WOM Perfil – Marco Void

Poderão conhecê-lo das fileiras de duas bandas de black metal, os Invoke e mais recentemente Sonneillon BM. Marco Void é guitarrista e um nome presente e cativo no nosso underground nacional. Vamos ficar a conhecer o seu percurso no mundo da música e no underground nacional e também os seus principais objectivos, passando claro pela presente e difícil situação que estamos todos a atravessar.

 

Olá Marco e bem vindo à World Of Metal. Inevitavelmente tenho que começar por perguntar como se deu a tua entrada no mundo da música e já agora como e porque escolheste a guitarra como principal veículo de te expressares na música?

Olá a todos os seguidores e colaboradores da World of Metal. Antes de mais gostava de agradecer a oportunidade desta entrevista e expressar o meu apreço e carinho pelo trabalho incansável que a WoM tem desenvolvido no acompanhamento e divulgação do underground nacional em todas as áreas de eventos e bandas.

A minha primeira experiência prática no mundo musical deu-se por volta dos 10 anos de idade (não sei precisar) quando recebi uma guitarra acústica como prenda de natal. Aos 15 anos já tinha formado uma banda de garagem em formato acústico com colegas de escola, com influências de sonoridade avantgarde. Não tardou muito para sentir que tinha encontrado a paixão da minha vida e a desgraça da minha carteira. Aos 18 anos com o meu primeiro ordenado comprei uma Stratocaster manhosa da Maison (quem nunca…) e comecei a praticar exercícios técnicos cerca de 8 horas por dia. Influenciado pelos “super guitar heroes” da saudosa editora Shrapnel Records, levava a guitarra às costas e o walkman para todo o lado, e como não havia sequer sido inventada a internet, metia o dedo no rotor do walkman para abrandar a velocidade da tape e poder estudar os shreds e solos daquela malta prodigiosa das 6 cordas tais como o Jason Becker ou o Marty Friedman entre muitos outros. Só a titulo de curiosidade, na adolescência em casa à noite, não podia tocar nem fazer muito barulho pois vivia com os meus avós. Então deitado na cama, fazia exercícios imaginários com uma régua da escola a simular uma escala de guitarra. Sempre fui muito auto-didata em termos de aprendizagem musical, mas mais tarde cheguei a ter 1 ano de aulas com o guitarrista Luis Arantes para aperfeiçoar algumas questões técnicas. A aprendizagem e novos desafios são uma constante.

Não será errado afirmar que o black metal é o género que te diz mais. Como nasceu o teu gosto pelo género e quais são as tuas maiores influências?

De facto neste momento sou guitarrista em duas bandas de black metal, nos Invoke desde agosto de 2018, e mais recentemente em janeiro de 2020 ingressei fileiras nos Sonneillon BM. Mas o meu gosto pela música vai muito além de apenas um estilo e embora ouça em maioria metal e rock, costumo ouvir muitas outras coisas que nada têm a ver com o que toco e nesse sentido pode-se dizer que sou bastante eclético. As influências são tantas que me é difícil definir ou enumerar com precisão o que me construiu ou educou musicalmente, ouço bandas completamente “fora da caixa”, influenciado desde muito novo pelo meu pai que ouvia estilos tão diversificados como rock sinfónico, new wave, rock gótico ou música clássica. Até dentro do black metal e suas vertentes não tenho uma linha condutora definida, embora consiga confessar que sou adepto de linhas mais melódicas, e em regra geral sempre senti bastante atração por sonoridades  soturnas e melancólicas. Comecei a ouvir mais black metal e a explorar sonoridades relacionadas com o estilo, cerca de um ano e meio antes entrada nos Invoke, influenciado pelas amizades que nutriam apreciação pelo BM. Mas não tenho uma banda ou bandas favoritas, ou de referência digamos.

Pedia agora para nos dares uma breve noção do teu percurso pelas bandas na tua carreira e que nos falasses um pouco de cada uma delas.

Comecei já com idade avançada a aventurar-me em palcos e bandas “mais a sério”, pois até então, tinha-me dedicado exclusivamente a evoluir tecnicamente (guitarrista de sofá) e também a dar aulas de guitarra elétrica a alguns alunos durante alguns anos. Essa aventura iniciou-se em Sintra entre 2006-2008 nos Fullmoonchild, uma banda de metal gótico que nessa época usufruía de alguma projeção no underground nacional. Em modos de seguimento desse projeto , entre 2009-2012 acompanhei os My Deception, na mesma linha de sonoridade e com membros em comum com a anterior. Em 2013 e durante um ano, tive uma experiência fora da minha zona de conforto mas enriquecedora em termos pessoais, quando fui vocalista da banda tributo Depeche Note (sim… leram bem, vocalista de uma banda tributo). Durante uns meses de 2014  andei em tour por feiras medievais, a tocar bouzouki irlandês, com a banda bracarense de folk Sons da Suévia, com quem me internacionalizei pela primeira vez, dando concertos em Itália. Entre 2015-2016 e a convite do meu ex aluno e grande amigo  Bruno Santos (actual guitarrista de Enchantya) juntei-me a ele nos Leather Synn para experimentar um heavy metal mais tradicional lisboeta. Em 2016 aventurei-me no folk metal do Porto com os Vimara, e entre 2017-2018 continuei por terras portucalenses com o rock gótico dos célebres Secrecy. Chegamos então a agosto de 2018 e após ver em palco no Vagos Metal Fest, o black/death lisboeta do (até então) trio Invoke, proponho-me como lead guitar ao Pedro Leal Dias, que me confessa que já andava a pensar em incluír mais uma guitarra na formação desde há algum tempo. A 27 de Agosto após uma reunião com a banda, oficializa-se este casamento de traje negro. Mais recentemente, em janeiro de 2020, vem a cereja no topo do bolo, quando sou convidado pelo baterista Miguel Santos (Bellerophon), para ir para a frente de batalha como live guitar nos aclamados portuenses Sonneillon BM.

Falemos de Invoke. O vosso álbum já está pronto há bastante tempo, mas têm encontrado algumas dificuldades para o lançamento se materializar. Há novidades nesse campo que possas dar?

O novo albúm “Deo Ignoto” finalizou as gravações em Março do ano passado, e foi gravado na sua totalidade por nós no estúdio dos Invoke. Enquanto temos procurado uma editora que nos possibilite o melhor contrato possível, trabalhámos melhorias bastante significativas na masterização com o Fernando Matias do estúdio The Pentagon Audio Manufacturers, e podemos afirmar que o trabalho está concluído e estamos bastante satisfeitos com o resultado final. O álbum está pronto a sair e temos toda a nossa parte do trabalho concluída, incluíndo o layout feito pela designer e artista Mafalda  “Muffy” Redondeiro Hortas (Karbonsoul). A promoção e procura de uma editora está neste momento a cargo da Supreme Bookings através do Guilherme Henriques e estou em crer que muito brevemente teremos novidades acerca do lançamento do álbum. Temos tocado os novos temas ao vivo e têm recebido muito boas críticas, para além do design do merchandise ter vindo também a ser um sucesso.

Recentemente também foste adicionado às fileiras dos Sonneillon BM, tal como já disseste. Como surgiu essa oportunidade?

Recebi um telefonema na noite de 15 de janeiro do baterista Miguel Santos (Bellerophon), a perguntar-me se eu tinha interesse em ocupar a vaga de guitarrista nos Sonneillon BM, banda que já tem uns bons anos de estrada e da qual ele é fundador. Eu já conhecia todos os membros e já tinhamos falado pessoalmente em diversas ocasiões. Tudo malta 5 estrelas, excelentes músicos, e com trabalhos de excelência nesta banda. Não hesitei em aceitar o desafio. Eu entrei com funções de live guitar e com concertos e lançamento de álbum agendados.

Sendo uma banda do Porto, e tu estando em Lisboa, terá de haver alguma ginástica da tua parte para os ensaios, não?

De facto terei de fazer algumas piscinas de auto-estrada, mas é algo a que já estava habituado, até porque não é a primeira banda do norte com que ensaio. Por vezes pode tornar-se cansativo não descansar aos fins de semana  após uma semana de trabalho (música é só hobbie), mas como diz o ditado “quem corre por gosto…” e faço-o com muito gosto.

Inicialmente, o que tinha planeado perguntar era que tipo de actividades ao vivo tinhas planeado, mas tendo em conta o que estamos a viver, está tudo em suspenso não? Que concertos tinhas?

Com Invoke: concerto agendado para dia 25/4 no Power Stage Fest @ RCA Club, Lisboa, até à data não foi suspenso.

Com Sonneillon BM a data de 11/4 no Orthodox Fest @ Decin, Rep. Checa, foi suspensa. Em 17/4 @ Metalpoint, Porto não está ainda suspenso. E a participação em julho @ Laurus Nobilis, Famalicão também se mantém.

Dada a conjuntura, neste momento não há certezas de que qualquer um destes gigs (não cancelados) se efectue. Vamos esperar e ter esperanças no melhor cenário.

O que sentes que te falta atingir e o que tens ambições de conseguir atingir?

Tenho algumas metas pessoais que até hoje eram secretas, mas não me importo de partilhar com os seguidores da WoM. Gostava, no plano nacional, de um dia me estrear no Vagos Metal Fest, ainda não surgiu oportunidade. E num plano internacional, um dos meus principais sonhos era pisar um palco principal do Wacken Open Air. A maior ambição de todas, era claro conseguir ser músico profissional e conseguir viver disto. Quem sabe um dia…

Gostaria de dividir esta questão em dois. Primeiro, como vias a situação do underground nacional a nível de salas, bandas e público, antes do Covid-19 e como é que achas que vai resistir a este impacto negativo?

Embora nesta primeira questão as opiniões se possam dividir em múltiplos aspectos, a minha opinião pessoal é que o underground nacional passou por uma fase de certo declínio nos últimos anos, principalmente durante a crise económica que afectou o nosso país. Os rendimentos do público não chegavam para todos os concertos a que desejariam atender, e penso eu que de forma natural, dariam prioridade a eventos mais mainstream, sacrificando o underground e bandas nacionais com menor visibilidade. E nesse aspecto, estou convicto que o fenómeno de “boom” das bandas tributo deu uma ajuda importante em vencer a inércia do público em sair de casa para ver concertos em pequenas salas. Acabou por se criar uma conjuntura favorável para todas as partes. Quer fosse para as bandas de originais do underground, ou para os artistas de covers/tributos, que muitos inclusivé têm também bandas de originais, e fundamentalmente para os pequenos promotores que dinamizam toda esta indústria, mas também para os pequenos “venues” que viram mais rendimento no seu negócio, abrindo portas para eventos de maior risco com bandas de menor visibilidade. Mas o número de espaços para pequenos concertos tem vindo a diminuir, é um facto, o que dificulta um agendamento mais frequente e célere de datas.

Neste momento, estamos perante uma situação excepcional e sem precedentes, com a pandemia de Covid-19 e consequências que daí advém, mas em que a palavra-chave julgo ser “adaptação”. Neste panorama, estou em crer que os mais prejudicados virão a ser os profissionais nas várias áreas desta arte, pois são aqueles que estão economicamente dependentes da dinâmica dos espectáculos. Todos nós queremos que esta crise seja ultrapassada o mais rapidamente possível, mas enquanto isso não acontece, é obrigatória uma adaptação às novas circunstâncias, por todas as partes envolvidas.


 

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