WOM Report – Aborted, Entombed A.D., Baest @ RCA Club, Lisboa – 08.11.19

Já há muito que se antecipava este festim de death metal. Já desde o Vagos Metal Fest, onde após uma enorme actuação dos Aborted (e extremamente curta, já que a banda era suposto chegar, tocar e ir logo embora para o seu próximo compromisso ao vivo) estava confirmada esta data para o dia oito de Novembro, trazendo consigo os Entombed A.D. e os Baest, duas outras bandas “monstras” do death metal. As três propostas são muito diferentes entre si, cada uma com a sua particularidade no que à carreira diz respeito – os Aborted têm estado a recuperar algum do terreno perdido com álbuns bem conseguidos e recebidos, os Entombed A.D. finalmente conseguiram-se afirmar em termos criativos para além do peso do legado Entombed e os Baest no espaço pouco superior a um ano editaram dois álbuns cheios de garra, evidenciando capacidades para poderem liderar uma nova geração do género.

Foi com o colectivo dinamarquês que a noite começou. Exactamente à hora prevista, começou-se a ouvir as badaladas que antecipavam algo solene. Algo tão simbólico como os portões do inferno a abrirem-se lentamente. A sala já estava muito bem composta e a expectativa que pairava no ar sentia-se como enorme. Não podendo falar por todos mas pelo o que apreciámos, foram totalmente correspondidas. Com uma energia incrível, os Baest começaram por levar tudo à frente com dois temas retirados do último álbum “Venenum”, “Vitriol Lament” e “Sodomize” sem dar pausa para respirar e estabelecendo logo o que seria o resto da noite, bandas seguintes incluídas.

Extremamente simpáticos (Simon Olsen é um grande frontman) e extremamente eficazes na (por vezes perdida) arte de distribuir porrada sonora tradicional, desde muito cedo que se estabeleceu uma ligação entre os dinamarqueses e o público. A banda em palco é incansável, abraçando por completo a dinâmica de espectáculo de que o metal, em geral, vive – algo que até parece que está em desuso actualmente. “Gula” (lenta e pesada como tudo), “As Above So Below” e “Crosswhore” foram pontos exemplares da sua potência, sendo que esta última contou com a presença de Sven de Caluwé, vocalista dos Aborted, a primeira de algumas participações especiais. Já há muito tempo que não assistíamos uma abertura tão intensa e tão bem recebida por parte do público.

Curiosamente os Aborted foram a segunda banda da noite – ao que tudo indica, tem sido assim nesta digressão – e apesar de parte do palco já estar montado quando os Baest tocaram, o aspecto cénico foi distinto em relação às outras bandas. com as luzes laterais apontadas para o palco apagadas, a única forma de iluminação era através dos leds espalhados pelo chão do palco, pelas laterais, pelos caixões de vidro onde estavam dois “cadáveres” em estado avançado de putrefacção e pelas flashadas ocasionais das luzes de topo. O ambiente estava preparado e o RCA, por esta altura completamente lotado, preparado para receber os belgas com o tempo de antena (e arrisco a dizer, ambiente) merecido.

Quase vinte cinco anos de carreira não são fáceis de espremer em pouco mais de uma hora, mas não acreditamos que alguém tenha ficado com a sensação de que ficou a faltar algo. Começando de forma bruta (e de que forma poderia ser?) com “Terrorvision” e “Deeper Red” do mais recente trabalho “Terrorvision”, o som estava no ponto, alto mas perceptível, havendo apenas algumas questões com o microfone de Sven, que perdia o som de vez em quando. Algo que ficaria resolvido posteriormente. O público, esse, nitidamente estava aproveitar o facto de ser sexta-feira para exorcizar todas as frustrações, usando malhões como a violentíssima “Hecatomb” e “The Origin Of Disease”, fazendo com que o vocalista afirmasse que este foi o melhor público de toda a digressão. Bem sabemos que é o tipo de coisa que as bandas dizem em todas as cidades por onde passam, mas o ambiente estava de tal forma frenético que acreditamos por completo na sua sinceridade.

Tal como os Baest, e apesar da sonoridade violenta que tocavam, os Aborted também demonstraram ser bastante afáveis, principalmente na preocupação com que demonstravam com alguns membros do público quando se arriscavam em manobras acrobáticas mais fora da caixa – algo que uma conhecida marca de bebidas energéticas deveria pensar para futuras modalidades – confirmando sempre se houve alguém se magoou, ajudando a levantar quem estava ao seu alcance. E se antes foi Sven a ajudar Simon dos Baest, agora foi o inverso com o vocalista dinamarquês a partilhar a voz no “A Whore D’oeuvre Macabre”, demonstrando o bom ambiente entre todas as bandas. Para o final ficaria “The Saw And The Carnage Done”, clássico incontestável desta banda que se mostrou grata por estar de volta ao nosso país, não esquecendo até a sua primeira passagem, no não menos mítico SWR Barroselas. Estrondoso!

E como suceder a algo assim? Seria complicado. No entanto a banda que se seguia era aquela que se propôs – sem querer tomar partidos – a pegar no legado dos Entombed e a seguir em frente. Muitas foram as críticas iniciais à banda, sendo que banda de covers dos Entombed era o mais comum. Pois bem. “Bowells Of Earth”, o terceiro e último trabalho da banda e aquele que maior consenso tem vindo a reunir em termos críticos. A banda solidificou-se neste seu caminho para além da pesada herança mas também não a renega. Não foi por isso estranho verificar a forma como foram intercalando temas desse álbum com alguns clássicos do antigamente.

Assim que começou “Elimination”, o público já estava em brasa – tenhamos em conta que o aquecimento anterior também foi considerável para o efeito – e sem parar para respirar, a excelência de “Bowels Of Earth” foi sendo despejada e muito bem recebida por todos os que estavam presentes. Foi com a primeira visita a Entombed que se deu o primeiro circle pit de proporções bíblicas. “I For An Eye”, que apesar de ter um groove gigantesco, também fez exacerbar o entusiasmo. A banda de L.G. Petrov tinha uma arma secreta, o guitarrista brasileiro que entrou recentemente na banda (ainda a tempo de participar no álbum), que tratou de estender mais uma ponte com o público nacional presente (também estavam presentes fãs de outras nacionalidades) puxando por ele na nossa língua. Já L.G. Petrov foi a personificação da simpatia, sempre a sorrir, sempre a tentar comunicar com o público (o léxico era reduzido mas valeu o esforço).

Inevitavelmente que o impacto maior foi facilmente atribuído aos clássicos e na recta final foi uma enxurrada deles. “Stranger Aeons” abriu o caminho para uma sequência demolidora onde um dos pontos altos foi a “Wolverine Blues”, que contou com a participação de Simon dos Baest, que fez o pleno da noite. Obviamente que não poderia faltar “Left Hand Path”, um clássico inquestionável da banda e de todo o death metal sueco. Épico em vários sentidos. A noite poderia ter acabado logo ali mas ainda houve tempo para um “Serpent Speech” e para uma “Supposed To Rot” que encerraram uma grande e memorável noite de death metal onde o mesmo reinou triunfante.

Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos Amazing Events


 

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