WOM Report – Moonspell – Irreligious XXV @ Lisboa Ao Vivo, Lisboa – 18.06.2021

“Irreligious”! Um pedaço da história do metal nacional e um pedaço da história dos Moonspell. Não é inédito a banda lusitana tocar ao vivo este álbum na íntegra mas mediante os vinte e cinco anos que o clássico atinge desde que foi lançado, há motivos de interesse adicionais. Mediante todas as questões pandémicas que têm estrangulado não só a nossa cena musical mas como toda a actividade cultural (com reacções quase sempre cegas e surdas por parte dos responsáveis em reação às necessidades de quem nela trabalha) também há um sabor de triunfo que vem com a representação da obra incontornável da sua carreira. Sabor de triunfo por parte da banda mas sobretudo pelas trezentas almas que encheram o novo Lisboa Ao Vivo, sala que também teve o seu baptismo mais que apropriado.

Para vos situar, a nossa reportagem foi dividida em dois locais diferentes. A nossa intrépida repórter fotográfica esteve no local e é dela que nos chegaram os relatos de que o ambiente vivido não se coadunava com o expectável e que temos presenciado neste cerca de ano meio de pandemia. Apesar de todas as regras pela D.G.S. terem sido cumpridas e apesar de ter sido um concerto onde a assistência estava sentada, o ambiente era de festa onde essas limitações não impediram que a energia fosse palpável e que se sentisse verdadeiro o motivo de se estar ali, celebrar a música. E com fãs não só portugueses mas também estrangeiros que não deixaram de querer marcar presença na noite de comunhão, algo referido por Fernando Ribeiro, dando indicação de fãs polacos e italianos que vieram até Lisboa para o espectáculo.

Esta reportagem escrita foi feita apoiada no stream do espectáculo no conforto caseiro, um stream que chegou a todo mundo (que levou a que Fernando falasse em inglês em algumas ocasiões), com membros da alcateia a comparecerem ao chamado para a celebração. O stream feito pela plataforma Munin.live, que fica disponível por 48 horas após o espectáculo para os bilhetes individuais e 96 horas para comprou para os dois dias (sendo que o segundo dia é dedicado a “Hermitage”, teve uma qualidade assinalável,  com muitos planos de cada um dos músicos, planos da banda toda em palco e planos até que permitiam ver parte do público. Como pequeno contratempo houve apenas uma questão no volume algo baixo nos momentos iniciais mas que prontamente foi corrigida. O facto de ser um evento em stream também fez com que Fernando  se dirigisse em inglês aos fãs estrangeiros que estavam a assistir – algo que o vocalista reconheceu como sendo estranho mas é o fruto das circunstâncias, também eals estranhas.

“Irreligious” é um álbum que marcou a banda mas também muitos fãs. É um álbum que traz muitas memórias e vivências a cada um dos fãs e que acresce a intensidade da actuação da banda. Conforme se ouve a intro “Perverse… Almost Religious”, há um sentimento de magia que se espalha entre os fãs presentes e aqueles que estavam em casa. A banda entra em palco e chega o momento de “Opium”, uma das primeiras e principais bandeiras do álbum, recebido e tocado de forma entusiasta. A história continuava com a sua ordem habitual e sem saltar capítulos. Porque os fãs sabem que depois de “Opium” vem uma “Awake!” que antecede a “For A Taste Of Eternity” e que há uma mística única na forma como estes temas se sucedem.

“Ruin & Misery” foi outro dos temas que depressa se destacaram do álbum, e que hoje, num contexto totalmente diferente poderá ser interpretado como uma triste metáfora à situação da cultura no nosso país. Esta também foi uma oportunidade para voltar a ouvir ao vivo algumas pérolas preciosas que nem sempre surgem num alinhamento habitua dos Moonspell, como “A Poisonous Gift” e a acessível “Raven Claws”. Na recta final, outra sequência demolidora de clássicos: “Mephisto”, “Herr Spiegelmanm” e o hino “Full Moon Madness”, aquela dedicatória aos fãs (que os presentes fizeram questão de uivar no início como manda a tradição) que tem um forte impacto emocional em quem vive sob o feitiço da lua e que conta também com um dos melhores solos de guitarra de Ricardo Amorim.

Chegava ao fim a primeira parte da celebração mas ainda havia mais para festejar. A intro de “In And Above Men” deixava bastante claro o que aí vinha. Do “The Antidote”, outro álbum bem amado por parte dos fãs e que aqui teve a particularidade de ser tocado com duas guitarras, com Pedro Paixão a deixar as teclas para trás e agarrar as seis cordas, algo que já não se via há algum tempo. E claro que depois da primeira faixa do referido álbum, viria “From Lowering Skies”. Surpresa para a “Abysmo”, do algo incompreendido “Sin/Pecado” que soa fantástica com duas guitarras. Uma surpresa agradável que mostra também a riqueza da música dos Moonspell, que se consegue adaptar às mais diversas situações e nesta resultou na perfeição.

Claro que se formos falar do poder das guitarras, mais que se justifica o duplo ataque no regresso ao “Memorial” e “Blood Tells”, dois momentos emblemáticos do álbum de 2006 que só poderiam ser superados pelo outro hino da banda para além de “Full Moon Madness”, “Alma Mater” com as cores de Portugal, que até estava fora do setlist anunciado pela banda – e numa era em que tudo é mostrado e dissecado de antemão, sabe bem ter surpresas assim. O tempo estava a acabar – segundo as normas da D.G.S., todos os eventos têm de terminar às 22:30h – mas este é sempre um dos momentos mais aguardados. Pedro Paixão volta às teclas e ajuda também na voz, assim como Ricardo Amorim e o público adere obviamente, fazendo a sua parte nos coros. Sempre um tema que diz muito aos fãs e que eleva a fasquia de forma (quase) insuperável, ideal para terminar um espectáculo.

No final, a sensação de missão cumprida e de alguma normalidade em tempos anormais. Uma banda em forma, rendida ao seu público (notado pelas várias intervenções de Fernando Ribeiro entre as músicas) que teima em rasgar em pele e manter-se presente, não interessa o quê, não interessando as condições e restrições. Um público que encheu uma sala de vida e que desmistifica que o metal não deve ser visto/sentido através de uma tela em casa, sentado, em pé ou deitado. Um público que se adapta ao que é possível ter porque sabe que amanhã será um dia melhor e é o hoje que importa, estar presente de forma a que seja possível haver amanhã. Para o segundo dia fica reservado “Hermitage”, uma celebração diferente mas que a alcateia comparecerá em peso.

Texto por Fernando Ferreira
Fotos por Sónia Ferreira
Agradecimentos Free Music Events / Sara Does PR / Moonspell


 

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