WOM Report – Milagre Metaleiro 2026 Dia 3 @ Parque de Lazer das Cruzinhas, Pindelo dos Milagres – 23.08.26
O domingo começou mais cedo às 15h30, que permitiria um fecho mais razoável para quem teria de conduzir até casa e trabalhar na segunda-feira. Se alguém ainda não tivesse cansado, os Capela Mortuária viraram literalmente a tarde do avesso. Perdi-os na warm up duas semanas antes no SonicBlast, e estou arrependido. “Não pára, ninguém para!”, gritava o vocalista que parecia possuído por um espírito ou raivoso, orquestrando moshing e headbanging obrigatórios desde o início. Parecia que tinham acordado com a missão de out-thrash qualquer outra banda, lamento Destruction. Foi difícil conter-me e não me atirar aos outros fotógrafos para o moshpit mais caro do festival. Como se não chegasse, receberam um reforço com uma troca de baterista, com a máquina que é o Luís Moreira, e Jordi a ajudar com os vocais. Não posso esperar por voltar a vê-los no Riverstone em Setembro.

E então, impossivel ficar melhor..? Não! Os Sovengar, supostamente viking metal espanhol, trazém consigo um carnaval total, com o vocalista a perguntar “¿os gustan los piratas?”, e saía um chapéu pirata, “¿os gustan los dragones?”, e saía um uma mascote dragão, “¿os gustan los zombies?”, “aqui está!”, “¿os gustan los barbies?”, e por aí em diante. Juro, se os Alestorm ou Trollfest fossem espanhóis, dava nisto… Pelo meio comentou “si cantaba igual de bien que hago el gilipollas…”, e desceu para o meio do público para dar umas voltas ao mosh, e acabou deitado em cima do bar do recinto a levar com Licor Beirão (acho) directamente na boca. Uma comédia total que só funciona porque a qualidade de actuação e som acompanham. É caos exercido com profissionalismo.

Os Girish and The Chronicles, ou G.A.T.C, trouxeram hard rock da Índia, onde já abriram para os Guns N’ Roses. Se for preciso uma descrição, digamos que não estive lá, mas aposto que superaram os Guns. Puseram todos a dançar com ritmo e despediram-se ao som de uma salva de aplausos.

O Blaze Bayley deu o prometido set de Iron Maiden e, com honestidade e com todo o respeito, é profissional, é de qualidade, mas vi os Maiden à um par de meses e chegou, nada a criticar. A plateia cantou os muitos dos refrães, e ele teve muita interaão, agradeceu vezes sem conta, recordou a primeira vez que veio a Portugal com os Maiden, e deu o seu discurso motivacional habitual…“take your future into your own hands”, etc etc. É impossível não gostar do homem, simplesmente achei entediante entre os outros actos.

E depois, como parte de um ritual em que o tempo participou, os Belphegor entraram em palco rodeados de nuvens negras e nevoeiro denso digno de filmes de terror. Trazem o melhor blackened death da Austría digno de linhagem escandinava. A poderoa musica foi acompanhada por chuva torrencial, relâmpagos e trovões, em perfeita sincronia perfeita com a banda. Quem diria que tivessem como fã São Pedro, para que chovesse pela primeira vez neste festival. Parte do público fugiu para zonas cobertas, outros roubaram os guarda-sóis da Olá, mas muitos absorveram a chuva como parte imersiva do ritual. Se alguém poder atribuir a palavra “bonito” a um concerto de black metal, é este.

Foi aí que tirei a minha melhor foto do festival. Um homem em cadeira de rodas, de guarda-chuva, com o palco de fundo, e uma poça enorme a reflectir todo o cenário. Mágico. E agora a parte que os meus queridos fotógrafos vão adorar e fazer facepalm…tirei-a com o telemóvel. A câmara, deixei na cabine da press por causa da chuva. Pensei que, se fosse a correr buscá-la, podia perder o momento. Como já me disseram muitos veteranos, a melhor câmara, é a que temos connosco (ou no bolso). Este será um concerto a ser lembrado, acho que a vou imprimir.

Os Primal Fear apanharam o resto da tempestade, um pouco mais leve, mas acelerando o passo, retorquir com um excelente speed metal alemão e uma setlist que atravessou o histórico, e com a bela Thalia Bellazecca na guitarra. Fecharam com Metal Is Forever que pos muitos a saltar em poças de água como crianças, enquanto nós fotógrafos, estávamos abrigados debaixo da cobertura do palco, eu com um saco de plástico a fazer de impermeável improvisado da câmara que recebeu algumas gargalhadas.

Podíamos ter acabado por aqui, mas o destinado era ser outra das minhas bandas favoritas, os Insomnium, finlandeses, a fechar o festival. A melancolia acompanhada dos growls profundos puseram-me em lágrimas, sem saber como capturar o momento. “Valediction”, “Lilian”, “Ephemeral”, “While We Sleep”, “Heart like a Grave”… canções que chegam à alma. Não havia maneira mais emocional de fechar o festival, sem sequer me queixar da chuva, que acabou por ter uma participação importante.

E finalmente para levantar os ânimos, como já é tradição, subiu ao palco toda a equipa que permitiu a realização do festival, maioritariamente voluntários da aldeia, para dançar e cantar a música do Milagre Metaleiro. Se o SonicBlast é o festival internacional que chama estrangeiros, o Milagre continua a ser a festa local que reúne todos. Não é a grande escala que faz deste o meu festival favorito, é o espírito de família. Felicito a organização por conseguir montar o novo recinto, mantendo preços razoáveis de bilhetes, comes e bebes (ai o hidromel!), merch variado, de barato das bandas pequenas ao caro das internacionais. 2027 só pode melhorar, mas esta edição será inesquecível!
Texto e fotos por Luís Balsa (Moshografia)
Agradecimentos Milagre Metaleiro
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