WOM Report – Vulcano, Filii Nigrantium Infernalium, Scum Liquor @ RCA Club, Lisboa – 05.12.19

Noite de festa necro rock’n’roll com três propostas que falam português – não é todos os dias que algo assim acontece. Os míticos brasileiros Vulcano, depois de arrasarem no Porto, desceram a Lisboa para espalharem o seu thrash metal extremo, muito bem acompanhado pelos mestres da profanação religiosa Filii Nigrantium Infernalium e os temíveis seca-adegas Scum Liquor. A noite estava particularmente fria mas não foi algo que nos preocupasse à entrada do RCA Club, pois tinhamos a certeza que dali a momentos as portas do inferno se iriam abrir de forma épica. Efectivamente foi o que aconteceu.

Os Scum Liquor foram os primeiros a abrir as hostilidades, com uma casa que se temia que não estivesse à altura da potência sonora que aí vinha. Felizmente não foi sempre assim. No entanto a banda portuguesa subiu ao palco e começou logo por deixar claro de que esta seria uma actuação centrada no álbum de estreia editado há pouco tempo, “Midnight Pleasures”, tendo-o tocado praticamente na íntegra. “Dirty Habits”, “Dead End” (esta até fez com que P. Tosher partisse uma baqueta) “Die Wasted” foram indicações de que esta foi uma aposta ganha e o público, esse, também o demonstrou. 

De seguida subiria ao palco aquela que é mais preciosa banda blasfema de todos os tempos. Para a adornar o palco estava logo um cartaz de uma procissão da nossa senhora do Bom Sucesso (invertido, claro está) que nos assegurava que a devida reverência era prestada pelos opositores . “Labyrinto” começou a missa negra e começou em grande, sem dando espaço para respirar para adentrarmos pela “Abadia Do Fogo Negro”, clássico dos clássicos da banda comandada por Belathauzer que conta ainda com Rick Thor (dos Ravensire) e com Deris (dos Corpus Christii) e sem esquecer Arno Maalm. Por falar no Monsenhor das artes negras, bom humor não faltou, como já é costume, dedicando “A Forca” às igrejas que cercam o RCA.

“Não Há Futuro” mostrou que não havia mais futuro para o cartaz em palco, ele que ousou cair a meio da missa negra, tendo sido prontamente enviado para o os fieis que vibravam com as belas peças de black/thrash metal necro como “Pó” com o vocalista de apoio vestido a rigor (um traje de monge da ordem do tinhoso) e “Lactância Pentacostal” antes de voltar, novamente aos clássicos, com a “balada” (tal como foi anunciado por Belathauzer) “Herança de Outono” para acabar com “Matéria Negra” retirado de “Hóstia”, o último álbum de originais da banda (ou como o frontman anunciou, e passo a citar, “retirado do último disco de sucessos da Madonna”) e “Sacra Morte”. Como sempre, um concerto de Filii é sempre algo único e memorável e este não foi excepção.

Os senhores da noite (negra), no entanto, era mesmo os lendários Vulcano. A banda brasileira é dono de um daqueles sons que é capaz de agradar tanto os fãs das sonoridades mais tradicionais, como dos que gostam de coisas mais extremas. E não é ao acaso já que mais que fazer revivalismo, a banda nasceu no meio da ebulição efervescente da música extrema em meados da década de oitenta e lançou um álbum de estreia memorável, “Bloody Vengeance” e apesar de ter precisado de uma segunda vida para reafirmar todo o seu poder bélico (o resto da década de oitenta foi a modos que fraquinha), não deixou de ter uma marca no underground já no presente milénio.

Marcou na altura e ainda no presente. Ao presenciar um concerto da banda, não se tem propriamente noção de um antes e depois, já que a sonoridade thrash/black (ou thrash/death/black, como quiserem encarar) soa bastante uniforme. Começaram com a instrumental “The Man, The Key And The Beast” – quanto a mim, ainda é a melhor forma de iniciar o quer que seja, com um bom instrumental – mas foi com “Church At A Crossroad” que o sangue começou logo a ferver, com a entrada de Luiz Carlos Louzada, o frontman da banda brasileira que é dono de uma voz que junta agressividade dos três géneros citados atrás.

De assinalar o som a roçar a perfeição com os riffs e os duelos de guitarra solo de temas como “Witches Sabbath” e “The Evil Returns” a ouvirem-se muito bem. O público não precisava de autorização para fazer headbang e motivos não faltaram, definitivamente. O alinhamente foi muito semelhante ao mais recente trabalho ao vivo da banda, “Live III – From Headbangers To Headbangers, tiradn o facto de no RCA a banda ter apresentando um tema novo, “Evil Empre”, que sairá no próximo álbum da banda, que assinou contrato com uma editora dinamarquesa. Na recta final a banda tirou da cartola uns temas mais antigos, na altura que cantavam em português e essa sequência foi arrasadora.

“Total Destruição” e “Guerreiros de Satão” levaram à conclusão. Ou pelo menos assim se pensava, não fosse o baterista voltar ao palco, quando opúblico já estava a abandonar a sala  perguntar se ainda queríamos mais uma. Obviamente que a resposta foi positiva, e assim, fora da setlist que a banda tinha preparado, ouviu-se uma “Ready To Explode”, cuja fúria desenfreada foi a maneira ideal de encerrar uma noite onde a música extrema e ao mesmo tempo nacional (ou pelo menos cantada em português, foi rainha e senhora.

Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira

Agradecimentos Metal’s Alliance


 

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