Eye Of The Storm – Top 10 Álbuns 2018

Top 10 Álbuns – 2018

por Daniel Laureano (Moonshade / A Constant Storm)

 

Menções Honrosas

Ihsahn – «ÀMR» (Candlelight Records)

Harakiri For The Sky – «Arson» (Art Of Propaganda)

Daughters – «You Won’t Get What You Want (Ipecac Recordings)

 

  1. At The Gates – «To Drink From The Night Itself» (Century Media)

            Por mais engraçado que o nome seja (experimentem erguer o punho e gritar ‘TO DRINK… FROM THE NIGHT… ITSELF’ com dramatismo cómico), não há nada de jocoso no segundo disco da nova vida dos lendários At The Gates, que se traduz em 45 minutos da sua icónica marca de death metal grandioso, repleto de ritmos frenéticos e trabalho de guitarra que logra ser brutal e elegante ao mesmo tempo. No seu total, trata-se de um álbum extremamente consistente em termos de qualidade, que apenas peca pelo exagerado grau de sujidade na produção, algo que se justifica pela agressividade do som e tentativa de aproximação aos early days do colectivo de Gotemburgo, mas que ainda assim poderia ter sido um nadinha mais polida. Ainda assim, há que dizer que a noite sabe bem.

Highlights: “To Drink From The Night Itself”, “Daggers Of Black Haze”, “The Chasm”

 

  1. Aeon Sable – «Aether» (Solar Lodge)

            O quinto álbum da carreira dos Aeon Sable – uma banda germânica com ligações fortes a Portugal – é o segundo cuja capa apresenta a cor branca como dominante cromática, após 3 discos e um EP com capas predominantemente negras. A ligação ao uso da tonalidade mais clara parece-me particularmente interessante por representar o oposto daquilo que tem sido a evolução do som da banda, que já em «Hypaerion» vinha acrescentando progressivamente mais peso ao seu goth rock melancólico. Neste «Aether» a banda surge mais intensa do que nunca, algo acentuado por várias características: a voz gutural do vocalista Nino Sable a surgir cada vez mais; o maior grau de distorção na guitarra de Din-Tah Aeon – cujos riffs e leads soam mais possantes do que nunca –; e a bateria, sobre a qual não consigo ter a certeza se foi gravada live ou novamente programada, mas desta vez com a aplicação de um plug-in propositadamente mais realista, que a faz soar menos mecânica do que nos discos anteriores.

Highlights: “Deadlock Canon”, “O Senhor Do Medo”, “Dark Matter”

 

  1. Gaerea – «Unsettling Whispers» (Transcending Obscurity Records)

            Apesar de contarem com pouco mais de dois anos de história, os misteriosos Gaerea já são uma das bandas mais importantes da nossa cena musical, e muito o devem a este «Unsettling Whispers», full length de estreia dos nortenhos, que os tem levado às bocas do mundo e aos palcos do nosso velho continente. Juntamente com um lado visual irrepreensivelmente construído, o quinteto mascarado apresenta neste LP um conjunto de faixas que exploram – tanto musical como liricamente – as dores da existência humana, bem como toda a fúria e raiva que, segundo uma perspectiva assumidamente negativa, marcam cada segundo que vivemos neste mundo. Deixem que as paredes de distorção, o tremolo picking impiedoso, os blast beats trovejantes e os berros desesperados sirvam de banda sonora para as divagações filosóficas sobre a vida, em tempos de crise.

Highlights: “Absent”, “Lifeless Immortality”, “Extension To Nothingness”

 

  1. Behemoth – «I Loved You At Your Darkest» (Nuclear Blast)

            «The Satanist», lançado em 2014, foi um marco gigantesco na história dos Behemoth, bem como um dos lançamentos de black metal mais importantes de todos os tempos (quiçá o mais importante de todos os tempos). O seu legado é intocável e o trabalho que o sucedesse teria sempre uma missão extremamente complicada em mãos, algo que poderia ser tão entusiasmante quanto assustador para a banda. No meu entender, os polacos tomaram a decisão correcta, ao não tentar replicar a fórmula que tanto sucesso lhes deu, acabando por inovar mais uma vez. Daí nasce «I Loved You At Your Darkest», um disco onde os Behemoth mantiveram a atmosfera blasfema e teatralidade sinistra, características icónicas do seu black/death metal muito próprio, mas casaram estes elementos com marcadas influências góticas e post-punk, que só surpreenderão quem não saiba do confessado amor de Nergal por grupos como Bauhaus ou Fields Of The Nephilim. “Bartzabel” será, possivelmente, o mais próximo que os Behemoth alguma vez estarão de fazer uma balada, algo que por mais bizarro que soe não tira mérito ao total brilhantismo da faixa. O disco passava bem sem os coros de criança, no entanto.

Highlights: “God = Dog”, “Bartzabel”, “Havohej Pantocrator”

 

  1. Primordial – «Exile Amongst The Ruins» (Metal Blade Records)

            Os mestres do metal celta regressaram aos álbuns de originais, 4 anos após a edição de «Where Greater Men Have Fallen», um disco que, apesar dos seus inegáveis momentos altos, me pareceu algo desinspirado em 60% ou 70% dos temas. Face a isto, haveria melhor retorno por parte da banda do que ao lançar aquele que me parece ser o seu melhor trabalho até à data? Este «Exile Amongst The Ruins» demonstra uma banda em topo de forma, onde a natureza épica dos contos de guerra interpretados por A.A. Nemtheanga acompanha os sublimes riffs e leads das guitarras de Ciáran MacUiliam e Micheál O’Floinn, que desta vez puxaram o factor catchy ao máximo, particularmente em temas como “To Hell Or The Hangman”, uma música que contém um único riff de guitarra durante mais de 7 minutos e que, de alguma maneira, nunca deixa de ser interessante. Última nota para “Stolen Years”, que mostra que até nas baladas os Primordial são de um nível superior – trata-se de uma música que nunca antecipei ouvir num disco dos irlandeses, mas cuja existência põe um enorme sorriso na minha cara.

Highlights: “Nail Their Tongues”, “To Hell Or The Hangman”, “Stolen Years”

 

  1. Ghost – «Prequelle» (Loma Vista/Spinefarm Records)

            É inegável que o processo legal algo pantanoso que veio revelar as identidades dos então ex-membros dos Ghost, bem como a confirmação de Tobias Forge como mastermind do colectivo sueco, deixaram uma amolgadela na mística do grupo. Contudo, não podendo desfazer o problema, a melhor maneira de recuperar deste golpe que seguramente não estava nos planos, mantendo pelo caminho a credibilidade artística do grupo, seria assumir a situação mas não deixar de parte a força e qualidade da música. Foi no seguimento desta reviravolta que o mundo viu nascer «Prequelle», um disco cuja temática explora a relação do ser humano com a morte, algo que pode bem ser uma metáfora paradoxal para a nova vida de Tobias, que lidou com o sacrifício do anonimato ao continuar com a progressão do som acessível dos Ghost, que cada vez mais soam a uma banda de pop rock (digo isto no melhor dos sentidos, entenda-se). Através de melodias infeciosas, batidas largas e letras sinistras cantadas com uma alegria jovial desconcertante, «Prequelle» continua a mostrar o porquê dos Ghost serem uma das melhores bandas de rock dos dias de hoje.

Highlights: “Rats”, “Dance Macabre”, “Witch Image”

 

  1. Zeal And Ardor – «Stranger Fruit» (Mvka/Radicalis Music Group GmbH)

            Ao primeiro contacto, o conceito de misturar cânticos de escravos com black metal pode soar à coisa mais estranha do mundo (e pode muito bem ser, sejamos sinceros…), mas isso não impediu o músico suiço-americano Manuel Gagneux de criar Zeal And Ardor, um projecto que visou tomar partido dessa mesma ideia e explorá-la artisticamente. O ano de 2018 testemunhou o aparecimento de «Stranger Fruit», um disco onde Gagneux continuou a explorar a fusão entre as quentes canções negro spiritual – que não raras vezes me remetem para um qualquer cenário do filme Django Unchained, de Quentin Tarantino – e o black metal abrasivo, reminiscente dos anos 90 na fria Noruega. As transições entre ambientes continuam a ser tão repentinas e desconcertantes como no impressionante «Devil Is Fine», e os choques térmicos que causam continuam a ser tão gratificantes como na proposta de 2016, sendo que a principal diferença que encontramos em «Stranger Fruit» é a composição estrutural dos temas, que aqui surge bem mais refinada e inteligente, deixando bastante claro que o objectivo desta proposta passou por elevar a fórmula ao seu exponente máximo, algo que se provou uma escolha tremendamente acertada.

Highlights: “Don’t You Dare”, “We Can’t Be Found”, “Built On Ashes”

 

  1. Riverside – «Wasteland» (Inside Out Music/Sony Music)

            Corria o mês de Fevereiro de 2016 quando a vida dos Riverside mudou para sempre, por virtude da morte de Piotr Grudziński, membro fundador do colectivo polaco. A banda não tardou a anunciar que não iria substituir o guitarrista e que tencionavam continuar como um trio, deixando doravante a gravação das guitarras a cargo do baixista e vocalista Mariusz Duda.          Este acontecimento trágico molda a totalidade de «Wasteland», um disco onde o luto tinge cada nota, acorde, batida ou palavra. Por onde quer que se procure, ao longo destas 9 faixas não se encontra um momento livre dessa tristeza inerente, sendo particularmente interessante verificar que a própria narrativa acaba por ser apresentada de forma fluída, não seguindo uma linha cronológica regular – basta tomar como exemplo o facto da primeira faixa ter o título “The Day After” e a última “The Night Before”. Aqui vemos que o próprio passar do tempo acaba por perder importância, tal a torrente de sentimentos que ocupa o coração de quem sofre – isto apesar de todo o disco ter um subtexto de esperança como linha condutora: de facto, este não é um disco sobre o fim do mundo, mas sim sobre sobreviver ao fim do mundo, seguindo em frente apesar de toda a dor.

Highlights: “Acid Rain”, “Vale Of Tears”, “River Down Below”

 

  1. Warrel Dane – «Shadow Work» (Century Media)

No dia 13 de Dezembro de 2017, Warrel Dane – conhecido maioritariamente pelo seu papel de vocalista nos Nevermore e nos Sanctuary –, faleceu em São Paulo, vítima de uma paragem cardíaca. Nos meses que antecederam a sua morte, Dane gravou faixas vocais para oito das músicas que havia composto para este «Shadow Work» e, após o seu desaparecimento, os músicos que o mesmo havia reunido para trabalhar neste projecto decidiram concluir as mesmas e lançar o disco, para que o mundo pudesse escutar a derradeira obra do virtuoso cantor. Ao ouvir e analisar este disco cedo me veio à memória «Blackstar», o último álbum de David Bowie, no qual o mesmo mostra estar perfeitamente consciente do seu destino, acabando por fazer do disco uma despedida grandiosa. É certo que Warrel Dane não sofria de nenhuma doença ou condição degenerativa (apesar das suas conhecidas lutas contra as drogas e o álcool), algo que à partida oferece pouco suporte à possibilidade de que o mesmo saberia que o seu tempo neste mundo estaria perto de chegar ao fim, mas ainda assim a questão persiste na minha mente: será que Dane sentia de algum modo que iria partir em breve, e que por essa mesma razão estava a moldar «Shadow Work» para ser o seu disco de despedida? Ou será que esta noção nasce do facto do disco só ter sido ouvido num mundo onde o seu criador já não habitava, o que contamina a sua interpretação? Não sei responder, mas tenho uma única certeza, a de que «Shadow Work» é um epílogo adequado para uma das mais icónicas vozes da música pesada.

Highlights: “Disconnection System”, “As Fast As The Others”, “Mother Is The Word For God”

 

  1. Dead Can Dance – «Dionysus» (PIAS Recordings)

O colectivo artístico conhecido como Dead Can Dance é um dos grandes nomes da música mundial e, a meu ver, uma das maiores dádivas que a quinta arte já deu à humanidade. São uma das minhas maiores influências como artista e um dos grupos que mais marcou a minha vida, algo que faz com que cada novo lançamento deles seja um acontecimento que merece total atenção da minha parte, até porque não são muito frequentes.

A chegada do muito antecipado sucessor de «Anastasis» demorou 6 anos e veio através das ondas azuis do mar Egeu: «Dionysus» é uma viagem pelos rituais mitológicos do deus do vinho e do êxtase, onde a transcendência impera como palavra de ordem. O disco está dividido em duas partes – cada uma subdividida em três e quarto movimentos, respectivamente –, e leva o ouvinte através de uma viagem mística pelos oceanos, florestas e montanhas gregas, abdicando de estruturas musicais tradicionais para privilegiar a força da hipnose e das pulsações tribais que, ora com mais prominência ora com menos, sempre acompanharam o duo britânico-australiano desde o início da sua carreira, como uma das estrelas mais brilhantes da lendária editora 4AD.

Em 2018, Brendan Perry e Lisa Gerrard acrescentaram mais uma estrela à constelação perfeita que é o seu output discográfico. «Dionysus» soa diferente de tudo aquilo que o duo já criou na sua ilustre carreira, e no entanto cada segundo da sua duração está embebido pelo inconfundível ADN de Dead Can Dance. A capacidade de manter ambos em perfeito equilíbrio é transversal à existência desta entidade criativa, e é um verdadeiro sinal de génio, um sinal dos deuses… Uma marca de deuses.

Highlights: há poucas versões deste disco com os movimentos separados em faixas, portanto o mais seguro é mesmo ouvir tudo


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