WOM Entrevista – U.D.O.

Lenda viva do metal alemão, com uma carreira construída através de clássicos do som sagrado quer em nome próprio, quer através dos Accept, U.D.O. não demonstra vontade de abrandar e a provar isso está o seu mais recente trabalho, “Das Musikkorps Der Bundeswehr – We Are One”, um conjunto de novos temas compostos em conjunto com a Orquestra Sinfónica das  Forças Armadas Alemãs, e também já um novo álbum que deverá ver a luz do dia no próximo ano. Uma conversa bastante interessante com um senhor do heavy metal. Por Fernando Ferreira

 

Olá Udo e bem vindo à World Of Metal. É uma grande honra para mim estar a falar contigo, uma verdadeira lenda do metal, acerca deste teu novo trabalho mas antes de falarmos sobre “We Are One”, gostaria de saber como é que tens estado a atravessar toda esta situação da pandemia em que fomos todos mergulhados e como é que te afectou directamente?

Afectou-me directamente (na medida em que) não podemos tocar, não podemos dar concertos. (risos) Até agora, temos andado bastante ocupados com o “We Are One”, promoção, a fazer isto e aquilo. Desta vez fizemos todo o tipo de promoção em relação ao álbum mas por outro lado, já estamos a trabalhar no novo álbum de U.D.O., que deverá sair no próximo ano. Então em vez de ficarmos parados sem fazer nada, decidimos trabalhar no novo álbum, por isso de certa maneira posso dizer que tenho andado bastante ocupado.

Então e em relação ao “We Are One”, como é que ele foi afectado?

Não foi afectado porque já estava feito e acabado antes de tudo isto começar. As gravações e tudo isso já estavam acabadas a meio de Fevereiro, antes da pandemia rebentar, tivemos sorte (risos).

Vamos então falar de “Das Musikkorps Der Bundeswehr – We Are One” – tenho de pedir desculpa pelo meu alemão, que é terrível (risos).

(Risos) Também podes dizer em inglês,que também é bastante longo: “Symphonic Brass Orchestra Of The German Armed Forces”

Há quanto tempo tinhas esta ideia de fazer este álbum com a orquestra?

Sim, já tinha feito um concerto com a orquestra da Marinha no “Navy Metal Night” e depois disso, a Orquestra Sinfónica das Forças Armadas entraram em contacto connosco para ver se seria possível continuar e fazer alguma coisa. Depois fizemos um concerto no Wacken com eles, que teve bastante sucesso.

Em 2015, certo?

Sim, em 2015. E depois demos outro concerto em 2018, de duas horas e meia e não apenas os setenta e cinco minutos que se pode fazer no Wacken. Depois deste concerto em 2018, estavamos todos juntos, no bar e a falar como seria bom fazer qualquer coisa e então surgiu a ideia de fazermos um álbum em conjunto. Mas eu disse que não queria fazer um álbum de músicas já feitas de U.D.O. ou dos Accept. então decidimos fazermos músicas novas para este álbum. Começámos a compor canções, conseguimos reunir cerca de trinta ideias. Tivemos outra reunião, com dois tipos da orquestra a fazer todos os arranjos para a orquestra. Escolhemos todas as canções (das 30) e no final depois dissemos, “ok, agora queremos ouvir aquilo que estão a fazer com a orquestra”. Tivemos os primeiros arranjos para “Future Is The Reason Why” e ficámos “uau, isto funciona!” Desde que tudo começou devemos ter demorado com os arranjos cerca de… nove, dez meses, quase um ano. Não estivemos sempre a trabalhar nisto, tivemos algumas pausas pelo meio. Fizemos todas as gravações e aqui temos, o álbum “We Are One”.

Era para perguntar isso de seguida, daquilo que estamos habituados, neste tipo de aventuras ou experiências, é mais comum vermos uma banda pegar na sua obra já feita e simplesmente fazer versões ou dar um concerto. O que é realmente desafiador e até refrescante é termos estas novas músicas que até conseguem soar bem sem o elemento sinfónico, soar como um álbum do U.D.O.

Sim (hesitante), julgo que algumas canções podem ser assim, embora se tenha que mudar os arranjos e talvez assim possam ser tocadas sem a orquestra mas, não sei, não penso que queiramos fazer isso. Penso que o plano seria, “ok, este ano vamos lançar o álbum e apresentá-lo no Wacken. Também tínhamos o plano de fazer quatro ou cinco concertos na Alemanha com a orquestra mas…

Esses planos foram à vida.

Sim (risos) Já fomos confirmados para o próximo ano no Wacken, portanto neste momento estamos, apesar de tudo, numa boa situação. O álbum já saiu e agora podemos observar como é que o álbum é recebido e o que é que as pessoas pensam e talvez depois possamos fazer mais concertos com a orquestra no próximo ano. Temos tempo suficiente para preparar tudo. Se quisermos fazer mais concertos, principalmente se for para fazer fora da Alemanha, vai exigir muito trabalho. (risos)

Imagino. Como foi voltar a trabalhar com Peter Baltes (ex-baixista dos Accept) e com o Stefan Kaufman, na composição? Embora Stefan já tenha trabalhado convosco na produção, mas refiro-me à escrita.

O Stefan Kaufman já estava planeado trabalhar connosco desde o início, já nos tinha ajudado no nosso último concerto com a orquestra em 2018 e, claro, também estava connosco quando nos sentamos e falámos da possibilidade de fazer um álbum, então ele já estava incluído no plano de gravarmos todas as partes das guitarras e da cena do Wacken. Falámos, ele disse que tinha umas ideias e nós “vamos a isso”, não tenho nenhuns problemas, desde que sejam boas canções, não há qualquer problema de colocá-las neste projecto. Ele ligou-me uma vez e disse-me que tinhamos de fazer umas demos das coisas para que a orquestra possa trabalhar por cima. Fui até ao estúdio e o Peter Baltes está lá (risos). Perguntei-lhe o que é que ele estava a fazer ali. Ele respondeu que estava a gravar algumas canções para o projecto dele com o Stefan, tem andado bastante ocupado, com muita coisa. Claro que falámos de muitas coisas e ele disse que ouviu algumas coisas do projecto com a orquestra, que tinha gostado muito e se ele não se importava de contribuir com algumas ideias. Eu disse que sim, vamos lá ouvi-las, não tenho qualquer problemas com isso se elas forem boas. Para este álbum, não estava estabelecido que as canções fossem todas compostas pela banda, é como se fosse um projecto, sabes? E foi assim que o Peter e o Stefan colaboraram.

Foi algo natural.

Sim, não foi planeado. Com o Stefan um pouco mas com o Peter, definitivamente que não.

Este álbum também foi o primeiro com o novo baixista, Tilen Hudrap, e o novo guitarrista, Dee Dammers. Eles colaboraram de alguma forma para a composição das novas canções?

O Andrey Smirnov (guitarrista) compôs duas canções, o Fabian, Dee Dammers, fez três canções e o baixista, digamos que não estava muito para aí virado. De qualquer forma ele tocou as suas partes, assim como os guitarristas e também tive o meu filho (Sven Dirkschneider) a tocar na bateria.

Podemos dizer que a banda está mesmo coesa?

Sim, definitivamente. Fizeram todos um excelente trabalho neste álbum. Fiquei muito contente e feliz, e por eles também porque o resultado final, uau, é mesmo muito interessante.

Tiveram algumas participações especiais no álbum, uma delas que me chamou a atenção foi a de Manuela Markewitz que fez um excelente trabalho na “Blindfold (The Last Defender)” e “Neon Diamond”. Ela é um nome desconhecido para os fãs de metal mas tem uma bela voz. Como é que te lembraste dela e pensaste que seria perfeita para estas canções?

Tudo começou desta forma. A canção “Blindflod (The Last Defender)” foi idealizada para ser apenas orquestra e voz feminina mas a ideia surgiu também quando disse que queria fazer a “Neon Diamond” em dueto com uma vocalista. O Guido Rennart, que tratou de grande parte dos arranjos, disse “temos uma rapariga que já fez algumas coisas com a orquestra, já fez uns concertos connosco, normalmente coisas mais pop”, e ele disse que talvez resulte de forma perfeita. Eu digo que ficou mesmo perfeito, aquilo que ela cantou, nos dois temas, encaixa de forma perfeita. Também é algo diferente. Muitas pessoas perguntavam-me “porque é que não convidas algumas cantoras mais ligadas ao metal como a Doro?” E eu respondi…

Já foi feito antes..

Já foi feito antes e para este caso em específico, eu andava mesmo à procura de algo diferente. E resultou de forma perfeita.

Também concordo, principalmente no contraste que resulta mesmo bem. Acerca das letras deste álbum, são bastante conscientes a nível social e mesmo directos ao que interessa na minha opinião. A saúde do nosso planeta, o ascender de partidos de extrema direita, intolerância, indiferença. Alguns meses atrás, quando toda esta pandemia começou, todos tínhamos a esperança de que poderíamos emergir disto tudo como melhores seres humanos mas ao longo do caminho parece que tudo se perdeu um bocado. Esta deveria ser a altura em que todos nós deveríamos pensar e sentir que somos, de facto, todos um só, não achas? O álbum já estava acabado em Fevereiro mas parece que a sua mensagem está mais actual e poderosa que nunca.

Sim e já mencionaste tudo, os partidos de extrema direita, com tudo o que se passou na América com o George Floyd e não interessa se és preto, branco, vermelho ou amarelo, somos todos humanos, e temos que viver juntos neste planeta, de parar de lutar uns com outros. Temos um olho atento por todas as questões sociais, com a extrema direita, com todas as guerras e com toda a questão do plástico nos nossos oceanos, as queimadas na Amazónia que é o pulmão da Terra, sabes? Então estas coisas todas estão juntas, vivem juntas e nós estamos atentas a elas. Quero dizer, não há nenhum planeta B, só temos este e as próximas gerações também querem viver nele. É essa a mensagem do álbum, nós somos um.

Pensas ou acreditas que estas coisas vão mudar no futuro? Que as novas gerações tragam mudanças ao actual estado das coisas?

Sim, na Alemanha temos o que chamamos as “sextas-feiras para um futuro”, onde existem muitas manifestações para o clima. Claro que de momento não, devido ao corona, já existe há já algum tempo e o governo já começou a reagir, a fazer planos para mudar muitas coisas que precisam de ser mudadas. Acredito que se realmente nos erguermos e lutarmos, talvez as pessoas acordem, talvez esta situação possa ter um impacto positivo. De momento tenho a sensação de que as pessoas estão mais conscientes, estão mais solidárias, sabes? Talvez, espero que sim que possam haver algumas mudanças já a acontecer.

Como disseste, todos os planos que tinham para concertos foram pelo cano abaixo e não sabemos quando é isto vai acabar, mas ainda assim, tenho de perguntar. Já existem alguns planos para ir para a estrada com este álbum? Alguns concertos especiais com a orquestra? Talvez em 2021 ou ainda este ano.

Sim, sim. Quero dizer, este ano, não penso que vá acontecer. Ainda existe um evento, o Metal Hammer Paradise aqui na Alemanha, é para Novembro mas ainda não existem certezas. Estão a aguardar aquilo que o governo possa dizer mas espero, espero mesmo, que tudo possa acontecer no próximo ano. Tivemos que cancelar concertos este ano na América do Sul, América do Norte, Canadá, Rússia e a digressão longa em conjunto com os Helloween, o que significa que no próximo ano vamos ter de fazer muitas digressões. Os planos continuam a ser feitos, de continuar mas até agora, ninguém sabe o que vai acontecer. Temos a esperança de estar tudo normalizado no início do próximo ano.

Esperemos que sim porque toda a cena está parada, com muitos bares e clubes sem receber nada desde há meses, promotores e bandas. As pessoas têm de comer, têm de pagar as suas contas e não tem sido fácil.

E também ninguém sabe quem é que vai sobreviver no circuito dos clubes. Vai haver também grandes problemas com as bandas mais pequenas. Não é fácil e vamos ver o que vai acontecer no próximo ano.

Sim, principalmente quando a principal forma de receita das bandas mais pequenas é andar na estrada. Já não é vender discos mas vender bilhetes, vender merchandise aos fãs. Esperamos que sim, que seja normalizado em breve.

Esperemos que sim.

Para acabar, queria perguntar qual é a música deste álbum que achas que tem a mensagem mais poderosa e urgente para nós ouvirmos?

Para mim é a “Future Is The Reason Why”, que fala do futuro e tem lá praticamente tudo o que é importante termos em conta nos dias de hoje.

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