WOM Report – Tool, Fiend @ Altice Arena, Lisboa – 02.07.19

Este é um exercício difícil de fazer. Seja como for a abordagem, seja qual for o ângulo, para muitos milhares de pessoas, o concerto do dia 2 de Julho no Altice Arena foi o concerto do ano. Eram essas as expectativas e foi essa a reacção de todos os presentes perante o regresso dos Tool ao nosso país. Então como descrever algo assim? Para quem foi, qualquer palavra é inútil para descrever as emoções vividas. Para quem não foi, não serão também as minhas humildes palavras que vão substituir o terem estado presentes. No entanto isso nunca foi impedimento para cumprirmos a nossa missão.

Com as portas a abrirem à 18:30h, para receber uma verdadeira multidão que iria encher a sala, essa tal expectativa que mencionei era bem alta. Tão alta que assim que as luzes se apagam pouco antes das 20:00h, os festejos para o início da música fosse alargado. Mesmo para ver e ouvir uma banda que não conheciam. Essa banda eram os franceses Fiend, que nos surpreenderam pela positiva, ainda que não se movam nos mesmos terrenos musicais que a banda da noite. Com uma sonoridade algures entre o sludge e o stoner/doom, o som estava poderoso, com a voz apenas a soar algo estridente.

Bem sabemos que no Altice Arena é uma verdadeira lotaria mas do sítio onde estávamos posicionados (balcão 1, de frente para o palco) e tirando o pormenor da voz, o som ouvia-se com excelente qualidade. No entanto sem ecrãs gigantes dificultava a visão ainda que se perceba o porquê desta opção, como já explicaremos mais à frente. No entanto. Quanto aos Fiend, acreditamos que tenha sido a primeira vez para muitos os que estavam presentes o som da banda francesa, no entanto ficou-se com a sensação que esta conquistou o público apenas com boa música, não tendo acesso a grandes efeitos a não ser o excelente jogo de luzes. Laivos psicadélicos em alguns temas, bons solos, bom groove. Boa banda. Tendo em conta que eram a única coisa que separava uma multidão sedenta dos Tool, a recepção foi muito positiva.

Meia hora foi o que bastou para os Fiend cumprirem a sua função. Depois foi aguardar até ao momento em que as luzes se apagaram novamente. Tal como antes, o público exalta a sua excitação só que desta vez com um aumento exponencial. Era real, o regresso dos Tool ao nosso país 13 anos depois, igual tempo de espera para nova música. E era garantido – os fãs sabiam – que esta noite iriam ter um cheirinho daquilo que viria ainda este ano. Luzes fora, apenas restava o som. Apesar dos gritos, assobios e outras manifestações de antecipação, era como se todo o Altice Arena estivesse vazio.

Em silêncio.

Apenas se ouvia a intro do “Third Eye Blind”. O pulsar que batia no interior de cada um. E de repente somos puxados como num wormhole para o exterior do nosso corpo. Aplausos a cada entrada de cada membro mas foi com a entrada de Maynard Keenan que se deu a maior ovação. Luzes, som, “Aenima”.  O posicionamento da banda seria o mesmo até ao final do espectáculo mas para quem conhece Tool sabe que isso não é surpresa. Uma banda que não faz o culto da imagem. Ou pelo menos o culto da sua imagem. A táctica era usar um fantástico jogo de luzes. O trunfo nada secreto, a sua música. Os músicos encontravam-se num plano secundário, como os generais numa batalha que sabiamente jogam as suas ofensivas. Se Adam Jones na guitarra e Justin Canchellor no baixo estavam mais à frente no palco, Maynard estava ao lado do baterista Danny Carey. Nos bastidores e depois com cortinas transparentes à frente que desceram a meio do tema e que acrescentaram intensidade dramática e um bonito efeito visual para o público.

“Lisboa!” foi a única palavra dita por Keenan antes de começar “The Pot” e foi a primeira de duas vezes que o vocalista norte-americano se dirigiu ao seu público. Ninguém se importou com isso, por este momento já estavam completamente em transe. Desconfiamos que a banda também, afinal este é um ritual que têm vindo a repetir nas últimas semanas. O público cumpria a sua função, cantava e vibrava com as palavras que conhecia bem. Cada tema tinha a sua coreografia de luz – o que não é de admirar que o alinhamento dos concertos em arenas seja invariavelmente o mesmo, está ali muito trabalho e muito estudo feito para obter o melhor resultado possível. “Parabol” e “Parabola” acentuaram esse hipnotismo. Primeiro pelas nuances minimalistas do primeiro e depois com a explosão do segundo. Explosão de som e luz.

A primeira surpresa da noite chegava com “Descending”, épico novo tema onde as luzes laranja, vermelhas e amarelas mostram que vêm aí fogo no novo álbum. Também fica clara a decisão, muito contestada por alguns fãs, de não permitir registar nem fotos nem vídeos do concerto. Afinal seria o equivalente que ir ao cinema e filmar um filme bastante aguardado para depois colocar no YouTube. Ninguém faz isso, certo? Pelo menos, até ver. E foi um descanso ver um concerto sem ter ecrãs de telemóveis à frente, ainda que alguns tenham tentado furar – e dado que fazer ao staff que se dirigia de imediato ao local para pedir para pararem de o fazer. No entanto, temos que admitir, foi bastante tentador. Música épica e espectáculo de lasers com um grande impacto visual no seu clímax.

“Schism” veio estrategicamente depois, providenciando um ponto reconhecível para o público se apoiar (e cantar e vibrar) antes de avançarem para a outra novidade. “Invencible” é outro tema épico, onde o peso também não está alheio – tendo em conta a amostra, a expectativa ainda cresceu muito mais para o sucessor de “10000 Days”. Regresso ao passado com “Intolerance” e o seu “riffão”, com a imagem do álbum “Undertow” no fundo a ganhar vida. Por falar em “Riffão”, o que dizer de “Jambi” do atrás mencionado último álbum de originais? Só superado pelo poder imortal da clássica “Forty Six & 2”, cantada por um Altice Arena praticamente em uníssono, um dos momentos mais arrepiantes da noite.

Neste momento chegaríamos a uma pequena pausa de 12 minutos, que antecedeu o encore. Com o relógio em contagem decrescente e com o público em crescendo até o tempo terminar, surge uma grande surpresa: a confirmação nos ecrãs de uma data – 31 de Agosto – que era subentendida como a data de lançamento do tão aguardado álbum. O início da recta final do concerto deu-se com um solo de bateria de Danny Carey que percorreu várias sonoridades desde as electrónicas até às mais orgânicas, naturalmente as nossas preferidas. “Vicarious” fizeram os lasers saírem outra vez a cortar a escuridão e o final (após o interlúdio “(-) Ions”) surge com uma épica “Stinkfist” que teve autorização por parte de Keenan para que o público pudesse tirar os telemóveis do bolso para filmar e fotografar – o que fez com que se tivesse um mar de ecrãs brancos – e que antes de atacar esse clássico, agradeceu pela recepção calorosa e em como é bom voltar ao nosso país.

Vamos ser sinceros, depois de “Stinkfist” estava tudo em êxtase mas quantos não quereriam mais? É um equilíbrio, esse, difícil de atingir, onde se fica com fome e sede por mais mas sabendo que se está de coração e alma cheia – diria talvez a transbordar. Este foi/é um espectáculo diferente, no entanto, estamos a falar de Tool, uma das bandas mais singulares da música pesada. Contra a corrente, ignorando as regras e até passando por cima daquilo que os fãs lhes exigem, Maynard Keenan e os seus pares conseguem sempre surpreender e dar exactamente aquilo que os fãs precisam por vezes em oposição ao que querem. O resultado foi um dos concertos do ano ou pelo menos, um concerto que todos os que compareceram nunca mais esquecerão.

Texto Fernando Ferreira
Fotos Sónia Ferreira
Agradecimentos Everything Is New


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