WOM Report – Festival Bardoada e Ajcoi 2019 @ Espaço Contrafacção, Pinhal Novo – 05.10.19

Em dia de reflexão eleitoral, a World Of Metal foi reflectir para o Pinhal Novo. Um dia (tarde/noite) de reflecção intenso e que nos permitiram chegar a algumas conclusões, em diversos assuntos, conclusões essas que partilharemos ao longo do nosso relato sobre esta verdadeira festa do underground nacional. Sendo dos primeiros a chegar ao local, pudemos reparar que apesar da mudança de dois dias para um, que o ambiente familiar se mantinha com algumas das suas limitações – a do número de casas-de-banho era sem dúvida aquela mais visível, mas era algo para a qual já estavamos preparados, tendo em conta o desabafo nas redes sociais em relação ao custo elevado (e desproporcionado) das mesmas.

No entanto, mais ou menos casas de banho, stands de bebida e comida, o que interessava era mesmo a música. O que interessa e, arriscando-me a perder em previsões mas será sempre o que interessará. E em 2019 começou com uma jovem banda da zona, Honey Bones. A tocar uma mistura entre shoegaze, pós-rock e algo mais matemático próximo do jazz, o som da banda cativou logo facilmente o (pouco) público presente. Não fosse nervosismo do porta-voz e guitarrista da banda, nem diríamos que era um trio a dar os seus primeiros passos. Apresentaram cinco temas que revelaram desde logo uma maturidade invulgar. Destacamos “A Cor da Fauna” e ficámos com vontade de reencontrá-los em cima de um palco.

Também jovens mas com mais experiência, os Rivertied foram mais outra aposta do Bardoada nas novas (ou próximas) gerações com um punk rock próximo daquele que é (ou foi) popular lá para os lados de Orange County. Apesar de algum nervosismo normal, a banda teve uma boa apresentação, onde se destacou a prestação do frontman/guitarrista Pedro Ferro. A história da banda é igual à de tantas outras, começaram por tocar covers mas depois arriscaram com os originais. E arriscaram bem. Nota-se garra e paixão pelo seu som e mesmo havendo ainda um longo caminho a percorrer, o apoio dado não é desperdiçado. Ainda assim, um dos momentos mais altos foi a cover de Rage Against The Machine, “Killing In The Name Of”.

Passando para uma banda mais experiente, foi a vez dos Suspeitos do Costume, com o seu punk rock cheio de raça e a apresentar o seu mais recente álbum “Salve-se Quem Puder”, lançado há poucos dias. Som fortíssimo e aquela raça imparável, a banda concentrou as atenções, compreensivelmente, no já mencionado último trabalho, revelando a aposta nestes novos temas. Aposta completamente ganha na nossa opinião, ficando a vontade de ouvir melhor o álbum (contem com a crítica brevemente nestas páginas). E apesar do foco no novo trabalho, não falhou a cover de Carlos do Carmo “Lisboa Menina e Moça” ou o regresso a temas mais antigos como “Mente Feita de Cal” ou “Remar Contra a Maré”. Grandes, como esperávamos e no segundo concerto com o novo guitarrista, Adriano, que esteve sólido no seu papel.

Uma mudança radical de estilo graças aos My Master The Sun, é sempre arriscado, mas neste caso até foi bem conseguida. O seu sludge/doom com retinques psicadélicos fez cair um mantra hipnótico sobre a assistência que ficou agarrada logo com o primeiro tema, “Assassímio”, um épico de mais de dez minutos que bateu com requintes de marreta das obras pelo corpanzil abaixo. A toada apesar de ser contra a maré do festival, não deixou de também apresentar dinâmicas. A banda também levantou o véu em relação ao próximo trabalho de originais com o single de avanço, “Fraco”. Aprovadíssimo. Não só surpreendeu pela positiva como nos deixou fãs – não sendo nem o contexto, nem o género em si, fácil de conquistar novos fãs.

Já os New Mecanica não tiveram problemas nenhuns em cativar quem quer que fosse. A banda do Barreiro tem um som explosivo e o seu último álbum de originais “Vehement” é sem dúvida uma bomba em estúdio, ao vivo o seu poder cresce consideravelmente. Foi precisamente o último álbum de originais (vencedor da nossa categoria alternativa de álbum do ano) que esteve no centro das atenções, exceptuando as duas incursões ao passado, aos dois anteriores álbuns com “The Righteous” e “Lonely”. Uma actuação fortíssima onde destacamos o momento em que subiram ao palco na “Two Worlds” o grupo de percussão Karma Drums que ainda acrescentaram mais peso e deram um excelente impacto visual. Excelente concerto.

É sabido que às vezes a melhor forma de suceder aquilo que se parece impossível de suceder é com algo diferente. E no caso dos Empty V podemos dizer que foi com algo do outro mundo. Mais concretamente do Planeta Porco Amarelo. Já vimos os Empty V algumas vezes e apesar de terem apenas um álbum lançado, cada actuação foi diferente e nesta verificámos que a máquina está muito bem afinada e tanto a nossa impressão como a do público que pudemos recolher foi bastante positiva, tendo sido a primeira vez para muitos. “Mus-Pri”, o álbum de estreia, foi o centro das atenções e podemos dizer que conquistou a grande maioria do (muito) público presente, embora de vez em quando se ouvisse perguntar “onde está o vocalista?”, referindo-se aos temas, como “Directive One” (com um grande solo de guitarra), que tinham a pista de voz pré-gravada. Com os extra-terrestres temos que esperar o inesperado. E música boa, claro.

O que se seguiu de seguida foi algo que… torna-se difícil de explicar por palavras. Já conhecíamos o álbum “Azeite Com Distorção”, já conhecíamos os vídeos, mas ver um concerto dos Shivers é algo completamente diferente. Com Igor Azougado (vocalista/guitarrista que também faz parte da organização do Bardoada) entrar em palco com um barco insuflável na mão, atirar tshirts para o público e com a entrada da outra metade da banda (João Arroja, baterista), mais um barco insuflável é enviado para o público. Dá-se uns acordes, umas batidas e parte-se a guitarra, qual Pete Townshend do Pinhal Novo. “Isto não é uma discoteca, é um festival underground!” Foi definitivamente um dos concertos mais alucinados onde até não faltou fogo de artifício, público aos pulos em cima do palco, a guitarra entregue ao público para ser tocado. Sentiu-se que foi uma actuação que funcionou como exorcismo também a toda a tarefa (nada pequena) de montar um festival e de garantir que o mesmo decorre da melhor forma. Fica a vontade de comprovar esta loucura novamente, só para ver se foi real ou sonho.

Os Viralata não trouxeram insufláveis mas para eles bastou trazerem o seu bom e infalível punk rock cantado em português e que meteu todos em movimento. Esta banda é um caso exemplar de como é possível apostar no (punk) rock, cantado na nossa língua e ter sempre sucesso em todos os palcos por onde passam. Não foi excepção o Bardoada já que, na nossa opinião, foram uma das bandas da noite. Os hinos “Famel”, “Carocho”, “Lúcio Fernando” (que contou com a ajuda de Zorb dos Dalai Lume na voz e com um circle pit frenético) foram cantados por todos inclusive por muitos que subiram ao palco, ficando as inevitáveis “E Vai Um Copo” e “Estamos Juntos” para o final. Não se foram embora sem confirmar que para o ano vamos ter direito a disco novo. Venha ele! O público ainda queria mais (todos queríamos) mas o horário não podia atrasar – e não atrasou. Foi cumprido de forma exemplar!

Os Mata-Ratos são uma verdadeira instituição do punk rock nacional em particular e do rock português no geral e são um arrasto de interesse e pessoas onde quer que passem. E começar logo com “Napalm Na Rua Sésamo” é colocar todo o povo em alvoroço. A banda foi intercalando clássicos com temas mais recentes do último álbum de originais, “Banda Sonora do Apocalipse Anunciado” (como “Tsunami de Cerveja” e “Canibais do M’aara”) que foram sempre bem recebidos mas foi com o “Xu-Pa-Ki” e “C.C.M.” (que em período de reflexão eleitoral fez mais sentido do que deveria) que o frenesim foi maior, não faltando também o clássico “Dança Com A Merda” onde a intervenção de alguns fãs a cantar foi uma constante. Ficámos com a sensação que devido às restrições de tempo, ficaram algumas músicas de fora mas ainda assim não houve quem ficasse insatisfeito.

Para terminar a noite em grande, uma das mais clássicas bandas nacionais, os RAMP. Apesar do seu último álbum de originais, “Visions”, ter sido editado há dez anos, não deixam de arrastar consigo sempre uma multidão de aficionados pela sua mistura muito própria de heavy e thrash metal. Foi pelos trabalhos mais recentes, “Visions” e “Nude” que a banda centrou as atenções, embora as incursões a “Evolution, Devolution, Revolution” (com “Dawn”, “How?” e “Hallelujah”) tenham causado grande impacto. A boa surpresa foi “Catatonic”, tema novo que segundo o que Rui Duarte disse de forma enigmática, poderá figurar naquele que será o último álbum dos RAMP. A garra foi aquela que já lhes reconhecemos e que serviu de apresentação à música pesada a muitos de nós. O ritmo do concerto foi frenético (havia uma hora para terminar) mas isso não impediu que se ouvisse “Anjinho da Guarda” (cover de António Variações) ou que se terminasse com a sequência demolidora de “All Men Taste Hell”, “Black Tie” e “Try Again”, a mítica cover dos Spermbirds.

Foi mais uma enorme edição do Festival Bardoada e Ajcoi, onde várias bandas, vários estilos e vários gostos representados no público se juntaram todos com o mesmo objectivo, o celebrar e apoiar o underground nacional. Nada se faz sozinho, nada se faz sem apoio e a presença do público tal como se viu (embora só a partir de uma certa hora do dia tenha sido mais sentida) é fundamental para que o evento se mantenha vivo. Por muito que se goste, por muito que se diga que se goste ou que se tenha (boas) intenções, as acções são aquelas que marcam a diferença e a presença efectiva em eventos como esse são o ar necessário para que a vida se mantenha num cenário apocalíptico onde o rock (e todos os derivados) é cada vez mais uma raridade.

Texto Fernando Ferreira
Fotos Sónia Ferreira
Agradecimentos Festival Bardoada e Ajcoi


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