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WOM Report: Dark Clouds Over Camden IV (Retribution Alive) @ The Dev + The Black Heart, Camden, Londres – 06-07/02/26

Camden é a central para quem gosta de metal em Londres, com a maior concentração de pubs, salas e amantes da escena que é difícil de ignorar quando se caminha na rua. O Dark Clouds Over Camden IV, organizado pela Retribution Alive, voltou pela 4ª vez, com participação da  Raven Records, loja de discos e merch com serviço de café excelente, a passar música e com entrevistas às bandas de sábado por Elric Newby (Metal Devastation Radio/Into the Pit); The Devonshire Arms (The Dev), o meu pub habitual e predileto, também o mais devoto ao metal, com concertos regulares. Para mim, é a minha segunda sala de estar onde me sinto em casa e posso tanto tomar uma sidra sossegado na esquina do bar, como encontrar velhos e novos amigos, é um sítio onde a maior parte da gente se conhece ou por nome ou por cara; The Black Heart, cujo nome representa o ambiente perfeitamente, maior, mais escuro, quase às luzes das velas, com sala que mais parece uma caverna dedicada aos concertos. Não frequento mais assiduamente porque não têm a sidra que gosto. Dois dias e dois palcos, entrada grátis no Dev e £14 no Black Heart, com um cartaz que ia desde harpa até black metal que podia ser gravado em cassete. Não é o Incineration Fest, mas não anda lá longe.

O primeiro pensamento ao entrar na sexta-feira foi, a Guinness está a patrocinar isto? Porquê há uma harpa no palco? A Artemisia Nathair é uma música de Brighton com um look muito fotogénico, vestido branco, tatuagens elaboradas, e faz o inesperado, ligando a harpa a um pedal Big Muff. Doom e harmonia, deveria ter sido absolutamente cativante…excepto que, o técnico de som interpretou o fuzz como feedback e baixou o volume, à procura de um som limpo…Resultado, mal se ouvia, as pessoas a falar sobrepunham-se à música. Foi uma surpresa agradável que ficou muito aquém do potencial, gostaria de ver outra actuação. 

Terapia que choque depois da harpa, dos 8 aos 80 para black metal. Os Ominous Covenant, com o compositor Jacono Alexander que tem mais dois projectos, e com uma nova vocalista, Draca (também de Godking). Pequena mas, e digo com admiração, tem um demônio lá dentro, olhar penetrante e escuro com uns vocais que arrepiam. Black metal frio e puro, corpse paint sem exagero, e um som bastante forte.Apesar de tudo a preto e branco num sítio de concertos às escuras, a Draca soube posicionar-se para me dar das melhores fotos qu

Os Sceptocrypt tiveram uma actuação muito teatral, com o seu longo casaco e chapéu, bom som, mas envoltos de fumo em tal quantidade que rapidamente percebi que não valia a pena tentar. Sem críticas, mas aquela mistura das vocalizações e da música não eram para mim. Fui buscar uma sidra ao Big Red rua acima e voltei mais tarde.

Os Cairns, de Manchester, fecharam a noite de sexta com algo inesperadamente harmónico, quase a completar o círculo de géneros. O próprio nome vem dos cairns, as pilhas de pedra usadas como guias em trilhos de montanha e para marcar sepulturas. Black metal atmosférico inspirado na paisagem das moorlands (charnecas) do norte de Inglaterra. Traziam uma sensação de isolamento e insignificância, mas de paz. Oscila entre melodias etéreas quase shoegaze e black metal mais rasgado, com vocais tanto limpos quanto agressivos a condizer. Muito profissionais, tight, surpreendentemente cativante, para ouvir de fundo e relaxar.

No sábado, no Dev arrancou em peso sem harpas, infelizmente não cheguei a tempo dos Ishtar Terra nem Dislycan mas consegui ver os Nyrak. Belgas com estreia em Londres. Oficialmente  atmosférico/progressivo mas soou-me mais a um murro na cara. Muito épico e grandioso. Envoltos em luz vermelha, directos ao assunto, bom para acordar. Gostei, nada mais a dizer.

Já tinha apanhado os Horrenda no Cosmic Void, vieram novamente de Dublin com a sua mistura de black metal, death metal e DSBM, um som distinto. O baixista não pára quieto, quer a fazer caretas, saltitar, dançar, não sei como não bateu nos colegas com o enorme baixo de 5 cordas. As vocalizações são uivos cortantes, nem aquele growl baixo e profundo nem shriek agudo, qualquer um intermédio. O guitarrista, com a sua guitarra de 7 cordas, teve a amabilidade de me chamar à atenção quando pousei o meu copo ao lado dos pedais para trocar de lentes. Fiquei surpreendido que não houve mosh apesar de estar bem cheio. Os Horrenda precisam de mais espaço no palco, mas foi uma actuação tão boa como no Cosmic Void.

O Black Heart é um sítio que não posso dizer mal mas não me agrada. É maior que o Dev com bastantes mesas, ambiente às luzes das velas, mas têm a música sempre tão alta que não dá para falar. A sala de concertos fica no piso superior, uma vantagem sobre o Dev, mas é um rectângulo de tecto baixo onde se não à frente, não vês nada. O palco é maior mas sem muito espaço. Para fotografar é um pesadelo, ou ISO 25600 (ora, seria um excelente nome para uma marca de fotografia), ou os strobes vermelhos ao máximo direto na cara. Mas se a intenção for criar uma caverna de black metal, funciona na perfeição. Os italianos Nel Buio estreavam-se em Londres. Tinham spikes em quantidade e tamanho suficiente para pregar os carris todos da linha Porto-Lisboa. Corpse paint com sangue a escorrer do topo da cabeça. Black metal tradicional com muito tremolo e growls fundos, com uns toques de darkwave que os próprios chamam de “Italian BlackWave”. Curiosamente os nomes das músicas são italianos, mas as letras alternam entre italiano e inglês.

Os Dreich são provenientes de Aberdeen, Escócia (eu achava que eram alemães…). Mais DSBM, vendo outras reportagens, normalmente decoram o palco com cordas de forca, e o vocalista Nemus enrolar o cabo do microfone no pescoço e encoraja suicidio. Yep, DSBM, com uma mistura de melodia lenta e tremolo picking.

Já tinha visto os Old Corpse Road há tanto tempo que  não me lembro onde nem quando. Até refrescante, pois são inspirados por folclore britânico em vez de SATAAAN. As letras são baseadas em lendas tradicionais. Todos os membros contribuem para os vocais e vestem-se a condizer com túnicas. Presença de palco sólida e boa música, recomendo.

Quem melhor para rituais teatrais de black metal se não os polacos Black Altar, a chocar avós desde 1996. Costumam ter muitas props mas por limitações de espaço tinham apenas uma mesa decorada com caveiras, estatuetas demonicas, velas e incenso. Ar de culto garantido. Raw ao ponto de parecer gravado numa caverna em cassetes, não é crítica, é elogio. Trve kvlt.

Foram dois dias para satisfazer a sede por black metal, com uma variedade que não esperava. A sexta no Dev foi a minha favorita pela diversidade, de harpa com fuzz a black metal a atmosférico. O sábado foi menos concentrado no tradicional. Apesar de adorar estes concertos íntimos, algumas das bandas mereciam um palco maior, especialmente vindo de tão longe. Não passei na Raven Records para as entrevistas nem passagem de álbuns, mas recomendo uma visita em qualquer dia da semana.

Set Times

Sexta – The Dev

Artemisia Nathair / Ominous Covenant / Sceptocrypt / Cairns

Sábado – The Dev

Ishtar Terra / Dislycan / Nyrak / Horrenda

Sábado – The Black Heart

Nel Buio / DREICH / Old Corpse Road / Black Altar

Fotografia e Texto: Luís Balsa (Moshografia)


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