WOM Report – Brujeria, Simbiose, Systemik Violence @ RCA Club, Lisboa – 09.12.2018

Dezembro avança e conforme vamos penetrando fundo na época de paz, amor e boa vontade, nada como uma bela noite de porrada sónica para nos enquadrar no espírito natalício. Talvez os Brujeria não sejam a banda que mais representa esse mesmo espírito mas a avaliar pela comunhão e entrega que ouve com o público, enquadra-se perfeitamente. Mas não nos adiantemos e contemos a história de início. Início falado em português e representativo da grande qualidade que o nosso underground tem, mas isso também é algo que não é (não deveria ser!) novidade para ninguém. Systemik Violence e Simbiose são duas propostas diferentes entre si e até diferentes dos Brujeria mas se o assunto é porrada sonora, “who you gonna call”?

A sala ainda estava algo vazia quando os Systemik Violence subiram ao palco ao som da intro do “Schizophrenia” dos Sepultura e em pouco tempo começou a porrada ao mais alto nível crust/punk/black/thrash metal. Sem grande comunicação com o público – isso também já seria desvirtuar a coisa – a banda despejou violência sónica em temas como “Burning Spirits”, “Pussy Metal” e “Dead Cop” que puxava ao movimento mas o público estava recolhido ao seu próprio canto, sem grandes expansões extrovertidas. Isto até o vocalista Iggy Musäshi saltar para o meio do público e incitar alguma movimentação durante um dos temas. Quem acha que o punk está morto e que já não há bandas realmente ameaçadoras como nos bons velhos tempos (se é que eles alguma vez existiram), aqui está uma banda que nunca desilude.

A banda que se seguiria dispensa qualquer tipo de apresentação. Os Simbiose são por mérito próprio nome maior do grind/crust nacional. A banda passou por uma terrivel perda e encontrou em João Lavagantes um mais que digno sucessor para Sérgio “Bifes” Curto (sucessor e não substituto porque “Bifes” é insubstituível) – algo que não é fácil de o fazer e que Lavagantes assumiu com extrema humildade, tendo tocado com um poster gigante de tributo a “Bifes” sobre o seu amplificador. deixando visível aquilo que todos sentem: “os bons serão sempre eternos – Bifes Not Dead”. O início do espectáculo foi algo moroso, com um soundcheck minucioso mas que se revelou bem proveitoso, já que o som da banda estava para lá de brutal.

Sendo o primeiro concerto da banda após a confirmação de Lavagantes como baixista – já tinha tocado com a banda no Bifes Fest, no qual estivemos presentes – tinhamos alguma curiosidade em ver a banda nesta nova fase e a mesma não desilude para quem espera dos Simbiose aquela porrada incansável e crítica acutilante em relação ao estado da nação. Coesão e entrosamento instrumental e um Johnie sempre aquela presença imponente, que nunca se cansa de puxar o público mesmo quando ele parecia estar um pouco apático em relação ao movimento. Ainda assim a sua insistência teve alguns frutos e conseguiu que houvesse alguma animação entre o público. Inevitavelmente teríamos “Ignorância Colectiva” (dedicada ao camarada fã de Ratos de Porão que parecia algo confuso em relação à banda que estava em cima do palco), “Acabou A Crise, Começou A Miséria” e “Será Que Há Vida Após A Morte” (dedicada a “Bifes”). Um concerto representativo do poder da banda e onde a mesma, através de Johnie, não deixou de agradecer de forma sentida todo o apoio dado nos últimos tempos. Enormes!

A sala palpitava ansiosamente pelos senhores da noite. Brujeria poderá não ser um dos nomes mais emblemáticos do death metal/grindcore, mas a sua presença sui generis e a passagem de um infindável número de músicos bem conhecidos da cena extrema pelas suas fileiras garantiram que se mantivesse como uma entidade de culto desde o lançamento do mítico “Matando Güeros”, em 1993. O culto estava bem presente e se as bandas anteriores levaram com uma atitude menos energética por parte do público – pelo menos em termos de movimento – ficámos com a certeza que se estavam a guardar para a banda (supostamente) mexicana. Após a introdução animada (uma música mexicana que desconhecemos o nome), rebenta “Cuiden A Los Niños” e… abriram-se as portas do inferno. Literalmente.

A animação era extrema e violenta mas sempre numa perspectiva de diversão, alimentada com o poder de malhões como “Colas De Rata” e “La Migra”. O público  estava ao rubro, prestando reverência à banda que nesta encarnação albergava Shane Embury com o nome de guerra Honcho (por muitas máscaras que coloque, é sempre inconfundível), Nick Barker  como Honcho Jr.Anton Reisenegger como El Criminal (dos Lock Up e Criminal) – curiosamente este é o mesmo trio instrumental que compõe também os Lock Up. A comandar os destinos dos microfones e da banda estava uma dupla incansável de comunicadores Juan Brujo (membro fundador) e El Sangrón que interpretaram na perfeição o seu papel e receberam sempre muito apoio por parte do público principalmente quando incentivaram o público a gritar “Fuck Donald Trump” como antevisão da “¡Viva Presidente Trump!”.

E por falar do público, havia um membro do mesmo que estava imparável (o fã de Ratos de Porão), subindo ao palco diversas vezes para tirar selfies com os membros da banda e tentando toda a noite, sem sucesso trocar de boné com um dos vocalistas. Houve outro ainda que subiu para fazer headbang em frente a Nick Barker, sendo que no final da canção o cumprimentou. “Incidentes” seriam talvez impensáveis com outras bandas mas que aqui fluíram naturalmente e sem incidentes. “Consejos Narcos, “No Aceptan Imitaciones” e “Matando Guëros” foram um final de luxo numa actuação que ficará na memória de um RCA Club que mesmo não estando esgotado, esteve cheio o suficiente para abarrotar de energia. No final, enquanto a banda desmontava o equipamento a dupla de vocalista cantou em modo karaoke a “Marijuana”, um clássico à sua maneira também cantado por todos.

Depois de um (autêntico) exercício físico, de várias lições em brutalidade, cantadas em português e em castelhano, foi altura de voltar ao mundo lá fora, que estava bem mais frio e desolador. Afinal por muito violência e agressividade que exista na música dos Brujeria, Simbiose e Systemik Violence, o mundo real é bem mais assustador.

Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos Hell Xis Agency


 

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