WOM Report – Artigo 21 @ Criarte, Carcavelos – 17.09.21

Regresso. Acho que foi a palavra que esteve mais em mente naquela noite em Carcavelos. Um regresso ainda limitado por tudo o que já conhecemos, mas com um brilho de esperança diferente – mais seguro do que outros brilhos de esperança que depois resultaram em recuos. O regresso que falamos é o dos Artigo 21, uma das melhores e mais recentes bandas de punk rock nacional – que em nada fica a dever ao que nos chega lá de fora – que depois de mais de ano e meio ausente voltava a pisar um palco em frente ao seu público. Ainda que um público sentado, resignado mas não convencido. No entanto, o que nos trouxe todos ali era algo mais importante que todas as outras considerações.

Assim que a banda começou a entrar em palco, o entusiasmo fez-se logo sentir ainda que entrecortado por um repentino e surpreendente silêncio solente. Estavamos todos a apalpar terreno e não há nada melhor que quebrar o gelo com o bom punk rock e começaram logo com a energia em alta, com um duplo destaque ao álbum de estreia auto-intitulado de 2015 – “Contradição” e “Ser Capaz”. O público estava sentado mas a energia da banda e da sua música alimentava-o e este nunca se escusou em se deixar contagiar da forma como podia, fosse a bater palmas fosse a cantar.

Outro factor contagiante foi o da boa disposição da banda que muitas gargalhadas arrancou entre os próprios músicos e a assistência. Principalmente quando a linha da frente dos Artigo 21 mandavam para o ar, nos intervalos dos temas, trocadilhos sobre o tema que iriam tocar de seguida, como forma de brincadeira com o vocalista Cardoso. A brincadeira não invalidava a música ser entregue com poder e nisso tem que se referir Nika, o baterista, pela violência que infligiu à bateria, fazendo com que um dos pratos estivesse constantemente a cair. Punk rock com melodia mas também com capacidade para deitar a casa abaixo. Aliás, esse era o espírito com que a banda tinha entrado em palco e não o traiu ao longo de toda a noite.

Para cantar a “Hopenhaga”, um convidado especial subiu ao palco: Zorb, vocalista dos Dalai Lume com a ajuda de Cardoso nos coros, numa música que refere os eternos interesses financeiros que se colocam sempre à frente da protecção do nosso planeta e meio ambiente. Também sentido de forma especial foi o já de si emocionante tema “Sem Herói”, originalmente dedicado a João Ribas mas que agora teve dedicatória a Telmo, pessoa próxima da banda e que também esteve presente no último concerto da banda em Fevereiro de 2020 mas que infelizmente já não se encontra entre nós. O tema tem esse poder emocional de o podermos dedicar a quem nos faz mais falta e quem não está presente na nossa vida.

“Utopia” foi o último tema tocado antes de um encore que não demorou muito a realizar-se. O entusiasmo do público também ajudou a que voltassem depressa mas Cardoso admitiu a possibilidade de ele (e a banda) ser “fácil”. Na minha opinião, e em defesa do vocalista, o espírito que estava naquela sala não dava vontade de ficar muito longe dela. Para o final ficariam os dois já clássicos da banda, “Espera Por Mim”, da estreia e “A Nossa Voz” do mais recente “Ilusão” (que praticamente foi tocado na íntegra) que foram um final praticamente perfeito para uma noite cheia de emoções.

Por falar em emoções bastante presente foi a de agradecimento, onde Cardoso diversas vezes o referiu, em nome da banda, os agradecimentos ao público por ter comparecido e também à sua equipa e à equipa da sala que tornou possível a realização do concerto. É importante ter noção de que tal como a própria natureza, a nossa cena musical, é um ecossistema que precisa ser protegido. Bandas, os técnicos, as equipas que trabalham nas salas onde os eventos se realizam, as equipas que trabalham com as bandas no merch e na promoção, nós (imprensa) e claro, o público, que sem ele nada seria possível. E é bom ver que mesmo apesar de tudo o que vivemos (e continuamos a viver) tudo se conjugou para uma grande noite de punk rock, entre amigos. A música aproxima, a música cura através da alegria e também do exorcismo das nossas tristezas. Que venham mais noites de cura assim, elas fazem mesmo falta. Assim como os Artigo 21 fazem falta à nossa cena punk!

Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos Cristina Carrilho e Artigo 21


 

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