WOM Report – Einar Solberg, Royal Sorrow, Raphael Weinroth-Browne, Jovian Moons @ República da Música, Lisboa – 23.09.26
Depois de ter passado no fim de 2025 na República da Música, com os Leprous, Einar Solberg regressava para a apresentação de “Vox Occulta”, o seu segundo álbum. Com este novo trabalho dominado por uma orquestra, ficava no ar muita curiosidade como soariam ao vivo os novos temas.

Antes disso, enquanto o público ia chegando à sala, a noite começou com os Jovian Moons. A banda francesa liderada por Lucas D’Angelo, ex-guitarrista dos Betraying the Martyrs, tem uma sonoridade de tom atmosférico que funde o Indie e o Electrónico. A apresentar o álbum de estreia “X Amount of Time”, “A Prophecy” começou a criar uma paisagem sonora que levou ao tema título, logo seguido de “On My Own”. Estes primeiros temas trouxeram um ambiente etéreo e espacial à sala. Já “The Experiment” contém uma sensibilidade mais pop. Uma boa apresentação da banda perante um público receptivo, que terminaria com “Invisible”.

Seguia-se Raphael Weinroth-Browne, frequente colaborador de Einar Solberg (com quem voltaria ao palco mais tarde), que já passou por Lisboa várias vezes a acompanhar os Leprous. Foi um público efusivo que recebeu o violoncelista, que vinha apresentar o terceiro álbum de originais “Empyrean”. Estando sozinho em palco, com a ajuda de pedais que iam guardando sequências musicais e continuando a reproduzi-las em loop, Raphael Weinroth-Browne foi construindo as melodias camada a camada, incluindo a parte rítmica que fazia batendo com o dedo no violoncelo, perto do microfone. Começando com “Reflection”, foram quatro temas que mostraram o talento do músico canadiano, nos quais elementos barrocos se combinaram com melodias do Médio Oriente e uma sensibilidade de metal progressivo. “Speed of Light” do novo trabalho foi um dos destaques, um tema que mostra bem a expressividade da música de Weinroth-Browne. Já no fim, “Ophidian” traria uma surpresa para os fãs de Opeth com o riff final de “Deliverance” a servir de base para uma melodia inspirada no médio oriente.

Os Royal Sorrow estreavam-se em Lisboa, depois de problemas logísticos terem impedido a banda finlandesa de tocar na República da Música menos de um ano antes. Agora, finalmente sem qualquer contratempo, puderam apresentar o álbum de estreia, “Innerdeeps”. A jovem banda tem merecido atenção e, desde o primeiro tema, “Evergreen”, foi fácil perceber porquê. O metal progressivo dos Royal Sorrow tem uma abordagem direta, equilibrando o peso com melodias que ficam no ouvido e uma sonoridade grandiosa. Temas como “Bloodflower” e “Give In” também se destacaram. Este último é um bom exemplo de como os Royal Sorrow unem as vocalizações agressivas aos momentos mais melódicos. Além do álbum de estreia, a banda apresentou o novo single “Covert”, lançado este ano. Muito peso e um refrão que fica na memória logo à primeira audição deixam curiosidade para ver o que se segue no percurso da banda. Para o fim ficaria mais um tema a destacar, “Metrograve”. Em palco, todos os elementos dos Royal Sorrow mostram a mesma energia que a música transmite, em particular o vocalista Markus Hentunen, com uma prestação carregada de personalidade. O coletivo finlandês deixou uma excelente imagem, num dos concertos mais animados da noite.

Luzes baixas cortadas apenas por um foco branco, figuras encapuzadas vestidas de preto, uma linha sinistra de violoncelo. Ouvem-se os aplausos quando uma figura alta com um capuz vermelho entra em palco e abre os braços para o público, enquanto a música sobe de tom. Foi assim que começou o concerto de Einar Solberg ao som da magistral “Stella Mortua”, seguida de “Liberatio”, dois destaques de “Vox Occulta”. Foi uma entrada forte que mostrava desde logo o tom teatral, um dos ingredientes desta nova etapa do músico norueguês. Na versão de estúdio, os temas foram gravados com a Norwegian Radio Orchestra. Ao vivo, Einar vinha acompanhado por um trio de cordas, composto por dois violoncelos e um violino, que conseguiu capturar o ambiente orquestral e cinematográfico do novo trabalho.

O primeiro contacto com “16”, o primeiro álbum a solo, surgiu com “A Beautiful Life”, aqui com um arranjo diferente, em que as cordas “substituíram” o domínio dos teclados. Como já habituou o público nos concertos dos Leprous, Einar foi muito comunicador ao longo do concerto, sempre num registo mais de conversa com o público do que de um frontman a encarnar uma persona de palco. Esta noite seria uma viagem pessoal através da música, que Einar foi apresentando em vários momentos. A calma luminosa de “Serenitas” fez par com “A Beautiful Life”, numa expressão da visão positiva que o músico tem atualmente sobre a vida. A intensa “Splitting the Soul” evocaria o momento em que Einar conheceu Ihsahn, com quem colaborou já tantas vezes. O tema trouxe ainda um dos momentos de vocalizações agressivas, com Einar a assumir as partes de Ihsahn.

A mesma viagem passaria por caminhos mais negros com “The Glass Is Empty”, sobre a depressão e o suicidio do pai de Einar, um dos episodios autobiográficos partilhados com o publico. Esta fase da vida do músico continuou a ser abordada em “The Last Milestone”, música dos Leprous, um momento emocional com Einar no teclado, apenas acompanhado em palco pelo trio de cordas que pareceu deixar a sala em suspenso.
Melancolia como fonte de beleza sempre foi algo explorado pelo músico norueguês, mas, como o próprio referiu, é apenas uma parte da sua personalidade. Houve vários momentos de leveza e bom humor de Einar, na interação com o público ou com o resto da banda, como o momento em que apertou as bochechas do guitarrista Kwiny pouco antes deste começar a tocar um solo.

A boa qualidade de som ao longo do concerto, o nível dos músicos em palco e a presença do trio de cordas contribuíram para que todos os temas soassem intensos e envolventes. Além do talento como compositor, Einar volta a demonstrar ao vivo a qualidade que tem como vocalista, dos agudos cristalinos às vocalizações mais agressivas. Apesar de bem composta, a sala não estava cheia, no entanto o calor com que o público presente recebeu e apoiou Einar preencheu por completo o espaço. “16”, o tema-título do primeiro álbum marcava a aproximação do fim do concerto. Antes dos dois últimos temas, os músicos que acompanham Einar Solberg em palco foram apresentados. O baterista Keli Guðjónsson teve um destaque especial, já que fazia anos, o que levou a sala a cantar-lhe os parabéns. A animada “Medulla” e “Grex” encerraram a noite Na memória fica um concerto intenso e emotivo, na mais pessoal das passagens de Einar Solberg pelo nosso país.
Texto por Filipe Ferreira
Fotos por Filipa Nunes
Agradecimentos Free Music Events
Support World Of Metal
Become a Patron!
