Predominance #22 – Psychonaut, Adur, Tombs, Conjurer, Scarve
Jorge Pereira é um amante de música pesada e de cinema. Colabora com a World Of Metal e tem o seu próprio covil de reviews – Espelho Distópico. Predominance é a sua coluna onde nos vai trazer reviews todos os meses.
Psychonaut – “World Maker” – Têm-se tornando num caso sério de ascensão dentro da conceituada Pelagic Records, falo dos Psychonaut, mais concretamente do seu terceiro álbum de originais ‘World Maker’ lançado em Outubro do ano transacto. O trio Belga que foi “apadrinhado” pelos geniais The Ocean dentro da própria Pelagic Records no seu inicio de carreira é hoje em dia uma verdadeira força da natureza que vale por si só dentro do domínio do Post-Metal e a grande dificuldade é mesmo escolher qual o melhor álbum da banda até ao momento. Confesso que com alguma hesitação eu escolheria precisamente ‘World Maker’ apenas e só pela só consistência pois o álbum praticamente não apresenta pontos fracos. As sonoridade híbrida constituída por Post-Metal e Progressivo vai agregando uma fluida e orgânica atmosfera repleta de fortíssimas descargas emocionais projectada por riffs simultaneamente apaixonantes e espirituais. Não sendo um álbum conceptual ‘World Maker’ vale pelo seu todo, ele funciona como um elemento único e será uma perversidade não o ouvir na integra todavia não posso deixar de salientar a faixa ‘All In time’ pela sua magnificência. ‘World Maker’ não é “apenas” um dos grandes álbuns de 2025 (seria a minha escolha para melhor do ano) como também vai acabar por se transformar num dos álbuns de referência do espectro do Post-Metal. (9/10)
Adur – “We Fail To Love Ourselves” – Foi uma das, senão mesmo a melhor estreia de 2025, falo dos Britânicos Adur a propósito do seu primeiro trabalho de originais ‘We Fail To Love Ourselves’. Formados em Brighton em 2023 os Adur surpreendem desde logo pela desproporcional qualidade das suas composições em relação à falta de experiência do quinteto, custa a creditar que nenhum dos elementos dos Adur tenha tido experiências musicais prévias dignas de registo. ‘We Fail To Love Ourselves’ mostra uma convicta aposta numa personalizada mescla entre Post-Metal, Sludge Metal, Hardcore e umas ocasionais mas meticulosas infusões de Black Metal. Se temas como ‘The Longing’ exibem de forma exemplar toda a musculada força do Hardcore temos outros como ‘The Silhouette’ ou ‘Self Control’ onde o que sobressai é o lodo argiloso, rugoso e pestilento do Sludge Metal. Também não dá para fugir à comparação os Generation Of Vipers a banda que têm possivelmente mais pontos de contacto com os Adur, até mesmo na dimensão lírica pois tal como os Adur também eles se dedicam a explorar as características mais sombrias da condição humana. Em jeito de conclusão não tenho duvidas em apontar ‘We Fail To Love Ourselves’ como um álbum de estreia com uma homogeneidade e consistência invejáveis, um álbum que contem indubitavelmente o potencial para projetar os Adur para muito mais do que “apenas” uns Generation Of Vipers wannabees do outro lado do Atlântico. (8.5/10)
Tombs – “Feral Darkness” – Outro álbum surpreendente de 2025 é ‘Feral Darkness’ dos Nova-iorquinos Tombs no caso o sexto álbum de originais da banda, surpreendente porque é de facto incrível a evolução musical da banda entre ‘Under Sullen Skies’ e ‘Feral Darkness’ num intervalo de cinco anos. Se as sonoridades de ‘Under Sullen Skies’ situaram-se maioritariamente entre o Sludge e o Black Metal em ‘Feral Darkness’ toda a capacidade camaleónica da banda sobressaiu e de que maneira, pois temos faixas onde a evidência vai para o Black Metal poluído e doentio como ‘Black Shapes’ e ‘Wasps’ , temos outras que se destacam por uma refrescante e orgânica aliança entre Doom Metal e Post-Metal como ‘The Wintering’ ou apenas mais arrastadas num Doom mais puro como ‘The Sun Sets’, ou outras ainda onde se recupera o fio condutor do Death Metal compassado, luciférico e imersivo bem ao estilo de ambos os projectos de Gregor Mackintosh (Strigoi e Vallenfyre) como ‘Glass Eyes/Ghoul’ e ‘Granite Sky’. Dada a sua amplitude sonora ‘Feral Darkness’ é um álbum que dificilmente atinge a fase da monotonia independentemente do numero de audições. A duplicidade entre criatividade e imprevisibilidade tem sido de facto a grande virtude dos Tombs, num espectro musical em que a inovação é quase sempre menosprezada em prol da segurança os Tombs continuam com todo o mérito a ser uma excepção. (8.5/10)
Conjurer – “Unself” – Eles têm sido uma espécie de ilha dentro da ilha pois a onda de de Post-Metal que tem inundado a Europa continental não tem atingido o Reino unido com a mesma intensidade, falo portanto dos Britânicos Conjurer a propósito do seu terceiro álbum de originais ‘Unself’. ‘Unself’ não é um álbum “fácil” e muito menos orelhudo, é um álbum que requer várias audições para irem sobressaindo as várias camadas que o constituem. Para além do Post-Metal e o seu fiel aliado Sludge em ‘Unself’ os Conjurer vão ziguezagueando entre contributos de outros sonoridades tais como o Doom Metal em temas ‘This World Is Not My Home’ ou ‘Let Us Live’ ou mesmo um inesperado e apoteótico final rico em Black Metal em ‘All Apart’. Todavia a essência de ‘Unself’ continua e talvez até mais do que nunca a ser quase indistinta aliança entre o Sludge intrépido, sujo e dilacerante e o Post-Metal distorcido e dissonante ou seja, a eterna herança dos deixada pelos Norte-Americanos Neurosis de onde assumidamente os Conjurer se “alimentam”. ‘Unself’ mostra também que os Conjurer têm evoluído musicalmente num sentido cada vez menos polido mas simultaneamente mais genuíno. Uma nota final para os temas em destaque que não poderiam deixar de ser ‘There Is No Warmth’ (a faixa com mais Neurosis de ‘Unself’) e ‘Foreclosure’ uma viagem de intenso Post-Metal que culmina num clímax de intempestivo e gravítico Sludge Metal. (7.5/10)
Scarve – “Irradiant” – Uma banda que provavelmente nunca teve o devido reconhecimento são os Scarve, fundados no longínquo ano de 1994 em terras Gaulesas. A sua curta carreira prendou-nos com quatro álbuns sendo que as suas sonoridades atingiram a meu ver o ponto de maturação no seu terceiro álbum ‘Irradiant’ em 2004. Technical Death Metal não é por certo um dos meus estilos de eleição dentro da multiplicidade de sub-géneros de Metal e muito menos o era há 22 anos, de forma automática e involuntária a palavra aborrecido vêm-me à cabeça quando penso nesse género especifico, todavia os Scarve tiveram a arte e o engenho de desconstruir este dogma. ‘Irradiant’ mostra-nos uns Scarve completamente emancipados e convictos do seu caminho e das suas sonoridades, ao já referido Technical Death Metal a banda consegue agregar influências de Groove Metal e Industrial (Fear Factory e Strapping Young Lad e até Meshuggah embora de uma forma menos óbvia), influências que poderiam à partida parecer incompatíveis mas que a banda teve a mestria de as saber fundir. O resulto foi uma inovadora e interessante amálgama sonora onde se destacam os formidáveis temas ‘Hyperconscience’, ‘Asphyxiate’ (com uma inacreditável secção rítmica) e a fantástica ‘Fireproven’ (pautada por um hipnótico Groove e riffs bem ao estilo de Fear Factory). Outros factores que contribuíram de forma decisiva para a singularidade sonora dos Scarve foi a aposta em dois vocalistas (Guillaume Bideau e Pierrick Valence) e a atmosfera “Cyber”, uma temática indispensável para os Scarve. Os Scarve separam-se em 2009 contudo o “testemunho” ficou bem bem entregue nas mãos dos seus conterrâneos Gojira. (8.5/10)
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