Crónica Editorial – “Não é o que fazes, é quem conheces”

Lutei um pouco interiormente antes de fazer esta crónica por ter a certeza de que seria mal interpretado. No entanto, já tenho experiência suficiente que existem coisas que não devem ser guardadas. Ou engolidas. A World Of Metal é um projecto que nasce da paixão de todos os envolvidos. Paixão pela música, invariavelmente pesada (daí o nome) e que tenta fazer a cobertura de todos os géneros que esta contém, indo até por vezes para além desse mesmo enorme mundo. E por cobertura entenda-se entrevistas, críticas e análises a álbuns e por fim, concertos. A experiência que tenho acabou por nascer através de outro projecto (do qual agradeço todos os dias por ter feito parte e por me ter dado a aprendizagem que tenho hoje em dia). O nosso objectivo sempre foi tentar mostrar a nossa paixão a outros que sintam a música que nós. Mesmo aos que não sintam… que possam sentir, que possam ver através dos nossos olhos, através das nossas fotos, através das nossas palavras. Não há concerto grande demais, não há concerto pequeno demais. Todas as bandas merecem esse tratamento, com mais ou menos experiência, com mais ou menos nome. Todas.

Esse sempre foi e continua a ser o nosso lema. Estarmos presentes. Salas cheias, salas vazias, com ou sem colegas. Estarmos presentes. Não vos vou enganar. Falhámos muitas vezes. Por cansaço, por problemas de saúde, por termos uma equipa curta, nem sempre conseguimos estar presentes quando queríamos estar, mas esse objectivo nunca deixou de estar presente. Afinal a paixão continua a estar presente. A nossa ideia nunca foi começar pelo underground e crescer às custas deste para depois chegarmos a vôos mais altos. Mais uma vez digo, um não substitui o outro e apesar do impacto e alcance diferenciado, não abdicamos nem faz sentido para nós abdicar de um para o outro. Pelo que não deixa de ser estranho verificar (não uma, não duas mas várias vezes) que quando surge grandes eventos em Portugal – e não é preciso mencioná-los porque não são tantos como isso – que o mesmo interesse que existe para que estejamos presentes desvaneça em favor de alguns (também não é preciso mencionar porque basta verificar a sua actividade da cobertura dos eventos de música pesada para se fazer a triagem) que actuam de forma sazonal, precisamente  quando estes mesmos eventos surgem.

Esta estranheza surge pela minha ingenuidade e inocência, bem sei. Por pensar que nós fazendo o que fazemos por paixão, sem pedir nada em troca, que esse trabalho seria recompensado. Na verdade aquilo que encontro é precisamente o contrário. Encontro um sistema em que consiste na velha máxima “não é o que tu fazes, é quem tu conheces”. E isso permite que se vá para o pit tirar fotos com os telemóveis ou mais preocupado em fazer selfies do que propriamente em apresentar uma reportagem profissional. E confiante que independentemente de haver provas dadas ou não, se estará presente no próximo grande evento. Porque “não é o que tu fazes, é quem tu conheces”.

Não me entendam mal, não digo isto movido por inveja nem por querer interferir nas decisões que cabem a cada promotor. Nem quero fazer generalizações porque se as mesmas não devem ser feitas em relação aos nossos colegas, também não devem ser feita em relação aos promotores. Nem sequer quero entrar pela resposta fácil da máfia e das teorias de conspiração. É apenas estranheza. E as dúvidas que vêm com ela. Será que estamos ver mal a coisa? Será que deveríamos trabalhar apenas duas ou três vezes por ano e descansar? Não chamando propriamente trabalho ao que se faz nessas duas ou três vezes por ano… Se calhar estamos a ver tudo mal e profundamente errados. Então porque é que o nosso coração nos diz exactamente o contrário? Porque é que nos diz que devemos ser parceiros de eventos que não atraem milhares de pessoas, porque é que queremos ajudar esses mesmos eventos? Mesmo quando os mesmos não retribuem com o reconhecimento pelo nosso trabalho – ou agradecem a outros com “nome maior” mas que também pouco fazem, porque fica sempre bem ficar associado a tais “nomes”.

Não estamos aqui por acaso, não caímos aqui de pára-quedas e por muitas voltas que a vida dá e que nos traga mudanças que estão fora das nossas mãos, estaremos cá muito depois desses eventos sazonais desaparecerem. Não temos interesses secundários, não queremos protagonismos, nem queremos fazer amizades para atingir fins ocultos. Não estamos aqui para fazer negócio nem para andar a vampirizar os outros. O nosso interesse é a música. Graças a ela, somos premiados por verdadeiros amigos, verdadeiros parceiros que sabem e reconhecem o que fazemos. Que vêem e sobretudo sentem a música como nós. Com paixão.


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One thought on “Crónica Editorial – “Não é o que fazes, é quem conheces”

  • Junho 29, 2019 at 5:27 pm
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    As coisas levam tempo eu levei 32 anos a ser reconhecido e estava ligado ao jornal A CAPITAL

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