WOM Report – Midnight Priest, Ravensire, Scum Liquor, Speedemon @ RCA Club, Lisboa – 31.05.19

Este era um evento há muito esperado. Afinal estamos a falar do regresso dos Midnight Priest aos discos de originais após cinco anos desde o “Midnight Steel”. Essa expectativa também é reveladora da crescimento da banda e do seu impacto entre o público apreciador de heavy metal – que é proporcional também a um salutar crescimento da apreciação do género no geral. O que fez esta noite ainda mais especial foi o facto dos Midnight Priest surgirem muito bem acompanhados por outras três bandas que embora diferentes, têm muitos pontos em comum com as sonoridades mais tradicionais do som sagrado e com duas delas também com trabalhos novos para apresentar: Ravensire, Scum Liquor e Speedemon.

Sem mais divagações, comecemos já com os senhores que abriram a noite, os Speedemon. A banda de Vila Franca de Xira acabou de lançar a sua estreia discográfica (podem ler a sua review no nossa edição de Junho) e a sua actuação baseou-se obviamente em “Hellcome” não deixando de passar também por alguns temas mais antigos como “Messsenger Of  God” do EP “First Blood” de 2015. A mistura entre o thrash e o heavy/speed metal não é nova, nem mesmo no revivalismo que temos nos últimos tempos mas ainda assim há uma inocência refrescante e genuína tal como se estivessemos em 1987. “Atrocity Divine”, “Road To Madness” e “Wall Of Pain” são grandes malhões e um RCA Club ainda a meio gás recebeu-os de forma entusiasta. Sem dúvida que esta é uma banda que merece ser vista e todos os que compareceram a horas para os ver definitivamente que não se arrependeram.

Mudança de palco e soundcheck passados e um desvio estilístico para as sonoridade mais extremas com os Scum Liquor. A mistura desconcertante e vencedora de heavy/thrash metal necro com o crust punk é garantia de diversão metálica. Esta (verdadeira super) banda pode até ter uma postura única mas a verdade é que a ausência de comunicação com o público também faz com que o foco esteja unicamente na música. E não é para isso que todos estávamos lá? Para ouvir temas como “King Shit Cop”, “Booze & Sluts”, “Die Wasted” e “Lifetime Scum” e levar uma autêntica tareia sonora – equiparável aquela que Tosher inflingiu à sua bateria que foi castigada sem qualquer tipo de piedade. Apresentando alguns temas que ainda não foram editados, é de prever que em breve possamos ter algumas novidades editoriais ao melhor estilo descomprometido dos Scum Liquor.

Os Ravensire seguiram-se e foram responsáveis por trazer o foco novamente para o heavy metal tradicional, eles que também estão em vésperas de apresentar o seu terceiro álbum de originais, “A Stone Engraved In Black” do qual pudemos ter uns vislumbres, a exemplo do que tinha acontecido na última edição do Silveira Rockfest. O som sagrado é reverenciado como nunca pelos quatro guerreiros lusitanos, como poucos o fazem, cá dentro ou lá fora, e como tal um RCA quase uniforme em termos de assistência recebeu de forma entusiasta os já clássicos “Cromlech Revelations”, “Night Of The Beastslayer” que iniciaram o seu alinhamento mas teremos que destacar sempre o hino “Drawing The Sword” e os novos temas “Carnage At Karnag”, “Gabriel Lies Bleeding” e “After The Battle” – dedicado a Mark Shelton dos Manilla Road, demonstram ter potencial para igualar ou até superar o impacto no público. Grandes malhas, grandes solos, puro heavy metal.

Depois das três excelentes bandas, a hora aproximava-se da meia-noite e isso significava que o Padre do heavy metal lusitano estava prestes a fazer a sua entrada triunfal. A intro movida a orgão de igreja criou o ambiente perfeito para que os Midnight Priest surgissem com tudo com “Funeral” e “Aggressive Hauntings”, os dois primeiros temas do novo trabalho intitulado precisamente “Aggressive Hauntings”. A recepção exuberante por parte do público evidenciou o excelente momento que a banda atravessa e em como os novos temas são tão eficazes com os clássicos, embora um autêntico hino como “Rainha da Magia Negra” (pessoalmente, o tema que me introduziu à banda) surja sempre como um dos favoritos dos fãs e no RCA não se provou o contrário. Sempre mágico quando temos o público em total comunhão com a banda.

Magia é um termo que podemos repetir várias vezes para descrever este concerto e esta noite de Sexta-Feira. Com um RCA cheio e logo rendido à partida, um som poderoso e o verdadeiro heavy metal a ser muito bem tratado, que outra classificação poderemos usar a não ser o termo magia. E como puderam reparar na nossa mais recente edição, estas novas músicas também não fazem por menos – “Holy Flesh”, “Eyes In The Dark”, “On Your Knees For Metal” e “Iron Heart” (dedicado ao antigo baixista) são temazorros que ganham vida extra em cima do palco e que intercalados com clássicos como “Cidade Fantasma” e “À Boleia Com O Diabo” não se fazem sentir diferença nenhuma. Se instrumentalmente a banda esteve sólida – com uma secção rítmica coesa composta por War Tank (bateria) e Speedfaias Axecrazy (baixo) e com as guitarras de Iron Fist e Tiago Steelbringer que tanto no ritmo como também nos muitos e excelentes solos – Lex Thunder na voz provou mais uma vez (como se houvesse necessidade disso) que foi uma escolha mais que acertada para frontman. Incansável e infalível como atingiu trouxe vida à música dos Midnight Priest.

A banda teve ainda um curto encore, onde tocaram a “Sábado Negro”, que foi escolhida pelos fãs no Facebook. Um final em grande para uma noite inesquecível (onde não faltaram os agradecimentos a todas as bandas de abertura e sobretudo ao público) e que certamente todos os presentes não vão esquecer. Quatro bandas nacionais, três com novos trabalhos e todas com uma ligação forte ao heavy metal, um estilo que muitas vezes parece maldito, quando as pessoas preferem ficar em casa e com salas vazias que não correspondem ao som que as bandas, com paixão, mesmo assim tocam.

A noite de Sexta-feira foi uma excepção felizmente e mesmo tendo noção de que é quase uma excepção para comprovar a regra, queremos ser ingénuos e acreditar que há espaço para o heavy metal em Portugal, que há público para o mesmo – bandas já sabemos que as temos tanto em quantidade como sobretudo em qualidade.  Rick Thor disse na actuação dos Ravensire, “festa de heavy metal, algo raro hoje em dia”, constatando a realidade que temos , no entanto cabe ao público que encheu o RCA e sobretudo ao que não esteve, para apoiar, para comprar os cds e merch das bandas e não apenas lamentar-se do antigamente e não fazer nada, agora. Agora em que temos o speed/thrash metal dos Speedemon e o seu excelente álbum de estreia “Hellcome”, os Scum Liquor e o seu thrash necro javardo e viciante, o heavy metal verdadeiro dos Ravensire e, claro, os senhores da noite, os Midnight Priest e o excelente regresso discográfico que é “Aggressive Hauntings”. Uma festa não só deles, mas de todo o som sagrado. Made in Portugal.

Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos Notredame Productions e Lex Thunder / Midnight Priest


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