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Pilhas de Discos #14 – Crimson Glory, Santa Clara Blues, Desolus, Iron Savior, Tesla

Crimson Glory – “Chasing The Hydra”
2026 – Bravewords Records

Os Crimson Glory são um daqueles nomes que evidenciam a qualidade do heavy metal norte-americano na década de oitenta. A mistura do heavy/power metal com elementos progressivos garantiram a imortalidade a álbuns como a estreia auto-intitulada e o seguinte “Transcendence”. Os anos noventa seriam marcados por dois álbuns, “Strange And Beautiful”, o último com Midnight no início da década e no final “Astronomica”, já com Wade Black na voz e com uma sonoridade mais bombástica, mais moderna, e mesmo característica em relação às raízes da banda. Quase trinta anos após esse álbum, e com um novo vocalista, Travis Wills, “Chasing The Hydra” chega e afirma-se como a sequência natural de “Transcendence”, onde a classe é esbanjada em termos vocais e instrumentais. Um álbum que poderá não chegar ao estatuto de clássico como os dois atrás citados mas que com o devido tempo poderá dar tanto prazer auditivo como tal. (9/10)

Desolus – “Dwellers Of The Twilight Void”
2026 – Hells Headbangers Records

Demasiadas vezes perseguimos (nós aqui na World Of Metal e provavelmente vocês também) pela perfeição. O riff perfeito, a voz perfeita, o solo perfeito, a música perfeita ou o álbum perfeito. Quando na realidade o heavy metal vive da imperfeição e dos acidentes felizes que acontecem, ou pelo menos aconteciam, quando a música era mais sentida do que pensada. Isto tudo para dizer que o segundo álbum dos Desolus é uma declaraçõa de amor ao metal extremo orgânico. A tudo aquilo que os Destruction, Sodom, Kreator construíram nos primórdios e deram origem ao death metal e que o black/thrash depois recuperam na década seguinte. Os Desolus são americanos e a sua nacionalidade é irrelevante quando eles tocam este necro thrash metal furioso. Produção orgânica, feeling puro aço e um disco que é para ouvir a fazer headbang constante. (8.5/10)

Abissi – Paramagia
2026 – Octopus Rising (Grand Sounds PR)

“Paramagia” dos Abissi afirma-se como um disco de rock pesado que ultrapassa rótulos, fundindo psicadelismo, stoner e tonalidades góticas com densidade e agressividade. Os riffs esmagadores coexistem com atmosferas fantasiosas e de forte carga emocional. A combinação de brutalidade com melodia faz despertar os sentidos num ambiente imersivo. Em suma, “Paramagia” revela uma banda em clara afirmação, capaz de construir um universo sonoro intenso, multifacetado e marcante no panorama do rock alternativo contemporâneo. (8/10 – por João Braga]

Toxic Shock – “Future Is Calling”
2026 – This Charming Man Records (CZ Promotions)

Os belgas Toxic Shock estão de volta com o seu terceiro álbum, depois de nove anos de ausência e regressam com um álbum que é precisamente aquilo que se esperava: um rolo compressor de thrash crossover que nos varre de uma ponta à outra em cerca de trinta minutos. Unidimensional, directo ao assunto e a manter viva aquelas que são as suas melhores características. Valeu bem a pena a espera. (7.5/10)

Iron Savior – “Awesome Anthems Of The Galaxy”
2026 – Perception (All Noir PR)

Os Iron Savior estão numa fase criativa relaxada da sua carreira. Com mais um álbum de regravações lançado no ano passado, este ano aventuram-se numa colecção cheia de covers de clássicos da pop e nalguns casos rock da década de oitenta. A qualidade das músicas em questão não apetece muito mexer com elas, até porque o facto de ser reconhecíveis são o seu grande atractivo. Claro que as guitarras estão sempre presentes, mas no geral são reinterpretações que trazem poder a músicas como “Maniac”, “Take On Me”, “Relax”, “Since You’ve Been Gone” entre muitas outras. Os filhos da década de oitenta vão gostar de navegar no tempo com os Iron Savior, neste conceito que se apoia nas famosas mixtape dos filmes dos Guardiões da Galáxia. (7/10)

Tesla – “Hommage”
2026 – Frontiers Records

Não existem dúvidas que os Tesla são uma das mais subvalorizadas bandas de hard rock americanas, com uma carreira sólida, mesmo tendo hibernado no deserto para o estilo que foi o grunge e posteriores modas. Como tal, a indicação de um álbum de covers é algo que imediatamente apelou aos nossos sentidos, já que os dois álbuns anteriores, “Reel To Reel” e “Reel To Reel, Vol.2” são bons exemplos de como um álbum de covers deve soar. Neste caso aqui, apesar da qualidade estar cá, o impacto é menor. Talvez por ser um álbum mais pacato, sem muitos momentos para fazer ferver o sangue e com as rendições a serem próximas do espírito do original. É bom para os fãs da banda e que gostem de conhecer um pouco mais da história do rock mas quem esperar mais, poderá ficar desiludido. (6.5/10)

Self Deception – “One Of Us”
2026 – Napalm Records

A Napalm Records tanto consegue impressionar pelas boas propostas que lança como pelo factor comercial em que continua a apostar. E não os podemos censurar, afinal, um negócio não é um negócio se não houver vendas, sobretudo num mundo onde cada vez mais a música também ela se tornou descartável, o físico é um artigo de luxo e para colecionadores e o que interessam são as views e os números de streams. Tudo isso é certo, assim como também a música que os Self Deception, uma banda já com alguma carreira, fazem onde a abordagem da imagem e dos lugares comuns supera a substância. Música dançante, com refrões orelhudos e tudo aquilo que já ouvimos desde que nu-metal veio e foi tal como o metalcore. Temos resquícios de ambos aqui na amálgama que se convencionou chamar de metal/rock moderno. Tem os seus fãs, seguidores e subscritores. Nós aqui gostamos de coisas com substância. (4/10)

Santa Clara Blues – “Hearts And Souls”
2026 – Ragingplanet (Ride The Snake)

Regresso aos discos dos Santa Clara Blues, num disco intenso emocionalmente e de extremo bom gosto. Como no álbum de estreia, o foco continua a ser aquela mistura entre folk, americana, o blues e o bluegrass. Um disco para deixar absorver enquanto se reflecte sobre a nossa travessia neste mundo que por vezes é um deserto e por outras é uma colecção de pequenos tesouros que se vão apresentando à nossa frente – muitas vezes sem que lhes sejam dados a devida importância. Divago. Um disco intimista, com momentos inesquecíveis como a faixa de abertura “Shine On” ou a emocional faixa de despedida “Way High”. (9/10)

Vanta – “Perpetual Selection”
2026 – Self Released (Cutting Edge Metal PR)

Trabalho de estreia dos australianos Vanta que trazem death metal bruto com alguns laivos de melodia que não chegam para os considerarmos death metal melódico tal como está indicado no comunicado de imprensa. O termo death metal melódico poderá levar ao engano. Aliás, o seu ponto mais positivo é mesmo o facto de não ser ao som transparente ao qual encaixamos facilmente numa qualquer prateleira. Mas se tivéssemos que nos esforçar nesse sentido, death metal moderno é uma boa descrição, sendo que os elementos modernos soam mitigados como outros mais clássicos – como inspirados solos de guitarra. (8.5/10) 

Ingested – “Denigration”
2026 – Metal Blade Records

Brutal Death Metal ou Slam? Porque não os dois? É uma questão de semântica, embora a música tenha sempre a última palavra a dizer. Os Ingested não são novatos e se fossem, seria surpreendente. Isto porque “Denigration”, não demonstra uma banda a fazer o que sempre fez, o que, honestamente, é mais comum neste sub-género do que aquilo que gostaríamos de admitir. é sim, uma banda que pegou em toda a sua experiência, em todos os seus pontos fortes e usa tudo isso para marcar um novo capítulo na sua carreira, onde há uma sensação de refrescar e de revolucionar o que, de alguma forma ou outra, estava estagnado. Um disco que poderá surpreender quem não é fã do género, pelas suas dinâmicas e potencial para se manter na memória. (8/10)

Who On Earth – “It Takes The Village”
2026 – Edição de Autor (Secret Service PR)

Os Who On Earth nasceram com muitas bandas de originais: como uma banda de covers que ganhou confiança suficiente para apostar nos seus próprios temas. Por vezes essa confiança é infundada – porque nem sempre um bom intérprete é um bom compositor – mas no caso dos Who On Earth de New Jersey, ainda bem que arriscaram. “It Takes The Village” é já o seu segundo álbum e mostram uma identidade muito própria de fazer heavy metal, com alguma aproximação ao hard rock ou mesmo rock. Nem a perda trágica de um dos seus guitarristas, Bruce Gatewood, os impediu de sacudirem a poeira e continuarem o seu caminho com Jimmy Kocha e um conjunto inspirado de canções. Bom álbum (7.5/10)

Black Cilice – “Votive Fire”
2026 – Iron Bonehead Productions

O black metal lo-fi tem um encanto que não se explica. Sente-se. Sobretudo quando tem poder hipnótico, algo que Black Cilice não costuma falhar. E não é agora que isso acontece. Pelo menos, não por completo. Seria ridículo falarmos da produção em black metal raw, mas a verdade é que quando se tem músicas entre os sete e os dez minutos, com algumas variações, variações essas que ajudam as dinâmicas a tornar a coisa interessante, corre-se o risco de algumas dessas dinâmicas ficarem soterradas mediante a estética sonora. Ainda assim, é um álbum recomendado para quem gosta de black metal no seu estado mais primitivo. (7/10) 

Sandmind – “13 Pragas Infernais”
2026 – Edição de Autor (Against PR)

Sempre interessante ver uma banda começar a sua carreira discográfica de forma tão ambiciosa, com um álbum conceptual sobre o Egipto antigo. Um conceito que funde-se bem com a música, mas não tão bem com a voz, num registo próximo daquele que Fernando Ribeiro usa bastante principalmente no “1755”, álbum que se destacava por ter letras em Português. O problema desse registo é que sem variação e dinâmicas acaba por cansar e soar na maior parte das vezes forçado. Quando há algumas incursões mais melódicas, os resultados também não são melhores – como a “Escravo” prova. Boas ideias, a materialização das mesmas sofre de qualquer projecto que dá os primeiros passos, que com um pouco mais de experiência seriam reavaliadas e concretizadas de outra forma. (6/10)

Six Feet Under – “Next To Die”
2026 – Metal Blade Records

Six Feet Under nunca foi um nome conciliador no death metal mas a sua popularidade (ou até mesmo aceitação) tem vindo a cair a pique até mesmo naqueles que são fãs da banda de Chris Barnes. Pode-se imputar isto às vocalizações de Chris Barnes que estão longe do impacto lendário dos tempos de Cannibal Corpse mas a verdade é que apesar de muitos nomes de peso terem passado pelas suas fileiras, a música sempre tem sido banal. Mais impressionante é que nos anos em que a crítica tem sido mais feroz em relação à qualidade da música, a formação está estável e faz parte dela Jack Owen, que teve um percurso notável nos Cannibal Corpse e posteriormente bastante interessante nos Deicide, mas que aqui simplesmente não consegue dar aquele toque mágico para que tenhamos algo seja em riffs, solos, leads, o quer que seja. “Next To Die” é mais comedido em relação ao seu antecessor mas torna a nu que actualmente os Six Feet Under não trazem nada de novo, interessante ou sequer relevante. (4/10)

 

V/A – “Wish You Were Here – 50 Years Later”
2025 – Pale Wizard Records (Memphia Music PR & Management)

Como prestar o tributo a um dos grandes álbuns de sempre do rock (progressivo ou não)? Tarefa difícil que nunca irá agradar a todos – certos fãs poderão até achar uma heresia – mas eu tenho tendência a achar que estes experimentos de entregar cada música a uma banda para a sua própria interpretação é fantástica. O dito clássico tem apenas cinco temas, pelo que aqui temos mais dois temas bónus para tornar a coisa mais interessante. A abordagem é fuzz, muito fuzz, algo que rompe com abordagem clínica a roçar a perfeição. E isso é notado sobretudo no tema-titulo, a cargo dos High Desert Queen, que surge completamente diferente, mais visceral e ruidoso, mas com o mesmo impacto emocional. Temos ainda os Hippie Death Cult a abrir com “Shine On You Crazy Diamond (Pts 1-5)”, Mos Generator com “Welcome To The Machine”, Duskwood com “Have A Cigar” e os Sergeant Thunderhoof a terminar com as partes 6 à 9 da “Shine On You Crazy Diamond”. As faixas bónus são a “Fearless” do “Meddle” pelos Urzah e “Time” do incontornável “Dark Side Of The Moon” pelos Firegarden. (9/10)

Fortress Under Siege – “Envy”
2023 – Rock Of Angels Records (Angels PR)

Não existem dúvidas em relação à qualidade que a cena grega tem oferecido ao mundo do Heavy/power metal e os Fortress Under Siege são o melhor exemplo disso mesmo. “Envy” é o seu quarto registo e mantém vivas todas as suas melhores características. Peso, melodia e virtuosismo sem ceder a facilitismos que poderão ajudar as músicas a entrarem mais depressa nos ouvidos dos fãs mas que depois pouco tempo permanecem. Poderá não se tornar um clássico do estilo, nestes dias de consumismo desenfreado, mas sem dúvida que vai conquistar-lhes novos fãs. (8.5/10)

Amerikan Kaos – “All That Jive”
2025 – Metal Department

Segundo álbum do projecto não-metal de Jeff Waters, eterno líder dos Annihilator. E quem espera metalada forte, está bem enganado. Mas isso não quer dizer, nunca quer dizer, que temos má música. É até bem inspirada tendo em conta os géneros diferentes que aborda. Do rock tipicamente americano, a assaltos funk e outros que nos soam que poderiam estar numa banda sonora de um filme qualquer da década de oitenta, este é um disco que poderá não impressionar à primeira mas que deixa muitos motivos para voltarmos a ele num futuro próximo. (8/10)

Tsunamiz – “Love Is Never Enough”
2025 – Edição de Autor (Ride The Snake)

Tsunamiz já não é o mais bem guardado segredo do underground nacional. Para os fãs de post punk já não são um segredo há muito tempo. Para quem andou distraído, este é o seu oitavo álbum ao qual se junta, como sempre, um conceito lírico interessante e desafiante, que põe a nu todas as (muitas) fragilidades que a nossa sociedade possui. Este é um disco multifacetado que apesar de curto, consegue explorar uma vastidão de sentimentos e moods impressionantes. A estética sonora encaixa como uma luva no conceito e também no sentimento melancólico que percorre todo este disco e apesar de poder exigir uma disposição específica para mergulhar nele, quando isso se faz, não há como voltar. (7.5/10)

Snake Healer – “Oblatio”
2022/2023 – WormHoleDeath

EP de estreia dos norte-americanos Snake Healer que agora é reapresentado pela WormHoleDeath. O seu som anda pelos campos do doom metal, com alguma pitada de Sludge que se torna bastante evidente na sua produção. Com alguns aspectos a puxar ao mais psicadélico, a sua proposta é bastante interessante embora por vezes soe um pouco experimental demais – como a interessante intro da “Call On Me” que dura mais tempo que a própria música e acaba por ser mais memorável. Fica a curiosidade para ouvir mais. (6.5/10)

 

Antipod – “Eveil”
2023 – WormHoleDeath

A capa estranha faz uma boa combinação com a música que podemos categorizar de forma simples como Heavy/power metal mas acaba por ir por outros caminhos, nomeadamente do gothic, duas facetas que embora tragam maiores dinâmicas, não traz uma uniformidade à sua identidade musical que acaba por prejudicar a audição de “Eveil”. (5/10)

 

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