Reportagem Fields Of The Nephilim @ Hard Club, Porto, 31.03.2018

Véspera de domingo da ressurreição na cidade invicta. As oscilações entre frio e calor, próprias da estação, acompanharam o regresso dos Fields Of The Nephilim ao Porto, mais de 8 longos anos desde a sua última aparição em terras lusitanas (também na cidade do Porto, a 6 de Fevereiro de 2010, no Coliseu). O Hard Club ofereceu uma invejável moldura humana a esta paragem da procissão pascal ibérica dos lendários cowboys do Gothic Rock, que no dia anterior já tinham visitado Madrid, num concerto com os mesmos moldes.

As honras de abertura do banquete estiveram a cargo dos Bal Onirique, banda que já conta com mais de uma década de existência, apesar de ter passado vários anos com escassa actividade. Com um som que traz à memória muitos dos grandes pioneiros do Goth e do Deathrock dos anos 80, como The Sisters Of Mercy, Christian Death e os próprios Fields, aguçaram o apetite dos fiéis presentes, com cerca de 40 minutos de hipnose pós-apocalíptica, cuja falha maior até terá sido nunca ter passado do agradável.

Os maiores pontos de interesse desta apresentação do colectivo nacional estiveram na guitarra, no baixo e no teclado, sendo que os riffs melancólicos e melodias frias da faixa “The Lover’s Suicide” foram o destaque maior, e contribuíram para um dos momentos em que a falta de originalidade inerente ao som do grupo foi compensada pela evidente competência dos instrumentistas. Não sendo uma actuação capaz de, por si só, catapultar o grupo para o estrelato, foi um concerto digno, bastante eficaz na tarefa de preparar a mesa para o prato principal.

O tilintar mecânico e frio da máquina de fumo anunciou a chegada dos 5 nefilim – gigantes bíblicos, que na ocasião fizeram de sacerdotes – cujos passos começaram a ecoar pelo interior do antigo Mercado Ferreira Borges ao som dos primeiros acordes de “Dawnrazor”, faixa título do primeiro longa-duração do catálogo dos britânicos. A cortina de fumo, apesar de relativamente leve, não permitia revelar mais do que as silhuetas encasacadas dos membros da banda, que tinham no vocalista Carl McCoy um óbvio destaque, mas este facto não se tornou incomodativo, antes pelo contrário: apenas serviu para aumentar o cenário de misticismo que ia sendo criado pelos sons vibrantes e cativantes, com particular destaque para a secção rítmica, cuja intensidade pautou toda a actuação do lendário colectivo.

A ementa do festim foi-se desenrolando, recheada de grandes momentos: “Love Under Will”, a icónica “Moonchild”, “At The Gates Of Silent Memory” e até “Prophecy”, o single mais recente da banda, um espelho para o estado actual da banda, que tem – desde os tempos de «Zoon» – vindo a conciliar uma dose bem grande de peso metálico com a clássica onda melancólica e dançável, pautada sempre pela criação daquela irresistível atmosfera industrial e pós-apocalíptica da qual os Fields são mestres.

“Psychonaut”, com a sua linha de baixo absolutamente viciante, levou os presentes à transcendência frenética, antes da majestosa “Mourning Sun” ter desacelerado o metrónomo e subido os níveis de emoção desta celebração profana, algo que denota outra das características mais impressionantes do grupo, na ocasião a tremenda variação de mood e de intensidade que os mesmos são capazes de imprimir no seu alinhamento, o que contribui para um espectáculo diverso e bem representativo dos mais de 30 anos de história com que já contam.

O thank you, good night de McCoy e a longa paragem, já instituições incontornáveis nestes meios, deram lugar ao encore, pináculo do festival litúrgico, onde os clássicos “Vet For The Insane” e “Last Exit For The Lost” mergulharam os presentes em intensa oração, manifestando-se bem do fundo dos pulmões, em evidente êxtase. Em apoteose, os nefilim abandonaram o altar após cerca de hora e meia de uma autêntica masterclass que deixou bem patente o porquê de serem uma das grandes referências da música alternativa mundial.

Se me é permitido o sacrilégio, apenas me faltou aquela que será uma das canções mais representativas da discografia dos Fields – “Preacher Man” – mas tal não chegou sequer a beliscar a excelente escolha de temas do alinhamento. Mal do herege, sempre a querer mais do que tem… Independentemente, a noite foi um sucesso estrondoso e, apetece dizer, com celebrações deste calibre, bem que podia ser páscoa mais vezes.

Reportagem por Daniel Laureano
Agradecimentos a At The Rollercoaster


 

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