se os Attick Demons fossem convidados para ser banda de abertura da tournée europeia de uma banda como os Judas Priest, Helloween ou Scorpions (só para citar algumas), aceitavam? Como é que seria gerir isso, com a vossa vida pessoal e profissional (porque todos vocês têm trabalhos para além da música)?

João – Gosto de pensar que iriamos conseguir conciliar essa aventura com as nossas vidas pessoais e profissionais. Com toda a certeza iria exigir algum esforço da nossa parte e muita compreensão das nossas famílias, mas penso que conseguiríamos aproveitar essa oportunidade. Mas é daquelas coisas que só temos a certeza quando realmente passamos por elas…

 Apesar de todos os altos e baixos porque já passaram nestes anos todos de carreira, os Attick Demons sobreviveram e são hoje uma banda forte e coesa. Qual é o vosso segredo, Luís?

Luís – É muita diplomacia, muita paciência e acima de tudo, gosto por aquilo que fazemos. Não há segredos, apenas cinco pessoas extremamente teimosas que gostam de tocar Heavy Metal!(risos)

O heavy metal em Portugal, sempre se desenvolveu no meio mais underground, com uma visibilidade muito selectiva para apenas algumas bandas. Como vês esse meio actualmente, Nuno? O heavy metal ainda tem futuro em Portugal?

Nuno – Continuo a achar que existe uma forte presença no underground. No entanto, os fãs são muito leais às bandas e quem gosta segue as bandas e apoia-as. Também é verdade que ainda se constata o aparecer de bandas novas a toda a hora. O que me leva a querer que as gerações mais novas apoiam e vão fazer perdorar o heavy metal em Portugal.

E para terminarmos, uma última pergunta a cada um. Ricardo, queres partilhar connosco alguma situação divertida ou insólita que tenhas vivido na banda?

Ricardo – Insólito assim de repente não me ocorre nada, embora tenham sido surreais, sem dúvida, as nossas idas a Madrid, os fãs lá são qualquer coisa do outro mundo.  Mas os momentos passados entre os cinco, quando vamos de road trip para algum lado, esses sim são brutais!

Se pudesses voltar atrás, há alguma coisa que mudarias no percurso dos Attick Demons, João? Porquê?

João – Sou uma pessoa que raramente se arrepende do que faz… normalmente arrependo-me do que não fiz… Odeio olhar para trás e pensar que desperdicei uma oportunidade… Nos Attick Demons, claro que já deixamos passar algumas oportunidades e já tomamos opções, que no mínimo, foram questionáveis… mas a vida é mesmo assim… Não vale a pena lamentarmo-nos, não dá para fazer “Undo” à vida… pelo que, não sei se mudaria grande coisa…

Qual é a pergunta que nunca te fizeram e que gostarias que te fizessem Artur?

Artur – “Precisamos de um baterista para a nossa banda. Gostavas de tocar bateria?” 🙂

Nuno, onde é que vês os Attick Demons daqui a 10 anos?

Nuno – Vejo-nos no Otorrinolaringologista! Daqui a 10 anos vamos todos andar de aparelhos auditivos devido ao volume em que o João coloca o seu amplificador na sala de ensaio… LOL! Agora a sério… o futuro nunca se sabe… Penso que temos feito um bom trabalho ao longo destes anos, procurando cada vez mais reconhecimento nacional e internacional. Penso que de futuro vamos ter mais internacionalizações…  

Luís, qual o melhor e o pior momento que viveste nos Attick Demons?

Luís – Há vários momentos que nos marcaram pela positiva e vários pela negativa, são inevitáveis. Não consigo dizer apenas um de cada… hahaha. Os melhores são, sem dúvida, a emoção dos lançamentos de cada álbum, a adrenalina de cada concerto, tocar em Madrid e no Metaldays, na Eslovénia, foi fantástico, a forma como fomos apoiados, como cantavam as nossas músicas, etc… os piores momentos são, claramente, aqueles que ninguém fora da banda vê, são as discussões (que também são inevitáveis quando se quer levar a banda para a frente e tens cinco elementos com diferentes feitios e diferentes visões a ter opinião), as mudanças de line-up e as consequentes “guerras” que culminam com a mudança de elementos na banda. São as faltas de respeito por alguma imprensa do teu próprio país, e que basta ires para Espanha e és recebido e tratado com um rei, e onde és realmente reconhecido. Mas como costumo dizer… Para castigo de quem não gosta de nós, andaremos por cá muito mais tempo.


 

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